Sergipe, embora pequeno em extensão territorial, abriga uma diversidade cultural imensa, muitas vezes desconhecida até mesmo por seus próprios habitantes. Entre as expressões mais vibrantes e autênticas está o Batalhão de Bacamarteiros do povoado Aguada, em Carmópolis, uma manifestação que atravessa séculos mantendo viva a herança afro-brasileira no estado.
A origem dos Bacamarteiros de Carmópolis remonta ao final do século 21, quando trabalhadores escravizados nos engenhos de cana-de-açúcar do Vale do Cotinguiba, durante momentos de lazer, realizavam sambas-de-roda acompanhados por disparos de bacamartes, armas artesanais carregadas com pólvora seca. Essa prática, além de entretenimento, era uma forma de resistência cultural e expressão de fé, homenageando santos das festas juninas, como São João, São Pedro e Santo Antônio.
O professor da Universidade Tiradentes (Unit), Rony Silva, destaca que os bacamarteiros representam um elo entre o passado e o presente, reafirmando tradições, identidade local e orgulho cultural. “Embora existam manifestações similares em estados como Pernambuco, Paraíba e Alagoas, os grupos sergipanos possuem especificidades únicas, como a integração de música, dança e rituais religiosos”, observa.
O ritual do “pisa pólvora”
Um dos momentos mais emblemáticos da tradição é o “pisa pólvora”, realizado em julho, durante as celebrações dos santos juninos e da padroeira de Carmópolis, Nossa Senhora do Carmo. “Nesse ritual, os integrantes do grupo fabricam artesanalmente a pólvora utilizada nos bacamartes, utilizando carvão de imbaúba, cachaça e enxofre. A preparação é acompanhada por cantos e danças, reforçando o caráter comunitário e espiritual da manifestação”, explica Rony.
O Batalhão de Bacamarteiros do povoado Aguada é composto por cerca de 80 integrantes, entre homens, mulheres e crianças. A tradição é passada de geração em geração, com os mais velhos ensinando aos mais jovens a confecção dos instrumentos musicais, feitos com madeira de jenipapo, couro de animais e sementes, e dos próprios bacamartes. “As apresentações são marcadas por danças, cantos e os estrondosos disparos das armas, sempre em locais abertos para garantir a segurança do público”, completa.
Transmissão de saberes
Apesar da riqueza cultural, os bacamarteiros enfrentam desafios significativos, como a falta de apoio institucional, o custo da manutenção dos equipamentos, o desinteresse de parte da juventude e as restrições legais relacionadas ao uso de pólvora. O professor Rony Silva alerta que, se essa manifestação desaparecer, vai junto com ela uma parte da memória coletiva, um canal de expressão identitária e um instrumento de coesão social.
Em 2016, o Grupo Folclórico Batalhão de Bacamarteiros de Aguada foi reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, através do Decreto nº 30.281, de 29 de julho de 2016. Além disso, tramita no Senado Federal o Projeto de Lei 3.044/2024, de autoria do senador Rogério Carvalho (PT-SE), que propõe o reconhecimento dos bacamarteiros como manifestação da cultura nacional, visando assegurar a proteção e promoção dessa importante tradição cultural.
“Os Bacamarteiros de Carmópolis são mais do que uma atração folclórica; são guardiões de uma história que ressoa através dos séculos, mantendo viva a chama da identidade cultural sergipana. Em cada disparo de bacamarte, em cada verso cantado e em cada passo de dança, ecoa a resistência, a fé e o orgulho de um povo que se recusa a deixar sua memória ser esquecida”, destaca.
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