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Da aroeira ao cuidado: pesquisa da Unit transforma ciência em impacto social

Projeto sobre os potenciais da aroeira une pesquisadores e mulheres de comunidade agroextrativista em Piaçabuçu (AL), com ações de saúde, renda e inovação

às 20h35
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A pesquisa científica e a extensão universitária podem atuar conjuntamente em muitos projetos, potencializando os efeitos e benefícios positivos para comunidades inteiras. Um exemplo disso é o “Projeto Aroeira: da biodiversidade à inovação”, desenvolvido na Universidade Tiradentes (Unit) por professores, mestrandos e doutorandos dos programas de Pós-Graduação em Biociências e Saúde (PBS) e Engenharia de Processos (PEP). E que conta com a participação das equipes e das estruturas dos laboratórios de Nanomedicina e Nanotecnologia (LNMed); de Biomateriais e de Pesquisa em Alimentos (LPA) e de Engenharia de Bioprocessos (LEB), ambos do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP).

O projeto tem duas frentes de atuação. Na primeira, o objetivo é investigar o potencial da espécie Schinus terebinthifolius, popularmente conhecida como aroeira, para a criação de formulações medicinais e cosméticas inovadoras, além de alimento funcional. E na segunda, ele trabalha em parceria com a Cooperativa Ecoagroextrativista Aroeira de Piaçabuçu, em Piaçabuçu (AL), formada majoritariamente por mulheres que trabalham com o extrativismo sustentável e sistemas agroflorestais.

“Esse projeto é um exemplo claro da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão. Os conhecimentos gerados no laboratório são transferidos para a comunidade por meio de capacitações e atividades práticas. Ao mesmo tempo, as demandas e saberes da comunidade orientam novas linhas de pesquisa, criando um ciclo contínuo de inovação com impacto social direto”, define a professora Patrícia Severino, do PBS, uma das orientadoras do projeto. 

Esse impacto acontece através da interação entre os integrantes do grupo de pesquisa, formado por oito alunos e oito professores, e as 20 mulheres atendidas pela cooperativa, que atua há cerca de uma década com o processamento de frutas da Mata Atlântica, com destaque para a pimenta-rosa, e também presta serviços de implantação de sistemas agroflorestais e comercialização de mudas e sementes. A ação de extensão promove o conhecimento em saúde feminina e a capacitação das cooperadas para a produção de sabonetes de aroeira, como alternativa de geração de renda para as famílias durante o período de entressafra.  

Troca de conhecimentos

Uma das que atuam diretamente com as cooperadas é a enfermeira Jennifer Nascimento da Silva, aluna de doutorado do PBS e mestre em Biotecnologia Industrial pela Unit. Ela conta que a sua participação no projeto é voltada principalmente para a educação em saúde das mulheres da cooperativa, o que inclui a realização de entrevistas e exames individuais (anamnese) e abordagens sobre temas como primeiros socorros, prevenção de doenças e controle de natalidade. 

“Por meio de palestras e ações práticas, levo informações utilizando uma linguagem simples e acessível, sempre respeitando a realidade e o cotidiano delas. Durante as atividades, também procuro entender as necessidades de cada mulher, realizando um acompanhamento mais próximo para oferecer orientações tanto em grupo quanto individualmente. Esse cuidado permite que o atendimento seja mais eficaz e acolhedor. Mais do que transmitir conhecimento, buscamos construir uma relação de confiança entre profissional e paciente, fortalecendo o cuidado com a saúde dessas trabalhadoras”, relata Jennifer, que apesar de nascida em Aracaju, sempre esteve ligada ao campo, por influência dos avós e desde a infância vivida em cidades do interior da Bahia. 

“O projeto me permite entender, na prática, como é possível contribuir para o fortalecimento da agricultura local e para o desenvolvimento sustentável da comunidade. Além disso, essa experiência ampliou meu olhar como profissional, tornando minha atuação mais sensível, consciente e conectada com as necessidades reais da população. Sempre tive uma forte ligação com a aroeira e já gostava de trabalhar com essa planta, mas, a partir do projeto, esse vínculo se fortaleceu ainda mais. Hoje, consigo enxergar na aroeira não apenas seu potencial técnico e científico, mas também as histórias de vida de diversas mulheres que dependem dela”, acrescenta a doutoranda. 

