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Idosos também sofrem mais com o preconceito

Pandemia e valorização da juventude acaba afastando os idosos do mercado de trabalho; professora da Unit explica o chamado etarismo, que é a discriminação pela idade

às 18h56
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“Agora que sou visivelmente mais velha, tenho percebido o preconceito de idade, o etarismo. Outro dia, por conta de uma pesquisa, cruzei com tweets que se referiam a mim como ‘uma idosa, aquela idosa’, em tom de desprezo no contexto geral. Ainda lamento, mas não sofro mais”. Após deixar os cabelos totalmente brancos, tão marcantes como o seu sorriso largo, a escritora e apresentadora de TV Rosana Hermann, 63 anos, escreveu no Twitter esse desabafo, lançando luz sobre esse tipo de discriminação que, apesar de pouco discutida, é muito presente no dia-a-dia. Ele começou a ser caracterizado a partir de 1969, quando o termo “ageism” foi cunhado pelo gerontologista americano Robert Butler (1927-2010), um dos principais estudiosos do envelhecimento humano. 

No entanto, sua percepção ficou mais visível com o aumento de participação de pessoas acima de 60 anos na composição da população brasileira. “Com o rápido envelhecimento populacional no mundo e especialmente acelerado no Brasil, a pirâmide etária do país está se invertendo em função de estarmos vivendo mais e tendo menos filhos. Estamos vivendo a revolução da longevidade”, define a professora Ana Flávia Melro, do curso de Medicina do Centro Universitário Tiradentes (Unit Alagoas). “A parcela da população com mais de 50 anos no Brasil já passou de 53 milhões de pessoas em 2020. Portanto, essa faixa etária representa mais de 25% da nossa população”, acrescenta, citando dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 

De acordo com Flávia, o etarismo é um preconceito baseado em estereótipos associados à idade e que pode assumir muitas formas. De atitudes individuais, até políticas e práticas institucionais que perpetuam a discriminação. Uma dessas práticas é a dificuldade de acesso dos profissionais idosos ao mercado de trabalho. “A idade continua pesando no currículo e sendo motivo de desclassificação em processos seletivos e programas de demissão. Em muitas empresas, ainda existe a ‘aposentadoria compulsória’, que obriga o profissional a deixar a organização ao completar uma determinada idade, mesmo que esteja performando e realizando corretamente seu trabalho”, relatou Flávia.

Esta situação, já ruim, acabou agravada pela pandemia do novo coronavírus e a crise econômica derivada dela. A professora cita outros dados do IBGE, segundo os quais mais de 1,3 milhões de pessoas com 60 anos ou mais deixaram de trabalhar ou de procurar um emprego, na comparação do primeiro trimestre de 2020 com o mesmo período do ano anterior. Com isso, a ‘terceira idade’ passa a integrar a estatística da população não economicamente ativa”. Um dos motivos alegados para o alto desemprego dos idosos é o fato de eles serem considerados “grupo de risco”, com mais possibilidades de morte ou internação grave pelo coronavírus. 

Mas segundo Ana Flávia, essa ideia reforça o estereótipo do ‘ser frágil’ e o preconceito de idade, já enorme. “Apesar da letalidade da Covid-19 ser maior entre os mais velhos, é preciso fazer uma análise menos simplista da situação e tomar cuidado com os rótulos. Da mesma forma que a crise traz à tona algumas discussões relativas às pessoas mais velhas, ela também acentua um estereótipo ainda muito comum, que as coloca na posição de frágeis e impotentes – pior ainda, quase como um fardo para a sociedade. Essa leitura simplista, aliada ao preconceito, pode levar empresas, por exemplo, a entenderem os profissionais com idade mais avançada como prejuízo, despesa, risco. Essa mentalidade mostra que a pandemia não é um risco apenas para a saúde do idoso, mas para sua posição no mercado de trabalho”, aponta a professora. 

Como enfrentar

A discussão sobre o preconceito de idade também aponta ideias e sugestões de desconstrução desse estereótipo e combate a práticas etaristas. A docente da Unit frisa que, “em uma cultura ‘jovem-cêntrica’ como a nossa, onde os mais jovens são exaltados e os mais velhos são esquecidos, é preciso repensar urgentemente os valores que nos levam a esse comportamento”. 

Ana Flávia cita algumas dessas atitudes que podem mudar a percepção de pessoas e de empresas sobre a população idosa. “Estimular cooperação entre gerações, por exemplo, pode minimizar conflitos no ambiente de trabalho. Programas de mentoria mútua ou reversa, em que os profissionais mais velhos dão mentoria e são mentorados pelos mais novos, podem ajudar no entendimento das gerações, troca e ampliação do conhecimento, e inovação”, citou. 

Um exemplo bem-sucedido disso está no projeto de extensão Telelongevidade, desenvolvido por alunos e professores de Medicina da Unit Alagoas. Ele acontece por meio de encontros virtuais e promove práticas de saúde através de conversas entre os estudantes e as pessoas idosas, nas quais eles compreendem melhor o processo de envelhecimento. Nesses diálogos, são estimuladas as habilidades de comunicação (oral e escrita), o trabalho em equipe, a criatividade, a participação de idosos em atividades de estimulação cognitiva e de vínculos sociais, vem como a valorização de potencialidades como pintura, escrita, leitura, culinária, música e acolhimento, entre outras. 

Asscom | Grupo Tiradentes

 

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