Muita gente que faz uma cirurgia plástica ou procedimento estético, ou mesmo a cirurgia bariátrica, busca muito mais do que a correção de um problema de saúde ou uma melhoria na aparência física. Busca-se também uma melhoria na autoestima pessoal e uma melhor aceitação nos relacionamentos interpessoais, sejam eles amorosos, sociais ou de amizade. Em parte dos casos, sobretudo em pacientes que passam pelo processo da redução de peso, essas mudanças acontecem positivamente, pois eles sentem-se mais autoconfiantes em relação à aparência. Por outro lado, outros pacientes não têm a mesma reação e tendem a ficar mais inseguros ou mesmo piorar alguns comportamentos negativos que já tinham antes.
Assim pode ser definido o impacto psicológico exercido por cirurgias plásticas ou procedimentos estéticos. O assunto passou a ser mais discutido quando tornaram-se públicos casos de celebridades que fizeram a bariátrica e tiveram uma drástica redução de peso, como a apresentadora Sílvia Poppovic, a dançarina Thaís Carla e a cantora Jojo Toddynho. Ambas relataram que ficaram mais à vontade para usar determinados tipos de roupas, após perderem até 80 quilos ao longo do processo de emagrecimento, tanto antes quanto depois da cirurgia.
Segundo a professora Renata Alves de Carvalho Oliveira, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), as cirurgias e procedimentos estéticos podem impactar o psicológico de cada pessoa, pois envolvem a relação do sujeito com seu próprio corpo e com a imagem que ele tem de si. “Para a psicanálise o corpo não é apenas biológico, mas também simbólico, no sentido que é composto também pelo olhar do outro e por questões de um ideal social. Por conta disso, mudar aspectos da aparência pode alterar a forma como o sujeito se percebe, impactando, muitas vezes, diretamente nos seus comportamentos e nas suas relações. Pode ser uma mudança que ocorre acompanhada de uma mudança interna, o que seria o ideal, porém pode gerar mais frustração quando a mudança interna não ocorre”, explica.
Ainda de acordo com Renata, isso acontece porque a nossa imagem corporal está intimamente ligada à construção da nossa identidade. “Quando se altera algo, faz-se necessário rearranjar certas questões que já estavam estruturadas. Vale ressaltar que vivemos numa cultura que tem valorizado bastante procedimentos estéticos, por conta disso é necessário refletir sobre os motivos pelos quais levam as pessoas a recorrer a estes procedimentos, visto que isso pode estar mascarando outras questões mais profundas, como necessidade de pertencimento e validação social”, acrescenta.
A própria cirurgia bariátrica, também conhecida como “redução de estômago”, é o principal exemplo de procedimentos que mais impactam no psicológico e na autoimagem de cada pessoa, pois provoca mudanças muito abruptas na imagem corporal e na relação de cada pessoa com seus desejos e prazeres, principalmente em relação à comida. “Por conta disso, é de suma importância que haja um acompanhamento pré e pós cirúrgico, para que haja uma ressignificação dessas questões sobre a própria identidade da pessoa, a forma como ela se vê e a forma que lida com seus desejos. Se isso não for trabalhado, pode haver a formação de outras compulsões, questões psicológicas como depressão e dificuldade de reconhecimento de uma nova imagem”, alerta a professora.
Procedimentos invasivos
Além da bariátrica, outras cirurgias e procedimentos estéticos provocam fortes mudanças na imagem corporal e podem se desdobrar em impactos psicológicos. Entre as corporais, estão as que removem o excesso de pele e de gordura em partes do corpo, como a lipoaspiração, a abdominoplastia (no abdômen), a mamoplastia (aumento ou redução das mamas), a torsoplastia (ao redor da cintura, também chamada bodylifting) e a braquioplastia (braços e coxas). Já entre as faciais, estão a rinoplastia (que modela o formato do nariz), o lifting (suavização de rugas e flacidez), a blefaroplastia (pálpebras dos olhos), a otoplastia (orelhas), a bichectomia (bochechas) e a ortognática (que altera o crescimento do esqueleto facial e pode interferir em suas funções).
Existem ainda os casos em que a cirurgia ou procedimento não muda ou interfere no comportamento, ou traz poucos efeitos. De acordo com Renata, isso pode acontecer quando a pessoa tomou suas decisões compreendendo que tal processo não foi realizado por pressões externas ou por impulso momentâneo, mas foi pensado e planejado com bastante cautela.
“Vale ressaltar que cada caso é um caso, visto que acredito muito nas especificidades de cada contexto e de cada pessoa. Mas as intervenções podem sim, principalmente realçar aspectos da personalidade de alguém. Por exemplo: Uma pessoa insegura, pode passar por procedimentos, e se tornar mais insegura, recorrendo cada vez mais a outros procedimentos, e não solucionando sua insegurança, visto que internamente ainda permanece insegura”, pontua ela, referindo-se a casos de pessoas que, não satisfeitas com o resultado de uma primeira cirurgia, buscam-se submeter a outras para aprofundar seus efeitos estéticos ou corrigir possíveis “falhas” dela.
“Procedimentos muito invasivos, e que mudem muito a imagem que a pessoa tem de si, podem gerar dificuldades de adaptação ou de aceitação. Se a pessoa não trabalhar bem essas questões consigo (e na terapia), isso pode gerar um efeito negativo”, ressalta a professora da Unit, ao citar três principais cuidados e precauções que devem ser tomados para que esses efeitos não se transformem em algo pior para a saúde mental e corporal: refletir sobre sua relação com seu próprio corpo e com as pressões estéticas contemporâneas, fazer uma avaliação e acompanhamento psicológico caso opte pelo procedimento, e ter uma rede de apoio com quem possa contar nessa nova adaptação.
“Esse acompanhamento ajuda a pessoa a lidar com esse processo de escolha de uma forma reflexiva e não apenas reativa, e caso opte pela cirurgia ou procedimento, terá um profissional preparado para contribuir nesse processo de lidar com o novo, com seu corpo, com a sua relação com os alimentos e com seu prazer. Também é importante que sejam trabalhadas as expectativas, para evitar possíveis frustrações”, conclui Renata.
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