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Saiba como evitar riscos de metanol em bebidas clandestinas

Médica hepatologista explica sintomas e reforça importância de atenção à procedência

às 20h17
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O aumento de episódios de intoxicação por metanol em bebidas adulteradas tem causado apreensão entre autoridades de saúde e levantado alertas à população em todo o país. A preocupação está na dificuldade de identificação do contaminante, já que o metanol não altera sabor, cheiro ou cor do produto. Nesse cenário, reconhecer os sintomas, que evoluem de forma rápida, pode ser determinante para evitar complicações graves e até a morte.

A hepatologista e professora de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), Thaissa Viaggi, explica que os efeitos do metanol no organismo ocorrem à medida que a substância é transformada em ácido fórmico, composto responsável pelos danos metabólicos e neurológicos. Ela detalha que os sintomas se apresentam em fases, iniciando com sinais inespecíficos que dificultam o reconhecimento imediato da intoxicação.

“Na fase inicial, que ocorre entre 6 e 24 horas após o consumo, surgem manifestações semelhantes à ressaca ou à intoxicação comum por etanol: náuseas, vômitos, dor abdominal, dor de cabeça, tontura e sensação de fraqueza. Como esse quadro é muito próximo do que se considera habitual após beber, muitas pessoas demoram a procurar ajuda”, observa a médica.

Com a progressão para a fase intermediária, entre 12 e 48 horas, o acúmulo do ácido fórmico no organismo causa acidose metabólica grave. “Nesse momento, podem surgir alterações visuais, como visão turva, sensibilidade à luz e manchas no campo de visão, além de confusão mental, sonolência acentuada, convulsões, taquipneia e queda da pressão arterial. Se não houver atendimento rápido, a condição pode avançar para edema cerebral, arritmias, insuficiência respiratória e renal”, ressalta.

Riscos severos exigem atenção imediata 

Sem tratamento adequado, a intoxicação por metanol evolui para quadros críticos que podem resultar em sequelas irreversíveis. Segundo Thaissa, a consequência mais temida é a cegueira permanente, decorrente do dano direto do ácido fórmico ao nervo óptico. “É uma emergência médica. Quanto mais tempo passa sem intervenção, maior o risco de déficits neurológicos graves”, afirma.

Além dos danos à visão e ao sistema nervoso, a médica explica que órgãos como rins e pulmões também podem ser afetados. “O agravamento pode culminar em falência múltipla de órgãos e morte. A gravidade se potencializa porque, muitas vezes, os sintomas mais importantes aparecem quando o quadro já está avançado”, orienta.

Por isso, a recomendação é buscar atendimento diante de qualquer sintoma após ingestão de bebida suspeita, especialmente quando surgirem alterações na visão, confusão ou dificuldade respiratória. “Pessoas em vulnerabilidade social e com hábito de consumir bebidas clandestinas estão mais expostas ao risco”, acrescenta.

Tratamento é específico 

A intervenção médica na intoxicação por metanol precisa ser rápida e direcionada. Segundo a médica, o antídoto consiste em bloquear a transformação do metanol em ácido fórmico. “O tratamento específico utiliza Fomepizol ou etanol para impedir a produção do metabólito tóxico”, explica. Além disso, a acidose metabólica deve ser corrigida com bicarbonato, e a hemodiálise pode ser necessária em casos de alterações visuais ou quando os níveis de metanol no sangue estão acima de 50 mg/dL.

A hemodiálise atua retirando substâncias tóxicas do sangue, reduzindo o dano sistêmico. A médica reforça que todo o processo é tempo-dependente quanto antes o paciente chega ao hospital e recebe o tratamento adequado, maiores as chances de recuperação sem sequelas. “Países e instituições de saúde adotam protocolos específicos para agilizar o atendimento. No Brasil, hospitais vêm adaptando seus fluxos, e equipes precisam estar treinadas para reconhecer e agir diante do quadro”, pontua.

Como se proteger

A melhor prevenção é não consumir bebidas alcoólicas de origem duvidosa ou ilegal. Thaissa reforça que, por não alterar características perceptíveis, o metanol só pode ser identificado por análise laboratorial, tornando essencial verificar a procedência antes da compra. Ela orienta que o consumidor observe se o rótulo contém registro do Ministério da Agricultura (Mapa), informações em português sem erros e se o lacre da embalagem está intacto. Também é importante buscar o selo fiscal.

Evitar compras em locais não confiáveis e desconfiar de preços muito abaixo do mercado são medidas simples que podem evitar graves riscos à saúde. Em ambientes de festa e eventos, recomenda-se atenção redobrada à origem das bebidas.

“Se houver suspeita de intoxicação, a primeira atitude deve ser procurar imediatamente o serviço de saúde mais próximo. Até a chegada ao atendimento, é indicado monitorar a respiração e o nível de consciência e não ingerir mais álcool. O reconhecimento precoce pode salvar vidas e evitar sequelas permanentes”, reforça.

Fiscalização e rastreabilidade ainda são desafios

Para a médica, ações de fiscalização mais rígidas são imprescindíveis para diminuir o número de casos. Ela ressalta a necessidade de rastreamento da produção até a venda, identificando todo o ciclo da bebida. Quando produtos irregulares são encontrados, devem ser notificados e sofrer penalidades.

“Além do controle, é importante ampliar a orientação à população para que reconheça riscos e adote medidas preventivas. Campanhas educativas e difusão de informações claras podem contribuir para reduzir o consumo de bebidas adulteradas. Enquanto avanços em políticas públicas são debatidos, consumidores seguem sendo a linha de defesa mais eficaz contra a intoxicação. Informação, cautela e atenção aos sintomas seguem como pilares fundamentais”, recomenda. 

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