Nem todo interesse por alimentação e treino é saudável. Na era das redes sociais, a busca por um corpo musculoso e definido pode ultrapassar os limites do bem-estar e se transformar em obsessão. Em vez de ser apenas uma meta estética, o objetivo passa a envolver comportamentos rígidos e compulsivos, como seguir regras alimentares extremas, consumir suplementos em excesso, evitar interações sociais e sentir ansiedade intensa quando a rotina de exercícios ou dieta é interrompida. Esse conjunto de sinais pode indicar um transtorno ainda pouco conhecido, mas em crescimento: o MODE.
O MODE, sigla para “Muscle-Oriented Disordered Eating” (transtorno alimentar voltado para ganho de massa muscular), é marcado por uma obsessão patológica em aumentar a hipertrofia. Segundo a nutricionista Carla Souza, professora da Universidade Tiradentes (Unit), o quadro envolve dietas rígidas, controle obsessivo de macronutrientes, uso excessivo de suplementos e, em alguns casos, esteroides anabolizantes. “Ao contrário da anorexia, focada no emagrecimento, ou da bulimia, caracterizada pelo ciclo de compulsão e purgação, o MODE tem como objetivo principal a construção muscular”, explica.
De acordo com Carla, o MODE é mais frequente entre homens jovens, especialmente universitários. “Estimativas apontam que cerca de 22% dos homens entre 18 e 24 anos apresentam comportamentos associados ao transtorno. Mas as mulheres também podem desenvolver o quadro e, nesses casos, os índices de ansiedade e depressão tendem a ser mais altos”, afirma. Um dos fatores que impulsiona essa tendência é a cultura fitness das redes sociais, que exibe corpos com baixo percentual de gordura e alta definição muscular como padrão de beleza.
Impactos na saúde física e mental
O transtorno pode trazer consequências graves para o corpo e a mente. Entre os riscos físicos, Carla cita sobrecarga renal, desequilíbrios nutricionais, alterações hormonais, infertilidade e problemas cardiovasculares. No campo emocional e social, são comuns depressão, ansiedade, culpa intensa e isolamento. “Muitos pacientes deixam de lado estudos, trabalho ou relacionamentos para manter o controle extremo sobre dieta e treino”, alerta. O ciclo, segundo a especialista, pode se tornar autossustentável, pois quanto mais rígidas as regras, maior a pressão para manter o padrão.
A linha entre cuidado saudável e comportamento nocivo nem sempre é clara. Para Carla, um estilo de vida equilibrado permite flexibilidade alimentar, sem culpa por eventuais desvios, e mantém a prática de exercícios de forma prazerosa. “A obsessão se revela quando há rigidez extrema, ansiedade diante de qualquer alteração no plano e prejuízos sociais ou emocionais”, explica. A nutricionista costuma dizer aos pacientes que “ninguém faz 100% da dieta perfeita, mas se fizer 90% já terá resultados excelentes e saúde preservada.
Prevenção
Não existe um protocolo único para lidar com o MODE, mas a abordagem precisa ser individualizada e multidisciplinar. O nutricionista tem papel central na detecção precoce e na reestruturação alimentar com foco funcional e menos obsessivo. O tratamento também deve envolver psicoterapia e, se necessário, acompanhamento psiquiátrico. Carla recomenda que familiares e amigos fiquem atentos a sinais como obsessão com músculos, uso constante de suplementos e isolamento. “É importante dialogar sem julgamento, incentivar a busca por ajuda e reforçar a identidade da pessoa além do corpo”, conclui.
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