O estudo sobre a eficácia das geotintas produzidas a partir da terra para uso na construção civil foi a porta de entrada da iniciação científica para a estudante Maria Isabella Costa de Oliveira, que está no penúltimo período do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit). Ela foi uma das participantes da pesquisa de iniciação científica realizada entre 2023 e 2024, com orientação do professor Anderson da Conceição Santos Sobral, da área de Engenharias, e participação de Júlia Carvalho Batista do Rosário, também aluna de Arquitetura e Urbanismo.
Realizado no âmbito do Provic (Programa Voluntário de Iniciação Científica da Unit) e apresentado em novembro de 2024 na 26ª Semana de Pesquisa da Unit (Sempesq), o estudo se debruçou sobre os processos e testes de preparação, aplicação e avaliação das geotintas no contexto da construção civil, dentro da linha de materiais sustentáveis aplicados. “O objetivo principal foi estudar o desenvolvimento e o desempenho das geotintas produzidas a partir de solos naturais, avaliando sua viabilidade técnica e seu potencial como alternativa às tintas industrializadas, especialmente considerando aspectos de saúde, sustentabilidade e impacto ambiental”, lembrou Isabella.
As geotintas são produzidas a partir de solos naturais, como argila, silte, e areia. Eles são usados como pigmentos e combinados com cola branca e água, através de um processo físico, sem auxílio de meio químico e com baixo uso de energia. Elas se caracterizam por não exalar o odor forte característico da tintura, em razão da ausência de derivados de petróleo e, principalmente, dos compostos orgânicos voláteis (COVs), substâncias tóxicas presentes em solventes de tintas, vernizes e outros materiais da construção civil.
A aluna conta que o tema das geotintas surgiu a partir de uma proposta do professor Anderson, que há muito tempo já vinha desenvolvendo pesquisas e publicações nessa linha. “Desde o início, o assunto me chamou muita atenção por ser algo diferente do que normalmente vemos na graduação, além de dialogar também com áreas que me interessam, como a Engenharia Civil e o estudo de materiais. A ideia de pesquisar um material simples, natural e com potencial de aplicação real me motivou bastante a seguir no projeto”, conta Isabella.
A partir da proposta de seu orientador, Isabella começou a trabalhar no desenvolvimento, na aplicação e na análise de resultados das geotintas. O processo foi dividido em duas etapas principais: cerca de seis meses dedicados à fundamentação teórica e outros seis meses voltados para a produção, testes e aplicação das geotintas. “Esse equilíbrio entre teoria e prática foi essencial para o sucesso da pesquisa. A pesquisa fluiu de forma muito equilibrada, especialmente pela junção do meu trabalho com o da Júlia, o que contribuiu bastante para o bom desenvolvimento do estudo”, avaliou a autora.
A conclusão foi de que as geotintas podem ser utilizadas como revestimento interno e acabamento decorativo, especialmente em projetos sustentáveis, de baixo custo ou com foco social. Para Isabella, trata-se de um projeto “muito relevante para a sociedade”, por abordar o uso de tintas não tóxicas e propor soluções que otimizem custos e não prejudiquem o meio ambiente, nem a saúde das pessoas.
“Muitas pessoas apresentam sensibilidade a produtos convencionais, passando mal com odores fortes e substâncias químicas presentes nas tintas industrializadas. As geotintas surgem como uma alternativa mais natural, saudável e acessível, contribuindo para ambientes mais seguros e para uma construção civil mais consciente e responsável. Além disso, elas reduzem o uso de materiais derivados do petróleo, diminuem a emissão de poluentes e valorizam recursos locais, o que pode fortalecer práticas construtivas mais alinhadas com questões ambientais e culturais”, considera Isabella.
Uma vivência desejada
Além da apresentação na Sempesq, a pesquisa foi apresentada pelo professor Anderson aos calouros e veteranos do curso de Arquitetura e Urbanismo, durante o início do ano letivo de 2025. A ideia é de que, em breve, a pesquisa seja publicada como artigo científico, o que já se encontra em estágio inicial de organização para submissão a publicações especializadas. “Apesar de já ter sido finalizada há algum tempo, estamos em processo de busca por revistas adequadas, considerando que o trabalho transita entre as áreas de Arquitetura e Engenharia. A publicação é um objetivo importante para fortalecer nosso currículo acadêmico”, acredita a aluna.
Um currículo que já ganhou força através desta participação na iniciação científica. A própria Isabella conta que já desejava vivenciar essa experiência e que, para isso, inspirou-se no exemplo de seu irmão, o psicólogo Franklyn Jeferson Costa de Oliveira, que é egresso da Unit e também atua como pesquisador na área de Psicologia do Esporte, com diversos artigos publicados em livros e congressos. A futura arquiteta pretende trilhar o mesmo caminho, ingressando em um mestrado com foco na área de pesquisas relacionadas a materiais, sustentabilidade e construção civil.
Para ela, a iniciação científica foi muito importante na trajetória acadêmica, que contou com a contribuição da Unit na estrutura, na orientação qualificada e no incentivo à pesquisa. “A minha participação no projeto foi extremamente positiva e enriquecedora. Participar dele me permitiu compreender melhor o universo da pesquisa, desenvolver autonomia acadêmica e enxergar a arquitetura também como um campo de investigação científica. O ambiente acadêmico e o apoio institucional foram fundamentais para que a iniciação científica acontecesse de forma organizada e produtiva, fortalecendo minha formação e ampliando minhas perspectivas profissionais”, concluiu Isabella Costa.
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