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Envelhecimento saudável também passa pelo cultivo de relações sociais

Estudos revelam que participação de idosos em grupos em atividades fortalecem o cérebro, reduzem o estresse e protegem contra o declínio cognitivo, contribuindo para a promoção da longevidade

às 20h30
Idosos participam de atividades físicas orientadas em grupo, promovendo saúde e interação social; pesquisas mostram que vínculos afetivos ajudam a preservar a memória e reduzem o estresse (Acervo Unit)
Idosos participam de atividades físicas orientadas em grupo, promovendo saúde e interação social; pesquisas mostram que vínculos afetivos ajudam a preservar a memória e reduzem o estresse (Acervo Unit)
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Muitas pessoas costumam dizer que “quem tem bons amigos, tem tudo”. Pode ter inclusive mais saúde e garantia de mais alguns anos de vida. É o que começa a ser atestado inclusive pela ciência, ao considerar as boas relações sociais como um importante fator positivo para o envelhecimento saudável, ao lado da alimentação saudável e da constância nos exercícios físicos. 

Uma reportagem publicada recentemente pelo jornal norte-americano The New York Times revelou estudos realizados por pesquisadores da Northwestern University, em Illinois (EUA), com os chamados “super-idosos”, pessoas acima de 80 anos que têm a mesma capacidade de memória de alguém com 20 ou 30 anos a menos. Os cientistas identificaram que estes idosos sempre priorizam o cultivo de relações interpessoais, ao participar de grupos e atividades, tendendo a ser mais sociáveis e extrovertidos. E que esses “super-idosos” são mais resistentes ao declínio cognitivo característico do envelhecimento avançado. 

Esta conclusão confirma que as relações sociais podem interferir no funcionamento da saúde do corpo e da mente. “A ciência mostra que as interações positivas, baseadas em afeto, apoio emocional e cooperação, ativam áreas cerebrais ligadas à recompensa e reduzem a liberação de hormônios do estresse, como o cortisol. Isso favorece o equilíbrio do sistema nervoso, melhora a resposta imunológica e diminui o risco de doenças cardiovasculares e depressivas”, explica a pesquisadora Karollyni Bastos Andrade Dantas, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Saúde (PBS) da Universidade Tiradentes (Unit). 

Por outro lado, as relações conflituosas ou caracterizadas por isolamento emocional aumentam a atividade do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, um sistema neuroendócrino que controla a resposta do corpo ao stress. Isso gera uma maior vulnerabilidade do organismo ao estresse crônico, inflamação sistêmica e declínio cognitivo. “Nesse contexto, a resiliência aparece como fator de proteção: indivíduos resilientes conseguem interpretar situações sociais adversas de forma mais adaptativa, preservando o equilíbrio emocional e reduzindo os impactos negativos sobre o corpo e a mente. Assim, boas relações sociais associadas à resiliência formam uma combinação poderosa para a manutenção da saúde integral”, acrescenta Karollyni.

Ela acrescenta que as pessoas com relações sociais amplas e vínculos significativos apresentam maior longevidade, melhor qualidade de vida e maior resiliência psicológica, enquanto que a falta de relações ou a solidão crônica estão associadas a maiores níveis de estresse, risco aumentado de depressão, ansiedade, comprometimento cognitivo e até mortalidade precoce. “Estudos longitudinais (como o de Harvard sobre desenvolvimento adulto, iniciado em 1938) reforçam que conexões sociais saudáveis são preditores mais fortes de bem-estar e longevidade do que fatores como renda ou genética. A resiliência, nesse caso, atua como mediadora: mesmo em contextos de redes sociais pequenas, pessoas resilientes conseguem ressignificar a solidão, buscar estratégias de enfrentamento e manter níveis mais estáveis de saúde mental e física. Isso mostra que tanto a presença de relações sociais sólidas quanto a capacidade de ser resiliente diante da falta delas são determinantes para o equilíbrio e a vitalidade ao longo da vida”, diz a doutoranda.

