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Entre a cor e a dor: livro denuncia o racismo obstétrico no Brasil

Dissertação de mestrado de egressa da Unit se torna livro e revela como a interseccionalidade expõe mulheres negras a violações durante a gestação e o parto

às 18h14
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A violência obstétrica atinge milhares de mulheres brasileiras todos os anos, mas os números se tornam ainda mais alarmantes quando recortados pela cor da pele. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) apontam que mulheres negras têm duas vezes mais chances de sofrer violência no parto em relação às mulheres brancas. Entre os relatos, estão procedimentos realizados sem consentimento, xingamentos, negligência e até a recusa de anestesia. Essa realidade, marcada por desigualdades estruturais, mostra como o racismo se manifesta até nos momentos mais sensíveis da vida: a gestação e o nascimento de um filho.

Foi nesse contexto que Juliana Azevedo, mestra em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes (Unit), transformou sua pesquisa em livro. Intitulada originalmente “Racismo obstétrico: análise da interseccionalidade e a violação de direitos humanos das mulheres brasileiras entre 2020 e 2023”, a dissertação defendida em dezembro de 2024 deu origem à obra “Entre a Cor e a Dor: Racismo obstétrico e interseccionalidade no Brasil”, publicada em julho deste ano. O livro conta com o prefácio da professora Grasielle Borges, coordenadora do PPGD-Unit e orientadora da autora e com posfácio da Fernanda Mattos que atualmente é doutoranda no mesmo Programa.

Segundo Juliana, a decisão de publicar foi incentivada justamente pela orientadora, que reconheceu o potencial da pesquisa em alcançar outros públicos. “Desde jovem eu tinha o desejo de ser uma autora publicada, de escrever uma obra que contribuísse para a humanidade e para as relações sociais, especialmente no que diz respeito aos conflitos vividos pelas mulheres. O momento decisivo foi quando minha orientadora no mestrado, professora Grasielle Borges, recomendou a publicação do livro pouco antes da qualificação. Esse incentivo foi fundamental, pois representou o reconhecimento da relevância da minha pesquisa e da minha competência como cientista jurídica”, afirma.

Linguagem acessível e impacto social

Um dos diferenciais da obra é a linguagem adotada. Juliana explica que pensou desde o início em um texto que pudesse dialogar não apenas com a academia, mas também com profissionais de saúde, operadores do Direito e a população em geral. “Eu queria que qualquer pessoa pudesse compreender o que é o racismo obstétrico e como ele se manifesta. Usei termos técnicos, mas sempre explicados de forma simples e prática”, destaca.

A mudança do título, de acordo com a autora, também foi estratégica para aumentar a visibilidade e gerar maior impacto. “Pensei muito até chegar a Entre a Cor e a Dor. Era importante que fosse uma expressão forte, capaz de despertar a curiosidade do leitor e refletir a realidade dolorosa enfrentada por tantas mulheres negras no Brasil”, explica Juliana.

Na obra, a mestra aprofunda a análise sobre como o racismo estrutural, herdado da cultura colonial, influencia práticas de violência no parto. “O racismo obstétrico ainda é um termo pouco difundido, mas ele existe e precisa ser nomeado. Só assim conseguimos enfrentá-lo. Minha pesquisa mostra como as raízes históricas do racismo no Brasil estão diretamente ligadas às experiências dolorosas de mulheres negras nos hospitais e maternidades”, destaca.

A autora explica que o livro propõe caminhos para o enfrentamento dessa modalidade de racismo, oferecendo uma base científica para discussões acadêmicas e para o desenvolvimento de políticas públicas que garantam maior proteção às gestantes negras. A pesquisa exigiu um olhar aprofundado sobre a situação atual do racismo e da violência obstétrica no Brasil, detalhando como essa violência se manifesta e suas conexões com a cultura colonial que se disseminou no país.

Trajetória marcada pela Unit

A relação de Juliana com a Universidade Tiradentes vem desde a graduação em Direito, iniciada em 2016. Na época, já foi orientada pela professora Grasielle Borges em um trabalho sobre a criminalização da violência obstétrica. Retornar à mesma instituição e manter a mesma orientadora no mestrado teve um significado especial. “Foi simbólico dar continuidade às minhas pesquisas na Unit. A instituição faz parte da minha história acadêmica e pessoal. Quando segurei o livro físico pela primeira vez, lembrei de toda a minha trajetória no Direito, e a Unit esteve presente em cada etapa”, relembra.

A mestra também destaca o papel de Fernanda Mattos, uma colega que conheceu no Grupo de Pesquisa em Gênero, Família e Violência da Unit, que se tornou uma figura de mentora e, posteriormente, uma amiga que a auxiliou em diversos momentos de sua jornada como pesquisadora. “O vínculo, que começou com admiração por uma mentora, transformou-se em amizade e apoio mútuo durante a trajetória acadêmica. Convidar Fernanda e outra pesquisadora para o prefácio e posfácio do livro foi uma forma de agradecer e homenagear sua presença e contribuição”, compartilha.

Um livro para mulheres negras e para a sociedade

A expectativa da autora é que a obra chegue principalmente às mulheres negras que desconhecem esse tipo de racismo, mas também aos profissionais que podem atuar de forma preventiva. “Quero que meu livro seja um instrumento de informação e conscientização. Que provoque indignação diante do problema, mas também incentive soluções, pesquisas e políticas públicas em defesa dos direitos humanos e da maternidade negra”, afirma Juliana.

Atualmente, a mestra organiza o evento oficial de lançamento do livro, previsto para outubro, e atua como professora convidada da pós-graduação em Direito Penal e Processual Penal da Unit. “Publicar Entre a Cor e a Dor é a realização de um sonho, mas também o início de novos projetos. Quero seguir como autora jurídica e professora, sempre em diálogo com os Direitos Humanos e com a transformação social”, conclui.

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