Jennifer diz ainda que o projeto lhe permitiu conhecer de perto o agroextrativismo local e o trabalho desenvolvido pelas mulheres da cooperativa de Piaçabuçu, o que aprofundou seus conhecimentos sobre os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), antes presentes com mais força nos seus estudos acadêmicos. 

“Ao vivenciar o agroextrativismo local e o trabalho das mulheres da cooperativa, aprendi a valorizar não apenas o resultado da pesquisa, mas todo o processo que envolve as pessoas por trás dela. Isso me trouxe uma nova percepção sobre responsabilidade enquanto profissional, principalmente no que diz respeito ao retorno que a ciência precisa dar à sociedade. Sempre tive em mim uma vontade muito intensa de fazer dar certo, de contribuir de forma significativa. E essa vontade só se fortaleceu ainda mais ao perceber que não estou sozinha, existe um coletivo envolvido, com muitas pessoas dedicadas, cuidando de cada detalhe para que o projeto aconteça”, comenta a pesquisadora.

Atualmente, o projeto atua na comunidade de Piaçabuçu. No entanto, a professora Patrícia assegura que “o modelo é totalmente replicável e pode ser expandido para outras regiões que também trabalham com aroeira ou possuem potencial para o desenvolvimento de cadeias produtivas similares”. E acrescenta que, além da expansão para outras comunidades, o projeto prevê a ampliação das capacitações e o desenvolvimento de novos produtos. “Também estamos avançando em pesquisas com maior potencial de inovação tecnológica, incluindo registros de propriedade intelectual e possíveis parcerias com a indústria”, diz a orientadora.

Estudando a aroeira

A aroeira é uma planta nativa e amplamente distribuída no Brasil, com um longo histórico de uso popular no tratamento de inflamações, feridas, doenças de pele, além de distúrbios respiratórios e gastrointestinais. Suas aplicações terapêuticas já eram descritas na primeira edição da Farmacopeia Brasileira, publicada em 1926. Estudos modernos confirmam esse potencial, apontando que extratos obtidos de suas folhas apresentam propriedades antioxidantes, antimicrobianas, anti-inflamatórias, antialérgicas, cicatrizantes e até de tratamento contra úlceras. “Não se trata apenas de uma planta, mas de um recurso com potencial para o desenvolvimento de soluções para diversas doenças”, resume Jennifer.

Na frente científica, o projeto da Unit integra uma linha de pesquisa mais ampla, voltada ao desenvolvimento de produtos inovadores a partir da biodiversidade brasileira. Entre as frentes em andamento, está o desenvolvimento de um protetor solar contendo nanopartículas de dióxido de titânio (TiO₂) biossintetizadas com extrato de aroeira. A proposta explora a utilização de extrato da aroeira na biossíntese de nanopartículas, uma abordagem alinhada aos princípios da química verde e da nanotecnologia aplicada à saúde.

“Estamos executando ainda estudos voltados para tratamento de tricomoníase, leishmaniose e cicatrização, além de desenvolver um alimento funcional, agregando valor ao fruto da aroeira”, informa Severino, citando que seu interesse pelo tema surgiu há cerca de 10 anos, ao observar o uso dos frutos da aroeira na alta gastronomia, em alimentos e bebidas. “Isso despertou minha curiosidade científica para investigar melhor suas propriedades e potencial de aplicação”, justificou ela.

Além de Patrícia Severino e Jennifer Nascimento, o projeto conta ainda com a participação das docentes Maria Nogueira Marques, Adriana de Jesus Santos, Juliana Cordeiro Cardoso, Heriberto Alves dos Anjos, Ralph Santos-Oliveira (CNEN) e André Luís de Souza Santos (UFRJ). Também integram o grupo as mestrandas e doutorandas Carine Serafim da Cunha Silva, Rayssa Costa Araujo, Pedro Ellison Santos do Nascimento, Dryelle Karoline de Almeida Silveira e Manuela Marques Mendes. “Os alunos participam ativamente tanto das pesquisas laboratoriais quanto das ações de extensão na comunidade. Além da formação técnica, eles aprendem sobre inovação, empreendedorismo, transferência de tecnologia e responsabilidade social. Essa experiência contribui para uma formação mais completa, conectada às demandas reais da sociedade”, afirma a orientadora.

O projeto conta com financiamento da Fundação de Apoio à Pesquisa e à Inovação Tecnológica do Estado de Sergipe (Fapitec) e bolsas concedidas pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), além de parcerias institucionais com a empresa farmacêutica Aura Química e com o Senai Alimentos, instituto ligado ao Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). 

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