Muito do que se conhece sobre a história, as gentes e as coisas de Sergipe passam pelos textos e pesquisas de Luiz Antônio Barreto. Poucos souberam tão bem conciliar o estilo, o rigor e a profundidade da história, da ciência e do jornalismo com a defesa incansável da valorização de nossa cultura, do nosso folclore e da nossa identidade. Em seus mais de 30 livros e centenas de artigos publicados, ele se consolidou como um dos mais importantes pesquisadores do nosso estado, servindo de referência para outros estudos que buscam reconstituir fatos e aspectos do que hoje podemos chamar de sergipanidade.
Luiz Antônio nasceu no dia 10 de fevereiro de 1944 em Lagarto, na região centro-sul do Estado. Filho de funcionário público, passou a infância acompanhando a família conforme as cidades para onde o pai era transferido. Iniciou os estudos em Pedrinhas, mas morou também em Tobias Barreto, Maruim, Siriri, Riachuelo e Santo Amaro das Brotas, passando ainda pelas cidades baianas de Olindina e Itapicuru, na divisa com Sergipe. As andanças fizeram uma pausa durante os estudos do Ginasial e do Colegial, que ele cursou em Aracaju.
Ainda na capital, estudou na antiga Faculdade de Direito de Sergipe e fez o mesmo no Rio de Janeiro, onde passou pela Faculdade Nacional de Direito e pelo Instituto Nacional de Música (ambos incorporados hoje à UFRJ). De volta a Sergipe, dedicou-se ativamente ao jornalismo, atuando ao longo da carreira como repórter, redator, editor, secretário de redação e colunista em diários como Sergipe Jornal, Folha Popular, A Cruzada, Correio de Aracaju, Gazeta de Sergipe, Jornal da Cidade e Correio de Sergipe. Nos anos 1960, foi editor da revista Perspectiva, além de colaborar com jornais de outras capitais brasileiras. E nos anos 2000, começou a publicar seus textos em um blog no Portal Infonet.
A vivência do dia-a-dia das ruas e redações, as tradições populares dos lugares onde passou e o conhecimento acadêmico adquirido nas faculdades foram construindo a vasta bagagem cultural de Luiz Antônio, que já nas páginas dos jornais, começou a apresentar seus estudos e achados sobre a história sergipana, além de se engajar em causas pela educação e pela valorização da cultura. Não tardou para que esta verve se estendesse para a gestão pública. Em 1971, foi nomeado diretor da Galeria de Arte Álvaro Santos. Entre 1979 e 1981, foi secretário municipal de Educação e Cultura de Aracaju, na gestão Heráclito Rollemberg. E exerceu o mesmo cargo no âmbito estadual, entre 1995 e 1998, durante o governo Albano Franco.
Mesmo quando não esteve à frente da gestão, o pesquisador se destacou em cargos técnicos ligados à cultura e à educação, como a secretaria da Reitoria da Universidade Federal de Sergipe (UFS); a chefia da Assessoria Cultural da então Secretaria Estadual de Educação e Cultura; a diretoria cultural da Fundação Augusto Franco; a superintendência de Documentação da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), no Recife (PE); a diretoria do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, em Portugal; e as assessorias do Instituto Nacional do Livro (INL) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).
Ainda nos anos 1970, foi um dos idealizadores e organizadores do Encontro Cultural de Laranjeiras, que passou a reunir grupos e manifestações folclóricas na cidade histórica, atraindo outros pesquisadores e intelectuais de todo o Brasil. E em 1979, foi eleito imortal da Academia Sergipana de Letras (ASL), da qual também foi presidente entre 1981 e 1983. Na ASL, ocupou a cadeira 23, cujo patrono é o jurista Ciro Franklyn de Azevedo (1858-1927). Foi ainda membro e orador do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IGHS), dos Conselhos Estadual e Municipal de Cultura, e da seccional Pernambuco da União Brasileira de Escritores (UBE).
Um grande acervo
Além de escrever livros e artigos, foi guardando consigo uma infinidade de livros, trabalhos acadêmicos e pesquisas, fotografias, arquivos digitais, discos, fitas e itens históricos que embasaram seus escritos. Ao todo, foram mais de 30 mil itens, incluindo o acervo que pertenceu ao jurista e filósofo sergipano Tobias Barreto de Menezes (1839-1889).
