O Brasil possui mais de 80 cidades históricas tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), além de patrimônios reconhecidos mundialmente pela Unesco. Um deles é a Praça São Francisco, em São Cristóvão, espaço marcado pela convivência entre preservação histórica, turismo, manifestações culturais e a rotina da população. Essa relação entre patrimônio cultural e desenvolvimento urbano é o eixo da pesquisa desenvolvida pela professora de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tiradentes (Unit), Millena Moreira, durante o doutorado sanduíche realizado na Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, entre setembro de 2025 e março de 2026.
Vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de Sergipe (PRODEMA/UFS), a pesquisa analisa sustentabilidade urbana e conservação de centros históricos a partir da realidade da Praça São Francisco. Durante o período na Inglaterra, Millena integrou a Escola de Arquitetura, Arte e Design da Universidade de Portsmouth, sob supervisão do pesquisador Dr. Tarek Teba, com o objetivo de aprofundar o referencial teórico da tese e ampliar o diálogo internacional sobre os temas investigados.
As apresentações abordaram especialmente o Festival de Artes de São Cristóvão (FASC), compreendido na pesquisa como uma prática cultural capaz de transformar a praça em espaço de encontro coletivo, convivência social e disputas simbólicas sobre o uso da cidade. “Ao longo da atuação no ensino de Arquitetura e Urbanismo, percebi que a sustentabilidade vai além de uma questão técnica e envolve também memória, qualidade dos espaços públicos e condições de vida da população. Em São Cristóvão, o patrimônio cultural não é apenas um conjunto edificado, mas um espaço vivido por moradores, visitantes, artistas e comerciantes”, ressalta Millena.
A escolha da Universidade de Portsmouth também aconteceu pela proximidade entre a pesquisa desenvolvida por Millena e os estudos conduzidos pelo professor Tarek Teba na área de patrimônio arquitetônico e conservação urbana. “Portsmouth é uma cidade portuária, histórica, marcada por questões de patrimônio, memória marítima, reuso de edifícios e transformação urbana. Essa experiência permitiu construir diálogos entre o caso brasileiro, em São Cristóvão, e outros contextos urbanos internacionais”, afirma.
Novas percepções
Entre os principais achados da pesquisa, a professora destaca a necessidade de compreender como políticas urbanas e diretrizes internacionais são efetivamente aplicadas no cotidiano das cidades históricas. “Uma das principais percepções é que incorporar a Agenda 2030 ou os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nas políticas municipais não garante, por si só, uma gestão urbana mais equilibrada. É necessário observar como essas diretrizes são traduzidas em ações concretas, como afetam os espaços históricos e como são percebidas pela população. O FASC, por exemplo, fortalece práticas culturais e amplia o acesso ao Patrimônio, mas também exige cuidados técnicos relacionados ao impacto físico, sonoro, visual e estrutural sobre o sítio histórico”, elenca.
Além do aprofundamento teórico e metodológico, a experiência internacional também trouxe impactos na formação pedagógica da professora. Durante o período no Reino Unido, Millena participou de seminários acadêmicos, apresentou pesquisas para diferentes grupos de estudo e concluiu o Programa de Desenvolvimento Profissional para Estudantes de Pós-Graduação (GProf), voltado à formação pedagógica de doutorandos que atuam no ensino superior. Ela também integrou o programa artístico Connect, realizado em parceria entre a Universidade de Portsmouth e a galeria Aspex Portsmouth, experiência que resultou na exposição “Mapping Identity”.
Reflexos na formação
O conhecimento adquirido durante o doutorado sanduíche deverá ser incorporado às atividades desenvolvidas em sala de aula nos cursos de Arquitetura e Urbanismo. Millena afirma que pretende trabalhar com estudos de caso, leitura de paisagens urbanas, análise de centros históricos, mapeamentos, observação de espaços públicos e avaliação de valores patrimoniais, além de ampliar as discussões sobre sustentabilidade para além da dimensão ambiental. “Também pretendo abordar cultura, memória, participação social, acessibilidade, direito à cidade e impacto das decisões projetuais sobre a vida cotidiana. A experiência também contribuirá para aprimorar práticas de avaliação, feedback e acompanhamento dos estudantes”, ressalta.
Segundo ela, a pesquisa pode contribuir diretamente para a formação de profissionais mais atentos às relações entre cidade, patrimônio cultural e responsabilidade socioambiental. “Em vez de compreender a sustentabilidade apenas como desempenho técnico, os estudantes podem passar a analisá-la como parte de um processo mais amplo, que envolve território, cultura, população e gestão urbana. Quando a preservação do patrimônio é articulada à sustentabilidade urbana, ela pode favorecer melhores espaços públicos, maior acesso à cultura, fortalecimento da identidade local, turismo mais responsável e políticas urbanas mais participativas”, infere.
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