A Fundação Kofi Annan, criada na Suíça pelo ex-secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), mantém vivo o legado de um dos principais defensores da democracia, da cooperação internacional e da liderança juvenil. Entre as suas iniciativas de maior destaque está o Kofi Annan Changemakers, programa anual que seleciona cerca de 14 jovens líderes de diferentes países para um processo de mentoria, diálogos estratégicos e intercâmbio com especialistas que já atuaram diretamente no sistema das Nações Unidas. O objetivo é formar novas gerações capazes de promover transformações sociais e políticas em escala global.
A edição de 2025 do programa contará com um nome brasileiro. O psicólogo Davi Augusto Soares, egresso do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), foi escolhido como o único representante nacional desta seleção. Sua atuação em projetos ligados aos direitos humanos e sexuais foi determinante para conquistar a vaga em um espaço tão restrito, no qual jovens de diferentes continentes terão acesso a lideranças internacionais e a um ciclo de um ano de formação prática e teórica.
Segundo Davi, a conquista simboliza não apenas o reconhecimento da sua trajetória, mas também a possibilidade de dar maior visibilidade a uma causa urgente. “Fui selecionado não apenas pela minha carreira, mas pelo fato de trabalhar diretamente com educação sexual como ferramenta de combate à violência. Esse é um dos pilares da fundação e acredito que esse alinhamento foi fundamental na minha escolha”, destacou.
Estrutura do programa e legado de Kofi Annan
O Kofi Annan Changemakers tem três eixos centrais. O primeiro é o diálogo entre os jovens e especialistas que já integraram organismos multilaterais, abordando temas como liderança ética, resiliência e redução de divisões sociais. O segundo é o aprofundamento no chamado Kofi Annan Way, que traduz os princípios de liderança praticados por Annan ao longo de sua trajetória diplomática. Por fim, cada participante recebe mentoria individualizada de líderes com décadas de experiência no sistema ONU, garantindo uma troca prática de conhecimentos.
Para Davi, essa estrutura oferece uma oportunidade ímpar de aprendizado e conexão internacional. Ele afirma que a mentoria direta é um dos pontos que mais despertam expectativa. “Estar acompanhado por um líder que possui 30 ou 40 anos de atuação global representa uma chance única de amadurecer a visão estratégica do projeto e de fortalecer sua relevância no cenário internacional”, explicou o psicólogo.
O programa também funciona como uma rede de suporte e intercâmbio. Os jovens selecionados têm a chance de dialogar não apenas com os mentores, mas entre si, ampliando o repertório de práticas e estratégias que já vêm sendo aplicadas em diferentes contextos sociais ao redor do mundo.
Projeto brasileiro ganha visibilidade internacional
O projeto que levou Davi a ser reconhecido pela fundação é o Sex Education For All Hub, plataforma dedicada à conscientização e empoderamento dos jovens em relação aos direitos sexuais. A iniciativa nasceu ainda durante sua graduação em Psicologia e hoje ganha força como ferramenta de enfrentamento à violência sexual, realidade que, segundo dados nacionais, ultrapassa 70 mil casos por ano apenas no Brasil.
“Desde os tempos de estudante, sempre acreditei que a educação sexual é fundamental para que jovens compreendam seus direitos, construam autonomia e consigam enfrentar situações de violência. Transformar esse princípio em um projeto estruturado foi o passo que me permitiu mostrar como a educação pode ser uma resposta concreta a um problema grave”, explicou Davi.
O Sex Education For All Hub se prepara agora para uma fase de expansão. O site está em construção e seguirá cinco etapas: planejamento, desenvolvimento, lançamento, monitoramento e ampliação. O psicólogo já articula parcerias tanto no Brasil quanto em organismos internacionais como UNICEF, UNFPA e UNESCO, que trabalham em consonância com a proposta de fortalecimento dos direitos humanos.
Desafios e perspectivas globais
Apesar da conquista, Davi reconhece que levar o projeto a nível internacional exigirá enfrentar barreiras culturais e políticas. Em muitos países, a educação sexual ainda é vista como tabu, dificultando a implementação de iniciativas consistentes. “A violência sexual é um problema global, especialmente na América Latina. Países como México, Argentina, Chile e Uruguai enfrentam índices alarmantes. Por isso, a plataforma precisa ser adaptada a uma linguagem universal, ética e alinhada aos direitos humanos”, ressaltou.
O psicólogo acredita que a articulação com organismos internacionais será essencial para superar esses desafios. Ele destaca que dialogar com instituições que já atuam na área é uma forma de legitimar o projeto e de torná-lo mais robusto em termos de impacto. Além disso, a rede de contatos formada no próprio programa deve contribuir para abrir portas em diferentes frentes e regiões.
As experiências anteriores de internacionalização de Davi também desempenharam papel decisivo em sua preparação. “Cada programa internacional em que participei foi como uma peça de quebra-cabeça. Todas as vivências me lapidaram, permitindo que eu tivesse um perfil de liderança compatível com o nível do Kofi Annan Changemakers. Essa trajetória mostra que a constância é fundamental”, completou.
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