A residência multiprofissional em saúde é um modelo de formação que se diferencia de uma pós-graduação convencional pelo caráter intensivo e altamente prático. Com carga horária superior a cinco mil horas, o programa exige dedicação integral dos residentes, que passam cerca de 80% do tempo em atividades realizadas no hospital e contam com acompanhamento constante de preceptores. Criada para qualificar profissionais da saúde em contextos de alta complexidade, a residência abrange diferentes áreas, como enfermagem, fisioterapia, odontologia, nutrição, psicologia, serviço social e terapia ocupacional, promovendo um cuidado integrado e centrado no paciente.
Na Universidade Tiradentes (Unit), a Comissão de Residência Multiprofissional (COREMU) organiza e acompanha os residentes aprovados pelo Exame Nacional de Residência (ENARE), um processo seletivo unificado, semelhante ao Sistema de Seleção Unificada (SISU), que atrai candidatos de todo o Brasil. Muitos desses profissionais vêm de estados vizinhos e encontram em Sergipe a oportunidade de aprofundar sua formação técnica e científica em parceria com o Hospital de Cirurgia.
Acolhimento e vínculo com a universidade
Para a coordenadora da COREMU da Unit, Manuela de Carvalho Vieira Martins, o evento de integração realizado neste início de ciclo foi pensado como uma oportunidade de acolhimento. “Convidamos tanto os alunos do R1, que acabaram de ingressar, quanto os do R2, que estão concluindo a residência, para aproximá-los da universidade. Como a rotina é majoritariamente hospitalar, nem sempre temos esse contato direto. Trazer os residentes para o campus é uma forma de mostrar nossa estrutura, apresentar gestores e reforçar os caminhos acadêmicos que podem seguir depois da residência”, explicou.
A programação incluiu uma recepção institucional e um tour pelos espaços de referência da Unit, como o Centro de Simulação Realística, o Complexo de Especialidades em Saúde e o Tiradentes Innovation Center. A proposta foi, além de fortalecer o vínculo, evidenciar as possibilidades de formação continuada, como o ingresso em programas de mestrado e doutorado.
Experiência prática em diferentes áreas
Entre os residentes participantes, a enfermeira Wanessa Alves, formada pela Universidade Federal de Sergipe, destacou o desejo antigo de vivenciar a experiência da residência. “Sempre sonhei em atuar em UTI, porque reúne três pontos que me motivam: a tecnologia de ponta, o cuidado ao paciente em estado crítico e a oportunidade de aprender de forma intensa, já que o enfermeiro tem papel central nesse ambiente”, contou.
Segundo ela, a rotina do primeiro ano já envolve a prática hospitalar diretamente. “No R1, entramos diretamente nos setores, dividindo plantões com o enfermeiro responsável. Isso nos coloca frente a frente com situações complexas desde o início: monitorização hemodinâmica invasiva, manejo de pacientes críticos e a necessidade de desenvolver raciocínio clínico em tempo real. É um processo intenso, mas que nos prepara para enfrentar a realidade da profissão. O que espero desses dois anos é sair com segurança técnica, confiança para atuar sem medo e com preparo para garantir a estabilidade clínica dos pacientes”, relatou.
O dentista Felipe Lisboa também compartilhou sua experiência. Sua trajetória até a residência foi marcada por descobertas durante a graduação. “Entrei em Odontologia quase por acaso, mas me apaixonei pela área da saúde. Durante o curso, participei de pesquisas em saúde coletiva e atenção primária, mas foi no estágio em Bucomaxilo, que tive contato com a odontologia hospitalar. Ali percebi o quanto essa especialidade é fundamental para a recuperação de pacientes internados”, explicou.
Na residência, Felipe destaca a amplitude do trabalho odontológico. “No ambulatório, fazemos remoção de doenças e devolvemos saúde bucal, mas o hospital nos traz desafios completamente diferentes. Em UTI e enfermarias, nosso papel é prevenir complicações. Realizamos a higiene bucal de pacientes intubados, fazemos extrações no leito e acompanhamos casos oncológicos, onde os efeitos da quimioterapia e da radioterapia comprometem muito a cavidade oral. Nessas situações, precisamos atuar não só tecnicamente, mas também integrados à equipe multiprofissional para definir o melhor momento de intervir”, afirmou.
Ele ressalta que a maior riqueza da residência está justamente nessa convivência com diferentes áreas. “Aprendemos todos os dias com médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas e tantos outros profissionais. Cada um tem uma perspectiva sobre o paciente e, quando unimos esse olhar, conseguimos oferecer um cuidado mais completo. O que espero levar dessa experiência é segurança no manejo clínico, conhecimento sólido sobre interações medicamentosas e, principalmente, a capacidade de dialogar em equipe, porque só assim conseguimos de fato impactar na recuperação dos pacientes”, concluiu.
Formação integrada e contínua
A residência multiprofissional se diferencia justamente pela atuação conjunta de profissionais de diversas áreas, o que possibilita um cuidado mais completo ao paciente. Para a Unit, a iniciativa representa não apenas uma qualificação de alto nível, mas também uma ponte para a pesquisa e para a formação acadêmica continuada.
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