As manifestações culturais do Ciclo Natalino, como a Taieira, o Cacumbi e a Chegança, são grandes expressões da identidade sergipana, especialmente celebradas no Dia de Reis, 6 de janeiro. Muito além de festividades, estas tradições preservam a história e simbolizam formas de resistência cultural, transmitindo valores e narrativas por meio de música, dança e rituais. Com raízes africanas, portuguesas e cristãs, essas práticas conectam diferentes gerações e fortalecem o sentimento de pertencimento à cultura local.
Para a museóloga e diretora do Memorial de Sergipe, Sayonara Viana, manter vivas as manifestações culturais nos dias de hoje é, sem dúvida, um grande desafio. “Vivemos em uma era marcada pela massificação da cultura de consumo e pela predominância de produtos culturais globais, que muitas vezes acabam ofuscando as tradições locais. Além disso, enfrentamos problemas como a falta de financiamento público, o desinteresse de parte das novas gerações e a perda de mestres e guardiões dessas práticas. Outro ponto crítico é a ausência de uma documentação mais sistemática e a dificuldade de inserir essas tradições no campo educacional”, elenca Sayonara.
O papel do Memorial de Sergipe
Em meio aos desafios, o Memorial de Sergipe que leva o nome do professor Jouberto Uchôa, surge como uma das instituições que mais contribui para a preservação e divulgação dessas tradições. A sala “Nossa Cultura” é um espaço dedicado às manifestações culturais e aos patrimônios imateriais do estado. Através de um acervo riquíssimo e de uma programação diversificada, o Memorial contribui para fortalecer a identidade cultural de Sergipe e garantir que suas tradições sejam transmitidas às futuras gerações.
“Entre as ações destacam-se exposições temporárias e permanentes que exibem objetos, registros audiovisuais e fotografias relacionadas a grupos de Taieira, como as fotografias históricas de Lineu Lins, e à Chegança, retratada em um vídeo que combina ilustrações de Cláudia Nên e a interpretação do Grupo de Teatro de Bonecos Mamulengo de Cheiroso. Além disso, promovemos palestras, seminários e encontros culturais que conectam artistas, grupos e pesquisadores, como o ‘Agosto da Cultura Popular’, em que inauguramos uma exposição temporária dedicada à arte das bonequeiras de São Cristóvão, Simão Dias e Nossa Senhora das Dores”, explica a diretora do Memorial.
O acervo do Memorial de Sergipe é um reflexo vivo da riqueza cultural e da diversidade histórica do estado, reunindo uma ampla gama de objetos, registros fotográficos, audiovisuais e documentos que narram as práticas culturais e a trajetória do povo sergipano. “Entre os destaques estão itens relacionados aos nossos ancestrais afro-indígenas, peças ligadas às religiões de matriz africana e acervos de personalidades sergipanas negras. Além disso, trajes vibrantes das Taieiras e as vestimentas marítimas da Chegança evidenciam a pluralidade de influências africanas, portuguesas e cristãs que moldaram a identidade cultural de Sergipe. Esse acervo vai além das manifestações culturais, abrangendo temas históricos variados, oferecendo uma visão inclusiva e abrangente da memória e da identidade sergipanas”, conta.
Público e engajamento
O público tem diversas oportunidades para acessar o acervo do Memorial de Sergipe, seja por meio de visitas presenciais ou eventos culturais. “Nosso espaço físico abriga exposições permanentes e temporárias, que permitem aos visitantes explorar objetos históricos, trajes típicos, fotografias e vídeos relacionados às manifestações culturais do estado. Também disponibilizamos acesso ao acervo documental e à biblioteca, que guardam registros preciosos dessas tradições. Para fomentar ainda mais o engajamento, promovemos atividades educativas, visitas guiadas e encontros culturais, criando um ambiente acolhedor para estudantes, pesquisadores e a comunidade em geral”, pontua Sayonara.
Outro ponto importante é que existem iniciativas educativas e interativas no Memorial para atrair o interesse das novas gerações para a história e as manifestações culturais do estado. “No Memorial de Sergipe, buscamos atrair o interesse das novas gerações por meio de iniciativas educativas e interativas que conectam o público jovem às manifestações culturais do estado. Promovemos visitas mediadas, oficinas culturais, apresentações de grupos folclóricos e atividades lúdicas que criam uma experiência imersiva e significativa. Essas ações são pensadas para despertar o reconhecimento, o orgulho e a valorização da cultura local entre os jovens, garantindo que as tradições se perpetuem com entusiasmo e relevância”, destaca.
Para os próximos anos, o Memorial de Sergipe planeja ampliar seu alcance através da digitalização do acervo, da produção de conteúdos audiovisuais e da realização de parcerias com escolas e universidades. “A realização de exposições temporárias e a cooperação com outras instituições culturais contribuem para a disseminação da rica história e cultura de Sergipe, atraindo um público diversificado e engajado. Essas iniciativas não apenas preservam, mas também renovam o interesse pelas tradições sergipanas, consolidando o Memorial como um centro de excelência na valorização da cultura local”, infere.
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