De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mais de 60% da população de Sergipe se autodeclara negra ou parda. Apesar de compor mais da metade da população brasileira, a cultura negra segue historicamente marginalizada e invisibilizada nos registros oficiais e na valorização do patrimônio cultural do país. Em Sergipe, no entanto, é impossível contar a história do estado sem reconhecer a contribuição fundamental da população negra para a formação de sua identidade, tanto no aspecto material quanto imaterial.
De acordo com a pesquisadora de raça e gênero, mestranda em Direitos Humanos pela Universidade Tiradentes (Unit) e advogada, Isis Nicoly Mangueira da Conceição, essa influência é parte da base sobre a qual Sergipe foi erguido. “A cultura negra foi fundamental para a construção do patrimônio histórico de Sergipe. Desde o período colonial, a presença negra tem marcado a arquitetura, os saberes populares, a religiosidade e as práticas culturais do estado. Essa influência é viva e resiste até hoje, mesmo diante de séculos de apagamento e marginalização. A cultura negra resiste”, afirma Nicoly.
Entre os marcos históricos que evidenciam essa herança estão o Quilombo Mussuca, em Laranjeiras, símbolo de resistência e de preservação de tradições afrodescendentes, e a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, construída por mãos negras e localizada em São Cristóvão município que abriga também o Convento de São Francisco e a Praça São Francisco, patrimônio reconhecido pela Unesco. Além disso, manifestações como o Lambe Sujo e Caboclinhos, também em Laranjeiras, são expressões vivas da memória e da resistência cultural.
Para a pesquisadora, os traços da ancestralidade negra podem ser encontrados nas técnicas de construção tradicional, nos saberes transmitidos entre gerações, no uso de plantas medicinais e, principalmente, nas religiões de matriz africana. “Essas comunidades preservam a oralidade, a música, a culinária e o culto aos orixás como formas de manter viva uma história que foi silenciada por muito tempo”, pontua.
Reconhecimento
Apesar da inegável presença e influência, a mestranda avalia que o reconhecimento desse patrimônio ainda é insuficiente. Ela observa que, frequentemente, a cultura negra é romantizada ou reduzida a momentos festivos, sem o devido respeito à sua história e a movimentação política de resistência. “É crucial fortalecer políticas públicas de preservação, garantir financiamento para grupos culturais afrodescendentes e cumprir a regulamentação de inserir a história da população negra nos currículos escolares”, comenta.
No que tange às políticas públicas, a advogada acredita que elas ainda são superficiais, pois, em sua maioria, não foram pensadas por pessoas negras. “Embora existam algumas ações pontuais, como a Semana da Consciência Negra, falta uma política estadual robusta e contínua que reconheça, valorize e preserve o patrimônio material e imaterial da população negra em Sergipe”, reitera Nicoly.
Contudo, um avanço nesse cenário foi a aprovação da Lei Municipal nº 5.739/2023, sancionada pela Prefeitura de Aracaju. A legislação dispõe sobre a preservação do Patrimônio Histórico e Cultural de origem afro-brasileira da capital sergipana, reconhecendo oficialmente os Povos e Comunidades de Terreiros como parte fundamental da identidade local. Para além do simbolismo, a lei cria instrumentos que possibilitam a identificação, proteção e salvaguarda de bens materiais e imateriais ligados à ancestralidade negra como terreiros, festas religiosas, práticas culturais, saberes tradicionais e territórios de resistência.
Contribuição dos Direitos Humanos
A pesquisadora também explora a contribuição do estudo dos Direitos Humanos para ampliar o debate sobre a importância da cultura negra no estado. Segundo ela, os Direitos Humanos oferecem as ferramentas para compreender como o racismo estrutural atua na marginalização da cultura negra e fornecem instrumentos teóricos e práticos para enfrentá-lo. “A partir dessa lente, podemos pautar a reparação histórica, a igualdade no acesso à cultura e a proteção dos territórios e saberes afrodescendentes”, completa Isis Nicoly.
Engajar a sociedade nesse processo é essencial. “Penso que participando ativamente de eventos culturais afro, apoiando financeiramente e com visibilidade os coletivos negros, exigindo políticas públicas e educando-se sobre a história da população negra. Essa participação, também passa pelo combate ao racismo religioso e pela defesa dos territórios tradicionais”, projeta a mestranda.
Para quem deseja se aprofundar, Isis sugere visitar cidades como Laranjeiras e São Cristóvão, onde a herança afro-brasileira é evidente na paisagem, nos costumes e nas manifestações culturais. “Conhecer os terreiros de candomblé, participar dos Lambe-Sujos e Caboclinhos, visitar igrejas como a do Rosário dos Homens Pretos e experimentar a queijadinha, que tem origem afro-brasileira, são formas potentes de valorizar essa história e reconhecer a força da ancestralidade negra que moldou Sergipe”, conclui.
Leia também: Gratidão e orgulho de pertencer marcam solenidade do Tempo de Casa