Muito antes de ganhar espaço nas prateleiras de farmácias e nos serviços de saúde, o uso medicinal das plantas já fazia parte da rotina de diferentes comunidades brasileiras, transmitido entre gerações como uma alternativa para aliviar sintomas e tratar enfermidades. Com o avanço das pesquisas científicas e o reconhecimento do potencial terapêutico de diversas espécies vegetais, esse conhecimento popular passou a ser incorporado de forma mais estruturada às políticas públicas de saúde.
Em 1983, esse saber começou a ser integrado oficialmente à saúde pública por meio do Programa Farmácia Viva, idealizado pelo professor e farmacêutico Francisco José de Abreu Matos, na Universidade Federal do Ceará (UFC). A iniciativa, que hoje integra as políticas públicas do Sistema Único de Saúde (SUS), tem como objetivo ampliar o acesso seguro da população às plantas medicinais e aos fitoterápicos, disponibilizando gratuitamente medicamentos como xaropes, tinturas e outras preparações à base de plantas.
Décadas depois, a iniciativa segue presente em instituições de ensino e serviços públicos de saúde em todo o país. Na Universidade Tiradentes (Unit), o programa integra o estágio em Fitoterapia do curso de Farmácia, que atende cerca de 20 alunos da graduação, além de experiências extensionistas realizadas em comunidades de Aracaju. O trabalho envolve desde o cultivo das plantas medicinais até a produção acadêmica de fitoterápicos manipulados dentro do Núcleo de Fitoterapia da instituição.
Três níveis
A Farmácia Viva é estruturada em três níveis, que acompanham todas as etapas do processo, desde o cultivo das plantas até a produção dos medicamentos fitoterápicos.
Nível 1 – Horto medicinal
De acordo com Cinthia Meireles, coordenadora do curso de Farmácia, a primeira etapa acontece no horto de plantas medicinais da Unit. É nesse espaço que são cultivadas as mudas utilizadas em ações de conscientização e educação em saúde. “Compramos as sementes, fazemos a germinação e, quando as plantas nascem e já estão prontas para virar mudas, elas vão para o horto, onde continuam sendo cultivadas. Depois, quando crescem mais um pouco, são levadas para doação à população”, explica.
Além da distribuição das mudas, o programa também trabalha a orientação sobre o uso correto das plantas medicinais. “Essa doação sempre é acompanhada de orientações. Explicamos qual parte da planta deve ser utilizada se é folha, flor, caule ou raiz e ensinamos a forma correta de preparo. Algumas plantas devem ser preparadas por infusão, outras por decocção, então ensinamos também essa diferença”, afirma Cinthia.
Atualmente, a distribuição de mudas acontece em iniciativas promovidas pela universidade, como feiras de fitoterápicos e atividades educativas no Mercado Augusto Franco. A proposta é ampliar essa atuação junto à rede pública de saúde. A coordenadora pedagógica de Farmácia da Unit, Ingrid Borges, explica que, neste semestre, uma das experiências foi realizada na comunidade São Judas Tadeu, a partir de demandas identificadas pelo Programa Conecta Farolândia.
“Os alunos foram até a comunidade, fizeram estudos etnofarmacológicos, identificaram quais plantas os moradores costumam utilizar, se já cultivavam essas espécies e se o uso estava sendo feito corretamente. Com base nesse levantamento, os estudantes produziram materiais educativos e iniciaram a construção de uma horta comunitária de plantas medicinais na sede da associação de moradores da comunidade”, explica Ingrid. O programa também contou com parceria da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Sema), responsável pela doação das mudas utilizadas nas atividades.
Níveis 2 e 3 – Laboratório
Quando as plantas saem do horto e chegam ao laboratório, entram em ação as etapas seguintes da Farmácia Viva. “No nível dois, trabalhamos com a chamada droga vegetal, que é a matéria-prima vegetal seca. Aquela planta que estava secando na estufa e as plantas secas armazenadas nos recipientes já correspondem a essa etapa”, explica Cinthia.
