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Para além do prato: Nutrição inova ao abraçar a cultura e a identidade alimentar

Abordagem sociocultural reconhece a comida como elo de afeto, história e resistência, transformando o cuidado nutricional

às 20h36
Ailton Sena Júnior- nutricionista clínico e esportivo e professor da disciplina de Estágio em Nutrição Social da Universidade Tiradentes
Ailton Sena Júnior- nutricionista clínico e esportivo e professor da disciplina de Estágio em Nutrição Social da Universidade Tiradentes
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Longe das prescrições rígidas e focadas exclusivamente na fisiologia, uma abordagem tem ganhado espaço ao reconhecer a alimentação como um elemento sociocultural essencial à vida humana. Essa perspectiva ampliada não apenas humaniza o atendimento nutricional, mas também o torna mais eficaz e inclusivo, reduzindo o abandono de tratamentos e promovendo saúde de forma integral. Comer vai muito além de nutrir o corpo: é um ato carregado de significados, memórias e tradições.

Em um país como o Brasil, marcado pela diversidade cultural e regional, a comida é parte fundamental da identidade. O cuscuz no Nordeste, o pão de queijo em Minas Gerais ou o acarajé na Bahia não são apenas alimentos, são expressões de pertencimento e história. O Guia Alimentar para a População Brasileira, publicado pelo Ministério da Saúde, reforça essa ideia ao reconhecer a culinária como uma manifestação cultural importante, e o ato de comer, especialmente quando partilhado, como um elo que fortalece vínculos sociais e familiares.

Para Ailton Sena Júnior, nutricionista clínico e esportivo e professor da disciplina de Estágio em Nutrição Social da Universidade Tiradentes (Unit), a alimentação carrega uma dimensão histórica. “É o jeito como sua avó, sua mãe, sua tia preparavam o feijão. É o cuscuz com manteiga do sertão no café da manhã. A reza antes da refeição. O cheiro da comida no fim da tarde reúne a família”, explica. Ele destaca que, principalmente em contextos de vulnerabilidade, a comida representa resistência, identidade e, muitas vezes, sobrevivência.

Comida como narrativa e riscos da desconexão cultural

Essa visão muda completamente a prática nutricional. Ailton explica que, tanto em seu consultório quanto nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), sua abordagem se baseia na escuta ativa e no respeito à realidade do paciente. “Não adianta chegar com um plano fechado e esperar que a pessoa se adapte. Eu chego junto, escuto, vejo o que tem na geladeira, na feira da cidade, o que a família sabe cozinhar”, relata. No Sistema Único de Saúde (SUS), essa escuta é ainda mais necessária: adaptar o plano alimentar à cultura local, valorizar os alimentos da agricultura familiar e considerar o que é realmente acessível para aquela pessoa. “Nutrição que funciona é a que cabe na rotina”, complementa.

Desconsiderar os aspectos culturais, afetivos e sociais na nutrição tradicional pode criar barreiras, afastando justamente quem mais precisa de cuidado. O nutricionista alerta que ignorar o significado da comida para uma pessoa ou comunidade transforma o cuidado em exclusão. “Já ouvi muitas histórias de gente que parou de ir às consultas porque se sentiu julgada por comer arroz com farinha e ovo. E aí perdemos uma grande oportunidade de promover saúde. Quando a orientação desrespeita a história do indivíduo, ela não se sustenta. A comida precisa acolher, não afastar”, afirma.

Do consultório à política pública

As estratégias eficazes em nutrição são aquelas que rompem com a rigidez das prescrições e se conectam com a realidade das pessoas. Na prática clínica, isso envolve abordagens comportamentais, educação alimentar com escuta ativa e, sempre que possível, o uso da culinária como ferramenta de autonomia. Já no campo da saúde pública, essa inovação se reflete em ações como hortas comunitárias, grupos de educação alimentar, cardápios escolares regionais e oficinas culinárias em CRAS ou UBS. “Tudo isso é inovação porque aproxima a nutrição da vida real. É quando o papel vira prática, e o plano alimentar se transforma em diálogo”, resume Ailton Sena Júnior.

Essa abordagem integrada também contribui para combater distúrbios alimentares e diminuir o abandono de dietas. Em vez de classificar hábitos como certos ou errados, essas estratégias buscam compreender o contexto e acolher a pessoa. “Uma mãe que divide um pacote de bolacha entre três filhos não precisa de uma aula sobre carboidrato. Ela precisa de políticas públicas eficazes e de um nutricionista que saiba escutar”, exemplifica. Segundo ele, o vínculo, o acolhimento e a escuta são fundamentais para quem enfrenta distorções da imagem corporal ou compulsão alimentar, promovendo um cuidado duradouro.

A adaptação das orientações nutricionais às diferentes culturas, crenças e realidades socioeconômicas é um dos pilares dessa nova visão. “Respeitar a vivência do outro é essencial. Se a fé orienta o comer, eu não imponho, eu converso. Se a renda é baixa, eu não julgo, eu ajusto. Se há insegurança alimentar, eu acolho e encaminho”, diz Ailton, reforçando que é preciso ouvir antes de prescrever e dialogar antes de indicar.

Desafios e o impacto nas políticas públicas de alimentação

Apesar dos avanços, essa abordagem ainda enfrenta desafios para se consolidar. O nutricionista aponta que a formação acadêmica, em muitos casos, continua centrada em uma “dieta ideal” e pouco conectada à realidade das pessoas. Além disso, o tempo escasso nos atendimentos das UBS e o desafio de desenvolver a escuta ativa no exercício profissional são barreiras que precisam ser superadas.

Ailton, que leciona na Unit Sergipe, reconhece progressos nos cursos de Nutrição que já incorporam essa visão mais humana e contextualizada. Ele cita o projeto de Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP) da Universidade Tiradentes como exemplo de como os alunos são expostos a situações reais desde cedo. “A vida real está longe disso. Quem está na UBS sabe como é: tempo corrido, demandas sociais pesadas, famílias enfrentando insegurança alimentar. O profissional precisa descer do pedestal, parar de querer controlar tudo e começar a ouvir mais. Nutrição não é só ciência, é cuidado. E cuidado só acontece com escuta, acolhimento e respeito”, destaca.

Esse novo olhar tem grande potencial de transformação nas políticas públicas. Para Ailton, quando a política nasce da escuta das comunidades, a alimentação escolar, por exemplo, deixa de ser apenas balanceada e passa a ser também culturalmente significativa e prazerosa. No combate à fome, isso se traduz na defesa da soberania alimentar, na valorização dos produtos locais e no fortalecimento da agricultura familiar. “É política pública com identidade. E aí sim, ela gera impacto de verdade”, afirma.

Os impactos positivos para a saúde coletiva são evidentes quando a alimentação é tratada como parte da cultura e da identidade. As pessoas se sentem reconhecidas, respeitadas e envolvidas no processo de cuidado, o que favorece a adesão, reduz doenças e fortalece os vínculos sociais. “A saúde coletiva muda quando entendemos que não se trata só de nutriente, mas de dignidade. E comida é dignidade”, conclui Ailton Sena Júnior. Para ele, ver uma mãe alimentando seus filhos com comida de verdade, do jeito dela, com apoio e escuta, é a expressão mais autêntica da saúde pública.

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