Para o professor Estélio Henrique Martin Dantas, docente do PBS e coordenador do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (Labimh), a correlação entre as boas relações e a longevidade dos superidosos “é notável e amplamente observada”. Ele define que o envelhecimento, em si, é uma etapa da vida marcada por perdas de aspecto econômico, social e de relacionamentos familiares, somadas à deterioração gradual das condições físicas.

“Envelhecer com saúde e bem-estar significa minimizar ao máximo os efeitos dessas perdas eletivas, ou seja, aquelas que podem ser contornadas com atitudes proativas. Pessoas idosas que se mantêm ativas, seja através do trabalho voluntário, dedicando-se a hobbies ou estabelecendo novas relações sociais, tendem a experimentar um maior bem-estar e uma motivação renovada para viver mais. Diversas pesquisas científicas corroboram essa ligação entre bem-estar psicológico e uma vida mais longa, demonstrando que o engajamento social, a prática de atividades prazerosas e o cultivo de relacionamentos são fatores protetores contra o declínio físico e cognitivo, promovendo um envelhecimento mais saudável e feliz”.

Mente ativa

Os cientistas americanos apontam ainda que as pessoas com mais e melhores relações sociais tendem a ser mais resistentes ao declínio cognitivo e de memória, imposto por doenças e condições como demência, Alzheimer e Parkinson. Este detalhe é comprovado por outras pesquisas científicas, a exemplo da que foi orientada em 2022 pelo próprio Estélio, na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), e publicada no livro “Exercícios para um Envelhecimento Saudável”. 

Ele e sua equipe acompanharam 20 idosos, com diagnóstico de declínio cognitivo leve que eram atendidos na rede pública de saúde de Campos dos Goytacazes (RJ), sendo alguns deles integrantes de um grupo de estimulação cognitiva. A pesquisa concluiu que essa estimulação, através do exercício físico e de atividades que desafiam o cérebro, como jogos, leitura, aprendizado de novas habilidades e, principalmente, a interação social, ajudam a fortalecer as conexões neurais e a manter a plasticidade cerebral.

“Além disso, a prática regular de exercícios físicos, adaptada às capacidades de cada indivíduo, melhora a circulação sanguínea no cérebro, estimula a produção de fatores neurotróficos (substâncias que promovem a saúde e o crescimento dos neurônios) e reduz o risco de doenças cardiovasculares, que são importantes fatores de risco para o Alzheimer. Portanto, a socialização e um estilo de vida ativo e estimulante são componentes essenciais para preservar a saúde cognitiva ao longo da vida”, afirma o professor.

Outros cuidados

Embora os pesquisadores americanos afirmem que os “super-idosos” não sigam um mesmo padrão de alimentação, medicamentação ou exercícios físicos, a prática frequente de exercícios e a alimentação regrada devem ser conciliadas com o cultivo das boas relações sociais. Esta é uma visão que, para Estélio, precisa ser expandida. “Não se trata apenas de adicionar anos à vida, mas de adicionar vida aos anos. Na verdade, um conjunto de hábitos de vida saudáveis exerce um impacto sinérgico na longevidade e no bem-estar”, pontua o professor, citando a espiritualidade, associada a menores níveis de estresse, e os ambientes livres de poluição do ar, sonora, visual e da água, que contribuem para a redução do estresse oxidativo e da inflamação crônica.  

“A combinação desses hábitos de vida saudáveis promove uma expressão epigenética favorável. Isso significa que conseguimos influenciar a forma como nossos genes se manifestam, fortalecendo o sistema imunológico, combatendo as doenças crônicas não transmissíveis e, ao diminuir o encurtamento dos telômeros (estruturas protetoras do DNA), refreando a velocidade do envelhecimento. Em última análise, essa abordagem holística contribui para uma vida mais longa, saudável e significativa”, acrescenta Estélio. 

com informações do InfoMoney 

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