Este, inclusive, foi um dos principais objetos de estudo de Luiz Antônio, que contribuiu decisivamente para o resgate de sua memória e de sua importância como um dos principais pensadores brasileiros. Entre suas principais obras dedicadas dedicadas ao conterrâneo, estão o livro Tobias Barreto: a Abolição da escravatura e a organização da Sociedade, de 1988; Tobias Barreto e a Filosofia no Brasil, de 1990; três ensaios introdutórios à Obra Completa de Tobias Barreto, publicada em 1990 pelo INL; e duas séries de artigos publicadas pela Gazeta de Sergipe entre 1987 e 1989: Nova missão Tobiática no Recife e Tobias Barreto e seus seguidores.
Todo esse acervo foi reunido inicialmente no Centro de Pesquisas de Sergipe (Pesquise), que ele próprio criou e dirigiu ainda no final dos anos 1980. Em 1997, juntamente com outros intelectuais, Luiz Antônio criou o Instituto Tobias Barreto de Educação e Cultura (ITBEC), definido como “uma sociedade civil, de educação, de ciência, solidária, próspera e justa e de uma fraterna comunhão de ideias universais”.
Com a Unit
Um dos principais amigos, apoiadores e inspiradores de Luiz Antônio Barreto foi o reitor e fundador da Universidade Tiradentes (Unit), Jouberto Uchôa de Mendonça, eleito posteriormente para sucedê-lo na cadeira 23 da ASL, em 2013. A convivência começou na década de 1950, quando Uchôa foi seu professor de Matemática no antigo Ginásio Pio Décimo, e se estendeu ao longo de toda a vida. Em seus últimos anos, o historiador passou a colaborar de forma mais estreita com a Unit, que reinaugurou o ITBEC em 2011 e abrigou todo o seu acervo no segundo andar da Biblioteca Central Jacinto Uchôa de Mendonça, onde está até hoje.
No mesmo ano, como parte das comemorações pelos 50 anos da Unit, Luiz Antônio lançou um de seus últimos livros: a biografia Jouberto Uchôa de Mendonça: vida e experiência. Foi o resultado de uma longa série de entrevistas e depoimentos dados pelo fundador, por familiares, colegas, ex-alunos e colaboradores mais próximos, que o ajudaram a reconstruir não apenas a trajetória do Ginásio Tiradentes e sua evolução até o status de Universidade e de Grupo Tiradentes, mas também todos os primeiros 75 anos de vida do professor Uchôa, desde a infância no interior de Alagoas, passando por aspectos da vida pessoal e de como eram a vida cotidiana em Aracaju, em Sergipe e no mundo ao longo das épocas.
“Este compêndio, que evoca o passado e traça o cotidiano de uma saga, é um documento para marcar a história da educação em Sergipe e a contribuição que pessoal e institucionalmente tem dado à sua terra e aos sergipanos, alagoanos, baianos, gente de todo o Brasil, que procura a Universidade Tiradentes para construir sua identidade cultural e participar da vida social do Estado e do País”, apresentou Luiz Antônio, no prefácio do livro.
Luiz Antônio Barreto morreu em Aracaju, no dia 17 de abril de 2012, aos 68 anos. Seu legado, no entanto, permanece vivo em seus livros e publicações. Além do acervo disponível no ITBEC, que pode ser consultado na Biblioteca Jacinto Uchôa, os trabalhos do historiador podem ser vistos em outros espaços culturais de Aracaju, como o Palácio-Museu Olímpio Campos, a Biblioteca Pública Epiphânio Dória, o Memorial do Poder Judiciário e o Centro Cultural de Aracaju, na Praça General Valadão. Desde outubro de 2025, o centro mantido pela Prefeitura de Aracaju passou a ser chamado “Palácio-Museu Luiz Antônio Barreto”, através de uma lei municipal aprovada na Câmara de Vereadores. Foi uma grande homenagem e reconhecimento à vida e obra daquele que passou a ser conhecido como “Senhor Sergipanidade”
com informações da Pesquisa Escolar Fundaj e Palácio-Museu Olímpio Campos.
Leia mais:
Reitor da Unit recebe prefeito de Girau de Ponciano