“Cuidado, senhora. Tome as rédeas da sua cria!”. O verso da música “Periferia é Periferia”, do grupo de rap Racionais MC’s, é um aviso muito comum que as pessoas costumam dar a mães de crianças ou jovens com mau comportamento ou que estejam se encaminhando para alguma situação de perigo. Ela ajuda a ilustrar uma conclusão a que chegou uma pesquisa recente da Universidade de São Paulo (USP): adolescentes com algum tipo de supervisão familiar ou acompanhamento mais próximo dos pais, avós ou familiares responsáveis, tendem a desenvolver uma melhor capacidade cerebral de autocontrole, o que favorece a tomada de decisões e evita a adoção de comportamentos de risco, incluindo o cometimento de infrações, transgressões e até mesmo crimes.
No estudo, realizado em 2022 com mais de 1,8 mil estudantes entre 13 e 17 anos, nas cidades paulistas de Ribeirão Preto e Sertãozinho, as pesquisadoras da USP dividiram os adolescentes em grupos com base na intensidade de supervisão parental recebida (monitoramento, diálogo e presença) e avaliaram o nível de autocontrole, o nível de impulsividade e a ocorrência de comportamentos de risco (uso de substâncias, envolvimento em brigas, etc.). Dos achados da pesquisa, destaca-se que os jovens com maior supervisão parental apresentaram menores níveis de impulsividade, maior capacidade de autocontrole e menor envolvimento em comportamentos de risco.
“Isso reitera a teoria de que a supervisão familiar funciona como fator protetivo no desenvolvimento emocional e comportamental”, considera a professora Luana Cristina Silva Santos, do curso de Psicologia e do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED) da Universidade Tiradentes (Unit). Ela define a supervisão familiar como um conjunto de práticas parentais que envolve monitorar, orientar e estar presente de forma ativa na vida dos filhos, incluindo relação à rotina, círculos sociais, atividades escolares e de lazer.
“A supervisão familiar tem um efeito direto no desenvolvimento de competências emocionais e comportamentais, como o autocontrole, a tomada de decisões seguras e a prevenção de comportamentos de risco. Crianças e adolescentes que vivenciam um ambiente com supervisão afetiva tendem a apresentar maior regulação emocional, menor envolvimento com substâncias psicoativas, menor evasão escolar e maior capacidade de planejamento futuro”, afirma Luana.
A idade dos impulsos
Ainda de acordo com ela, o autocontrole é a capacidade de regular as emoções, cognições e comportamentos diante de estímulos, desenvolvendo-se a partir de fatores como maturação neurológica (do córtex pré-frontal por exemplo), experiências no decorrer da vida, ambiente social e cultural. Por sua parte, a impulsividade é associada a respostas emocionais rápidas e dificuldade de controle de comportamentos, constituindo-se em uma característica natural e de todo ser humano.
“Na infância e adolescência, ela tende a ser mais acentuada, dado que o próprio sistema neurológico ainda está amadurecendo. Daí que haverá maior dificuldade em exercer controle inibitório. Adultos que oferecem modelos consistentes, processo de regulação emocional favorecido de forma funcional no decorrer da vida e limites bem estabelecidos favorecem um bom desenvolvimento do autocontrole, o que reflete em comportamentos saudáveis de seguir normas, resistir a impulsos, lidar com frustrações, etc”, detalha a professora.
Este aspecto ajuda a explicar a ideia comum de que os adolescentes seriam mais “propensos” a adotar atitudes e comportamentos de risco. Esta “tendência”, conforme Luana, se deve a fatores biológicos e sociais da adolescência, um período marcado por mudanças hormonais, busca por identidade e reconhecimento social. “O córtex pré-frontal ainda está se consolidando, o que significa menor capacidade de inibição de impulsos. Além disso, os jovens estão construindo sua autoimagem, autonomia e pertencimento social, muitas vezes se distanciando da autoridade parental e se aproximando mais dos pares (amigos, grupos, redes sociais), o que oferece modelos, incentivos e pressões que podem também favorecer comportamentos de risco”, explica.
Ainda de acordo com a professora do PPED, dois fatos complicadores podem impactar negativamente nesse cenário de transição dos comportamentos dos jovens: a sociedade que valoriza gratificações instantâneas, consumo rápido e exposição pública (especialmente nas redes sociais), e o fato de muitos jovens viverem em contextos em que não há canais abertos de comunicação com adultos significativos, “o que favorece a busca por respostas ou validação em fontes externas, nem sempre seguras ou saudáveis”.
Um terceiro fato é a diferença entre dois sistemas presentes no funcionamento da mente humana: o “sistema de recompensa”, no qual o organismo libera neurotransmissores (como a dopamina) que produzem sensações de prazer e motivação a partir de estímulos como comer, ser elogiado, experiências novas, etc; e o “sistema de autorregulação”, que modula comportamentos e controla impulsos a partir do funcionamento do córtex pré-frontal, área do cérebro que atinge a maturação plena na fase adulta. “Na adolescência, há um desequilíbrio natural entre esses dois sistemas o que vulnerabiliza o jovem a comportamentos de risco, isso torna essencial a presença de adultos que exerçam um papel mediador e regulador externo”, confirma Luana.
Minimizando conflitos
Estas características e fatores da adolescência também explicam os constantes conflitos nas relações entre pais e filhos, principalmente na supervisão de suas atitudes e no estabelecimento de limites a serem obedecidos por quem busca mais autonomia na vida. O acompanhamento parental mais intenso, nessa fase, pode ser interpretado como falta de confiança e invasão de privacidade.
A professora Luana Cristina acredita que esses conflitos podem ser minimizados com atitudes baseadas em uma relação de diálogo contínuo entre pais e filhos, com respeito aos limites de privacidade, validação dos sentimentos e percepções da criança/adolescente e com fortalecimento da confiança.
“Embora a adolescência seja uma fase sensível para tal temática, se o vínculo de confiança foi bem construído no decorrer da infância, é provável que a reatividade típica da adolescência seja mais suave e mesmo que os pais sejam aliados e não vistos como inimigos. No processo de supervisão familiar em que o jovem se sente acolhido, validado e orientado, ele tende a internalizar as regras e valores do seu modelo familiar, o que tende a ser fator protetivo inclusive no engajamento em comportamentos de risco”, conclui ela.
com informações do Jornal da USP
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