Um dos grandes diferenciais dos programas de pós-graduação stricto sensu da Universidade Tiradentes (Unit) é o fortalecimento cada vez maior da qualidade acadêmica e da formação de seu corpo docente. Isto passa pela realização de estudos em nível de pós-doutorado, em parceria com renomadas instituições do exterior. Esta jornada começou a ser seguida recentemente pela professora Juliana Faccin De Conto, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP), que está desde o início deste mês de setembro, em Portugal, para uma temporada de estudos na Universidade de Coimbra (UC), uma das mais antigas e tradicionais do país e da Europa.
O pós-doutoramento acontecerá ao longo de um ano, no Departamento de Engenharia Química da instituição portuguesa. Juliana conta que a oportunidade surgiu em 2022, quando uma aluna de doutorado do PEP, orientada por ela e pela professora Silvia Maria Egues, foi enviada a Coimbra para fazer um estágio em regime de doutorado-sanduíche, com orientação e participação da professora portuguesa Luisa Rocha Durães. “Esse primeiro passo marcou o início de uma parceria sólida, que se mantém até hoje. A partir dessa colaboração, outra doutoranda também realizou um ano de pesquisa em Coimbra e, atualmente, estou tendo a oportunidade de vivenciar essa experiência como professora visitante e pesquisadora de pós-doutorado”, lembra Juliana.
Considerada uma das mais antigas universidades do mundo, a Universidade de Coimbra existe desde 1290 e é reconhecida até hoje por sua excelência científica e acadêmica, além de preservar um riquíssimo patrimônio cultural e arquitetônico. Em 2013, foi declarada Património Mundial da Humanidade pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Já o seu Departamento de Engenharia Química, criado em 1972, possui o mesmo conceito e concilia o ensino de qualidade com a pesquisa de ponta, mantendo seu foco na inovação, na sustentabilidade e na ligação com a indústria.
“A vivência em Portugal, por meio da parceria com a Universidade de Coimbra, se correlaciona diretamente com a pesquisa, pois possibilita o acesso a técnicas avançadas de síntese e caracterização de materiais, bem como a troca de conhecimento com um grupo consolidado na área de nanomateriais e aerogeis, coordenado pela professora Luísa Durães. Essa experiência certamente ampliará a minha visão científica e tecnológica, além de fortalecer redes de colaboração internacional estratégicas para a consolidação e avanço das pesquisas no meu grupo de trabalho na Unit”, considera De Conto, ao falar sobre a cooperação científica entre as duas instituições.
Objetivos da pesquisa
É neste ambiente que Juliana vem desenvolvendo a sua pesquisa, sobre o desenvolvimento de aerogeis híbridos de Sílica/MOF para posterior aplicação na captura e conversão de CO2. (gás carbônico). Os aerogeis, também chamados de “fumaça sólida”, são materiais sólidos porosos extremamente leves, feitos a partir de um gel cuja parte líquida foi substituída por um gás. Em geral, eles são feitos usando MOFs (estruturas metal-orgânicas), que também são materiais porosos, mas com uma estrutura cristalina formada por centros metálicos ligados a moléculas orgânicas.
“Devido ao alto custo das MOFs, é necessário desenvolver materiais que minimizem o custo de aplicação desses materiais para aplicação em larga escala, porém que mantenham suas características. Dessa forma, a pesquisa será direcionada para o desenvolvimento desse novo material juntando dois adsorventes porosos (sílica e MOF)”, explica a professora, frisando que este desenvolvimento busca reduzir os custos de aplicação das MOFs sem comprometer suas propriedades estruturais e funcionais, de modo a viabilizar seu uso em processos sustentáveis em escala industrial.
“A proposta dialoga de forma integrada com as pesquisas já em andamento no PEP sobre materiais porosos aplicados a processos de adsorção e catálise, avançando na concepção de um material híbrido que una as propriedades estruturais e de estabilidade da sílica com a alta seletividade e capacidade de interação química das MOFs”, acrescenta Juliana.
Ela diz ainda que o projeto aborda diretamente outros temas de grande relevância, como a mitigação das emissões de gases de efeito estufa e a valorização do gás carbônico como matéria-prima em rotas químicas. “O desenvolvimento destes aerogeis contribui diretamente para o enfrentamento das mudanças climáticas, ao propor alternativas inovadoras para mitigar a emissão de gases de efeito estufa. Além de reduzir os impactos ambientais associados ao excesso de CO₂ na atmosfera, a pesquisa possibilita a valorização desse gás carbônico como matéria-prima em processos químicos e energéticos, favorecendo a transição para uma economia mais sustentável e circular”, afirma.
A pesquisa em Coimbra está articulada diretamente com outro projeto científico: o INCT Capicua, que se dedica à busca de processos e soluções inovadoras para a captura, mitigação e aproveitamento do gás carbônico. Ele existe desde 2023 e se constitui como um Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT), agregando pesquisadores e laboratórios de seis universidades brasileiras (incluindo a Unit) e outras quatro estrangeiras.
Estreitando laços
O pós-doutorado traz não apenas a conclusão de um ciclo, mas também a abertura de novas expectativas e horizontes para a engenheira de alimentos que se formou pela Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões (URI), em Erechim (RS), e chegou a estagiar na Sadia, em Concórdia (SC), antes de se mudar para Aracaju e iniciar o mestrado em Engenharia de Processos na Unit, em 2009. Foi a porta de entrada para uma trajetória contínua de aprofundamento e pesquisa, que passou pela sua contratação como pesquisadora no Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), em 2015, após a conclusão do doutorado no PEP com um período-sanduíche na Wayne State University, em Detroit (EUA). Oito anos depois, ela passou a ser professora no mesmo programa que a formou.
“Agora, chegar a esta experiência de pós-doutorado em uma instituição internacional como a Universidade de Coimbra é a consolidação de toda essa trajetória. Este novo capítulo me motiva a aprimorar minha pesquisa, expandir minhas colaborações e, principalmente, contribuir de forma ainda mais significativa para o crescimento e a excelência do PEP e da Unit. Acredito que a experiência em um ambiente internacional, com acesso a novas metodologias e redes de pesquisa, me permitirá não apenas aprimorar minhas próprias pesquisas, mas também fortalecer o nosso programa”, diz Juliana, ao definir sua experiência em Portugal como “uma via de mão dupla”, que irá construir colaborações duradouras. “Enquanto me aprofundo em novas áreas de conhecimento e estabeleço colaborações internacionais, também estou me preparando para retornar com novas perspectivas, técnicas e uma rede de contatos que beneficiará diretamente a pesquisa no PEP e na Unit”, espera.
A pesquisadora também destacou a iniciativa da Unit em apoiar e viabilizar os períodos de pós-doutorado no exterior para os professores de seus programas de pós-graduação stricto sensu. ”Essa política institucional, que incentiva a qualificação e o aprimoramento em outras instituições, demonstra a visão de futuro da Universidade. Ela não apenas valoriza a carreira individual do professor, mas também fortalece a produção científica do nosso Programa de Pós-graduação em Engenharia de Processos e cria pontes estratégicas com centros de pesquisa de excelência no exterior”, concluiu Juliana.
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