Esse material seco pode ser utilizado para preparo de chás e também como base para a produção de fitoterápicos manipulados. “Os alunos pegam esse material, fazem a extração utilizando água e álcool, dependendo do tipo de solvente necessário, e produzem os extratos. A partir desses extratos, desenvolvemos produtos, que já correspondem ao nível três da Farmácia Viva”, acrescenta.
Entre os exemplos produzidos no laboratório está uma loção capilar à base de alecrim voltada para auxiliar na queda capilar. Atualmente, os produtos desenvolvidos no Núcleo de Fitoterapia são utilizados exclusivamente para fins acadêmicos e de aprendizagem dos estudantes, mas a proposta é fortalecer o espaço como uma farmácia-escola voltada para ações de saúde pública e distribuição em unidades básicas de saúde.
A expectativa é ampliar a produção de fitoterápicos destinados a demandas recorrentes da população, como xaropes de guaco, produtos à base de espinheira-santa para problemas estomacais, shampoos e antifúngicos. “Já no encerramento do estágio deste semestre, os estudantes irão produzir repelentes à base de citronela para distribuição à comunidade como forma de prevenção contra a dengue”, completa.
Vivência social
O professor Marcelo Nery, que também é supervisor do estágio em Fitoterapia, destaca que a proposta também é despertar a consciência dos alunos sobre esse universo. “Nós não estamos falando simplesmente de chás caseiros. Estamos falando de fitoterápicos, que envolvem um processo muito mais complexo e qualificado. O chá é feito de maneira caseira. Já o medicamento fitoterápico passa por etapas de produção, controle de qualidade e processamento que precisam ser rigorosamente acompanhadas para garantir que, ao chegar ao paciente, o medicamento produza o efeito desejado sem comprometer a saúde da pessoa”, ressalta Marcelo.
Ele relata que o uso inadequado das plantas medicinais ou a utilização incorreta para determinadas condições de saúde pode trazer riscos aos pacientes. “Muitas plantas possuem o mesmo nome popular ou nomes muito parecidos. Então, muitas vezes, as pessoas acreditam estar utilizando uma planta medicinal específica quando, na verdade, estão usando outra espécie completamente diferente. Esse momento também serve justamente para ensinar os estudantes a distinguirem corretamente quais plantas podem ser utilizadas medicinalmente e quais não devem ser utilizadas”, explica o professor Marcelo.
Para os estudantes, o estágio em Fitoterapia representa não apenas aprendizado técnico, mas também uma vivência que amplia a percepção sobre o uso das plantas medicinais e o papel do farmacêutico nesse processo. A estudante Christauanne Campos conta que o contato direto com o cultivo era algo totalmente novo em sua trajetória acadêmica e pessoal.
Segundo ela, disciplinas como Botânica e Farmacognosia ajudam a construir a base teórica necessária antes das atividades práticas desenvolvidas no estágio. “Para mim, essa experiência é algo muito pessoal também, porque é uma realidade que eu nunca tinha vivido antes. Eu nunca tinha trabalhado com essa parte mais ligada ao cultivo. A gente aprende muita coisa nessas disciplinas, mas quando chegamos aqui, colocamos em prática coisas que provavelmente não teríamos oportunidade de vivenciar fora da universidade. Então acaba sendo um aprendizado muito importante e muito diferente”, compartilha.
O estudante Matheus Lima também destaca o papel das atividades práticas dentro da formação em Farmácia. Para ele, o estágio permite revisitar conteúdos estudados ao longo do curso de maneira integrada. “Eu acho muito interessante a prática do estágio em Fitoterapia. Na verdade, não só esse estágio, mas toda a matriz curricular do curso de Farmácia é muito rica em atividades práticas. Nesse estágio específico, por exemplo, conseguimos colocar em prática conhecimentos que vimos no segundo, terceiro e quarto períodos. Então acaba sendo uma oportunidade de enxergar na prática todo aquele conteúdo que acumulamos nas aulas teóricas”, conclui.
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