Incêndios, enchentes, desabamentos e outras tragédias costumam deixar um rastro visível de destruição: casas reduzidas a cinzas, objetos perdidos, famílias desalojadas e bairros inteiros marcados pelo caos. Mas, para além dos danos materiais, existe uma dimensão menos perceptível e igualmente devastadora: o impacto psicológico vivido por quem precisa lidar, de forma repentina, com a perda de tudo aquilo que sustentava sua rotina, suas memórias e seu senso de segurança.
Segundo a psicóloga e professora de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), Aline Lisboa dos Santos, a psicologia compreende que situações de desastre produzem uma ruptura abrupta da continuidade da vida cotidiana. “Quando uma pessoa perde sua casa, seus objetos pessoais, documentos, fotografias e referências materiais, ela não perde apenas bens concretos, mas também elementos simbólicos que organizavam sua história, sua identidade e seu senso de estabilidade. Trata-se de uma experiência potencialmente traumática porque rompe a percepção básica de segurança e previsibilidade do mundo. Muitas vítimas relatam a sensação de que ‘a vida saiu do lugar’, justamente porque o desastre afeta simultaneamente aspectos emocionais, sociais, familiares e existenciais”, explica.
Nos primeiros dias após uma tragédia, as respostas emocionais costumam ser intensas e variadas. “Algumas pessoas aparentam calma excessiva ou entram em um funcionamento automático, focando apenas em resolver questões práticas. Isso também pode ser uma forma de proteção psíquica diante do excesso emocional. Muitas vítimas experimentam sensação de irrealidade, medo constante e hipervigilância, permanecendo em estado permanente de alerta mesmo após o fim do perigo imediato”, relata. Segundo ela, essas reações não representam fraqueza emocional, mas respostas humanas esperadas diante de situações extremas.
Embora o prejuízo financeiro seja um dos aspectos mais evidentes após um incêndio, o sofrimento emocional envolve perdas muito mais profundas. Fotografias, objetos herdados, lembranças familiares e espaços afetivos carregam significados que não podem ser substituídos. “A casa, o bairro e os objetos pessoais possuem uma dimensão emocional muito profunda. Eles funcionam como referências de pertencimento, memória e continuidade da identidade. Quando ocorre uma perda abrupta, muitas pessoas sentem que perderam também parte de si mesmas”, explica Aline.
Estado de alerta
O trauma, segundo a especialista, também pode alterar a forma como a pessoa se relaciona com o mundo ao redor. Lugares antes considerados seguros passam a despertar medo, insegurança e sensação constante de ameaça. “Em termos subjetivos, o desastre pode provocar uma sensação de desenraizamento, como se a pessoa tivesse perdido seu lugar no mundo”, pontua.
Quando alguém afirma que “de repente ficou sem nada”, o cérebro interpreta a situação como uma ameaça extrema à sobrevivência. Nesse contexto, estruturas relacionadas ao medo e ao estresse entram em hiperativação. Por isso, é comum que vítimas apresentem dificuldade de raciocínio, lapsos de memória, bloqueios emocionais e respostas automáticas diante do trauma. “O organismo passa a funcionar em estado de alerta para tentar lidar com a ameaça. Essa reação não significa fragilidade, mas um mecanismo neuropsicológico de proteção”, esclarece a psicóloga.
As crianças também sofrem impactos psicológicos importantes em situações de desastre, embora frequentemente expressem isso de maneiras diferentes dos adultos. Alterações no sono, medo intenso, irritabilidade, dependência maior dos cuidadores, dificuldades escolares e até sintomas físicos, como dores de cabeça e de barriga, podem surgir após experiências traumáticas. “Algumas crianças revivem o trauma por meio de brincadeiras repetitivas, desenhos ou perguntas insistentes sobre o ocorrido. Outras aparentam não compreender a gravidade da situação naquele momento, mas manifestam o sofrimento posteriormente. A presença de adultos emocionalmente disponíveis é um dos principais fatores de proteção emocional para crianças em contextos de tragédia”, ressalta.
Reconstrução emocional
Em cenários de emergência, o trabalho dos psicólogos busca oferecer acolhimento e estabilização emocional às vítimas. O objetivo inicial não é realizar psicoterapia tradicional, mas ajudar as pessoas a recuperarem minimamente condições psíquicas para enfrentar a crise. “O acolhimento psicológico imediato ocorre por meio da escuta qualificada, da validação emocional e da oferta de informações claras. Muitas vezes, pequenas ações, como ajudar alguém a localizar familiares ou compreender o que está acontecendo, já possuem enorme impacto psicológico”, destaca.
Embora a recuperação emocional aconteça de forma gradual, o fortalecimento das redes de apoio e da solidariedade comunitária desempenha papel fundamental nesse processo. “A solidariedade ajuda a restaurar vínculos sociais e sentimentos de pertencimento. Quando a comunidade se mobiliza, a vítima deixa de se perceber sozinha diante da perda. Além do suporte às vítimas diretas, o acompanhamento psicológico também pode ser necessário para familiares, voluntários e profissionais envolvidos nos resgates. O contato contínuo com sofrimento intenso e cenas traumáticas pode gerar desgaste emocional significativo, inclusive o chamado trauma vicário ou fadiga por compaixão”, explica.
Segundo ela, retomar progressivamente a rotina, buscar acolhimento psicológico e reconstruir pequenas experiências cotidianas de autonomia podem ajudar na recuperação emocional. “Não existe uma forma correta ou linear de reagir ao trauma. Cada pessoa elabora suas perdas de maneira singular e no seu próprio tempo. Traumas duradouros podem surgir mesmo quando não existem ferimentos físicos aparentes. Situações de ameaça extrema, medo intenso e perdas abruptas podem deixar marcas emocionais persistentes, como ansiedade, insônia, hipervigilância e medo constante de novas tragédias”, diz.
Por isso, ela reforça a importância de legitimar o sofrimento emocional vivido pelas vítimas. “Buscar ajuda psicológica não é sinal de fragilidade, mas uma forma de cuidado consigo mesmo. Mesmo diante de perdas profundas, o ser humano possui uma importante capacidade de reconstrução subjetiva quando encontra apoio, escuta e condições de cuidado”, enfatiza.
Leia também: NAF deve concluir temporada do IRPF 2026 com cerca de 1,3 mil atendimentos