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Trombofilia: a condição silenciosa que pode comprometer a maternidade

Doença muitas vezes assintomática, a trombofilia pode causar abortos de repetição, pré-eclâmpsia e parto prematuro

às 19h26
Glícia Ramos- Médica Ginecologista e professora da Medicina da Unit
Glícia Ramos- Médica Ginecologista e professora da Medicina da Unit
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A gestação é um momento de intensas transformações físicas e emocionais na vida de uma mulher, mas também pode ser um período de riscos invisíveis, como os provocados pela trombofilia. Um dos exemplos mais recentes que reacendeu um alerta importante sobre essa condição foi o da influenciadora digital Maíra Cardi, que relatou que não apresentava nenhum sintoma aparente e ao realizar exames de rotina com seu obstetra, após sucessivas perdas gestacionais anteriores, acabou descobrindo. 

Apesar de ser uma condição com potencial de provocar graves complicações, a trombofilia geralmente se desenvolve de forma silenciosa. Os sintomas, quando existem, podem ser discretos ou facilmente confundidos com outros problemas de saúde. Inchaço nas pernas, dores inexplicáveis, cansaço extremo ou dificuldade respiratória, que podem indicar a presença de trombos só costumam aparecer quando já houve alguma complicação, como uma trombose venosa profunda ou uma embolia pulmonar.

O que é trombofilia e por que ela é perigosa?

A trombofilia é uma alteração do sistema de coagulação que predispõe o organismo à formação de coágulos sanguíneos. Pode ser hereditária ou adquirida que, segundo a ginecologista e obstetra Glícia Ramos, professora do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), é justamente essa falta de sintomas que faz dela uma condição perigosa. “É chamada de ‘silenciosa’ porque muitas vezes não apresenta sinais até que aconteça uma complicação, como trombose venosa profunda, embolia pulmonar ou perdas gestacionais”, explica a especialista.

Os tipos mais comuns de trombofilia que afetam mulheres em idade fértil são as hereditárias, como a mutação do fator V de Leiden, mutação da protrombina, deficiência de proteína C, proteína S e antitrombina III, e as adquiridas, com destaque para a síndrome antifosfolípide (SAF), que tem relação direta com problemas gestacionais. “Nem toda mulher com trombofilia terá complicações durante a gestação. O risco varia conforme o tipo da condição e o histórico de saúde da paciente. Existem trombofilias leves, em que a gestação transcorre normalmente”, explica Glícia.

Entretanto, nas formas mais graves, os riscos aumentam consideravelmente, especialmente por afetarem a circulação placentária. “A trombofilia pode comprometer o desenvolvimento adequado da placenta devido à formação de microtrombos, o que pode levar a complicações como abortos de repetição, pré-eclâmpsia, restrição de crescimento intrauterino (RCIU), descolamento prematuro da placenta e parto prematuro. Especialmente nas trombofilias de alto risco, como a síndrome antifosfolípide, há ligação direta com falhas na implantação do embrião e trabalho de parto precoce por insuficiência placentária”, detalha.

Diagnóstico e tratamento 

O diagnóstico é feito por meio de exames laboratoriais específicos, incluindo testes genéticos e imunológicos. É indicado principalmente em casos de histórico de abortos de repetição, complicações gestacionais graves anteriores, ou histórico pessoal/familiar de trombose. “A investigação é feita com exames laboratoriais, incluindo testes genéticos e imunológicos. Ela é fundamental para orientar o pré-natal de forma personalizada e segura”, explica Glícia. 

O tratamento para gestantes com trombofilia é feito, geralmente, com heparina de baixo peso molecular (HBPM) anticoagulante que previne a formação de coágulos sem atravessar a placenta. Em alguns casos, também se associa o uso de aspirina em baixa dosagem. A conduta depende do grau de risco da paciente. “Em casos mais graves ou com histórico de perdas, o tratamento pode começar ainda na fase de tentativa de concepção. Já em outros, inicia-se após a confirmação da gravidez”, pontua a médica.

Prevenção

Apesar dos riscos, a trombofilia não é uma sentença contra a maternidade. Com o devido planejamento, acompanhamento especializado e cuidados médicos adequados, é possível ter uma gestação saudável e segura. “A orientação mais importante é buscar ajuda médica desde antes de engravidar. O diagnóstico deve ser visto como uma ferramenta de cuidado, não como um obstáculo. Muitas mulheres com trombofilia conseguem ter filhos e formar famílias saudáveis”, afirma Glícia Ramos.

Além dos medicamentos, cuidados com a hidratação, mobilidade, e um acompanhamento multidisciplinar ao longo de toda a gestação são essenciais para minimizar os riscos. Além disso, para mulheres com diagnóstico de trombofilia que desejam ser mães, a recomendação principal é buscar orientação médica antes mesmo de engravidar. “Com planejamento, acompanhamento especializado e uso correto das medicações, é possível sim ter uma gestação segura. O diagnóstico não é uma sentença, mas sim uma oportunidade de cuidar melhor da saúde”, reforça a ginecologista.

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