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Forró reafirma raízes culturais do Nordeste e ganha força em centros urbanos

Reconhecido como Patrimônio Cultural do Brasil, o ritmo tradicional vai além da música e se firma como símbolo de pertencimento para os nordestinos, inclusive fora da região

às 12h41
Reprodução: F5 News
Reprodução: F5 News
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De zabumba a sanfona, das festas juninas do interior às casas de show nos centros urbanos, o forró percorreu um longo caminho para se consolidar como uma das expressões culturais mais emblemáticas do Brasil. Nascido no Nordeste, especialmente em meio às festividades de São João, Santo Antônio e São Pedro, o gênero teve suas origens firmadas nas celebrações populares e ganhou forma com o uso de instrumentos como a sanfona, o triângulo e a zabumba.

Foi na década de 1940 que o forró ultrapassou as barreiras regionais e ganhou projeção nacional, impulsionado pela obra de Luiz Gonzaga, o “Rei do Baião”. O artista popularizou o gênero ao retratar, com lirismo e força poética, as realidades do sertão: a seca, o amor, a migração e a fé. 

Desde então, o forró não apenas se consolidou como símbolo nordestino, mas se tornou um importante canal de expressão cultural e social. “O forró conecta o povo nordestino à sua origem, mesmo quando ele está distante geograficamente. É um instrumento de identidade e resistência”, explica o professor Rony Silva, da Universidade Tiradentes (Unit).

Música como território simbólico

Mais do que ritmo, o forró é, segundo Rony, um espaço de memória e pertencimento. Nas grandes cidades, como São Paulo, onde há uma significativa comunidade nordestina, o gênero atua como ponte afetiva entre o migrante e sua terra de origem. O som da sanfona, para muitos, é mais do que nostalgia: é reafirmação cultural.

“Mesmo longe do Nordeste, o forró reafirma quem somos. Ele nos reconecta com as raízes e cria laços entre quem compartilha a mesma história”, comenta o professor. A presença de festas típicas, baladas dedicadas ao ritmo e quadrilhas urbanas em centros como São Paulo é prova do quanto o forró resiste e se adapta sem perder sua essência.

Com o passar dos anos, o gênero se desdobrou em diferentes vertentes. O chamado forró pé-de-serra, de raízes tradicionais, mantém a formação instrumental básica e canta o cotidiano sertanejo, o amor e a religiosidade. Já o forró eletrônico e o universitário incorporaram guitarras, teclados e batidas mais modernas, atingindo novos públicos. Nomes como a banda Calcinha Preta exemplificam essa transição para sonoridades mais pop, ainda que ancoradas na matriz nordestina. “O forró evoluiu, ganhou novos formatos, mas sem perder a essência. Cada vertente tem seu papel em manter viva a cultura”, destaca Rony.

Reconhecimento institucional

A importância do forró ultrapassa o aspecto cultural e foi reconhecida oficialmente. Em 2021, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) registrou as matrizes tradicionais do forró como Patrimônio Cultural do Brasil, após um processo que envolveu estudos e contribuições de artistas e pesquisadores de diversas regiões.

Dois anos depois, em 2023, a Lei nº 14.720 foi sancionada, reconhecendo o forró como manifestação da cultura nacional. A legislação fortalece a proteção e a valorização do gênero, garantindo incentivos para sua difusão e preservação, especialmente em contextos urbanos e educativos.

Preservar para pertencer

Em um tempo em que a globalização muitas vezes dilui expressões culturais locais, o forró se mantém como uma fortaleza identitária. Segundo Rony, a valorização desse patrimônio vai além da memória. “Preservar o forró é preservar o que somos enquanto povo. É manter viva a linguagem de um Brasil que pulsa no ritmo da sanfona”, aponta Rony.

O desafio, aponta o professor, está em garantir que as novas gerações reconheçam o valor dessa tradição seja em Sergipe, seja na capital paulista. E isso passa por políticas públicas, educação cultural e incentivo à produção artística local. “O forró é mais do que dança ou melodia. Ele carrega consigo histórias de luta, fé e esperança. Para o nordestino, é símbolo, é território, é resistência. Seja em uma vila sertaneja ou em uma estação de metrô paulistana, quando a zabumba rufa e a sanfona chora, há um povo inteiro que se reconhece e se sente, finalmente, em casa”, ressalta.

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