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Missa do Cangaço celebra Lampião e resgata a história do sertão

Realizada na Grota do Angico, em Poço Redondo (SE), a cerimônia une religiosidade popular, cultura e reflexão sobre os significados do cangaço para o Nordeste

às 19h03
Reprodução: Assembleia Legislativa de Sergipe
Reprodução: Assembleia Legislativa de Sergipe
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Todos os anos, no dia 28 de julho, centenas de pessoas se reúnem na Grota do Angico, em Poço Redondo, interior de Sergipe, para participar de um dos eventos mais marcantes do calendário cultural nordestino: a Missa do Cangaço. A data relembra a morte de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, de Maria Bonita e de parte do seu bando, assassinados no local em 1938 por forças volantes. Mas a cerimônia vai além da recordação histórica. Ela propõe uma vivência de fé, respeito e reflexão sobre as marcas deixadas por personagens que, apesar das controvérsias, simbolizam a resistência e a identidade do sertão. A celebração mistura oração, romaria, música, literatura de cordel, comidas típicas e manifestações artísticas, consolidando-se como um espaço onde o sagrado e o popular se entrelaçam de maneira autêntica.

Para o professor Rony Silva, do curso de Pedagogia da Universidade Tiradentes (Unit), a Missa do Cangaço atua como uma reparação simbólica. Ela não apenas homenageia figuras históricas, mas reabre o debate sobre os contextos de exclusão e violência que moldaram a trajetória de Lampião e seu grupo. “Essa cerimônia é um reconhecimento de que eles também foram filhos do sertão, vítimas de um cenário de miséria e abandono. Ao trazer esses personagens para o centro de uma celebração religiosa, a missa integra essas memórias ao imaginário coletivo de forma mais humana e complexa”, afirma o professor. 

Grota do Angico

O local escolhido para a celebração não poderia ser mais simbólico. A Grota do Angico é conhecida como o ponto final do cangaço, onde a emboscada que matou Lampião e Maria Bonita selou o encerramento de um ciclo da história nordestina. Desde então, o espaço ganhou status de santuário da memória sertaneja. Visitado por romeiros, turistas, pesquisadores e descendentes de cangaceiros, o local abriga mais do que lembranças: carrega o peso de um passado ambíguo, que combina dor e admiração. De acordo com Rony Silva, a celebração nesse espaço reforça a potência da memória como instrumento de identidade cultural. “Lampião permanece vivo no imaginário por ser uma figura carismática e contraditória. Era ao mesmo tempo justiceiro e violento, herói dos pobres e criminoso temido. A missa consegue lidar com essa complexidade sem ignorar suas contradições”, observa.

Desde as primeiras edições, ainda nas décadas de 1980 e 1990, a Missa do Cangaço evoluiu consideravelmente. O que começou como uma manifestação de fé e valorização da história local se transformou em um evento que atrai turistas de várias partes do país, movimentando a economia de cidades como Poço Redondo, Canindé de São Francisco (SE) e Piranhas (AL). O turismo cultural se fortaleceu, e junto a ele vieram o crescimento do comércio, o aumento da procura por hospedagens e o estímulo à produção artesanal e culinária regional. “É um evento que coloca o sertão no mapa do turismo histórico, com potencial para impulsionar o desenvolvimento sustentável da região. Mas, mais do que isso, ele oferece uma experiência de pertencimento. As pessoas vão à missa não apenas para assistir, mas para se conectar com suas raízes”, destaca o professor da Unit.

Lampião como símbolo da identidade nordestina

A imagem de Lampião continua a inspirar a cultura popular por meio da literatura de cordel, do forró, do cinema, do artesanato e de tantas outras expressões artísticas. O mito do cangaceiro atravessa gerações e permanece atual por representar o espírito rebelde, corajoso e resistente do povo nordestino. “A missa não tem a função de glorificá-lo, mas de entender por que ele se tornou esse ícone. É uma forma de manter viva a discussão sobre as injustiças históricas e sobre o papel que a cultura tem na preservação da memória. No sertão, não se esquece com facilidade, se reconta, se ressignifica, se transforma em ritual”, conclui Rony.

Herança viva

A Missa do Cangaço é, em sua essência, um ato de reverência às múltiplas camadas que compõem a história do Nordeste. Ao reunir elementos religiosos e culturais, o evento transforma a memória em ação coletiva, em vivência compartilhada, em oportunidade de questionar, refletir e valorizar as raízes sertanejas. “Nessa intersecção entre o passado e o presente, o sertão mostra que suas histórias por mais duras ou complexas que sejam não estão condenadas ao esquecimento, mas renascem a cada romaria, verso de cordel ou oração entoada no meio da caatinga”, finaliza.

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