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Liga Acadêmica propõe um outro olhar sobre a cannabis

Grupo interdisciplinar formado na Unit por alunos e professores investiga o potencial medicinal e biotecnológico da planta, cujos compostos já são usados no tratamento de doenças

às 19h16
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Uma planta polêmica, que ainda é marcada por preconceitos e objeções, inclusive de ordem legal, mas que por outro lado, vem sendo cada vez mais admitida como fonte para a produção de medicamentos importantes no tratamento de doenças e problemas neurológicos graves. Assim pode ser definida a Cannabis spp, espécie de plantas que tem como uma de suas variações a cannabis sativa, também conhecida como maconha. Há muitos anos, ela vem sendo objeto de pesquisas científicas, que buscam aprofundar conhecimentos e desenvolver alternativas de tratamentos ou outros tipos de uso. 

Na Universidade Tiradentes (Unit), ela inspirou a criação da Liga Acadêmica de Estudo da Cannabis (Laec), que reúne professores e estudantes de graduação e pós-graduação em variadas áreas da Saúde, Ciências Humanas e Ciências Exatas. Criada a partir de um projeto de extensão desenvolvido em 2023, ela começou a funcionar oficialmente em novembro de 2024 e conta hoje com um total de 34 alunos atuantes, mais o suporte de sete orientadores, entre professores, pesquisadores e alunos de doutorado. Eles se dedicam a trabalhos relacionados aos estudos sobre a cannabis, como pesquisas científicas, revisões sistemáticas, eventos acadêmicos e atividades de extensão. 

“A Laec busca explorar a ciência da Cannabis em todas as suas dimensões, da saúde às questões sociais e jurídicas. Ir além da sala de aula, promovendo cursos, eventos e debates que conectam teoria e prática. Produzir e compartilhar conhecimento, incentivando pesquisa, publicações e participação em congressos. Levar informação de qualidade à sociedade, combatendo mitos e ampliando o acesso à ciência. Criar um espaço multidisciplinar, onde estudantes de diferentes áreas crescem juntos. E formar líderes e profissionais críticos, preparados para inovar e impactar o futuro”, define o pesquisador Rafael Barreto Valois, doutorando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP/Unit) e um dos fundadores da Liga. 

Outro fundador, o biomédico e pesquisador, Ciro Ribeiro Brito Amorim, que também é doutorando do PEP, destaca que a atuação da Laec busca ajudar a mudar a percepção e a concepção que as pessoas têm sobre a cannabis, desfazendo mitos e promovendo seu estudo com base em evidências científicas. Segundo ele, o potencial medicinal, industrial e biotecnológico da planta já é amplamente reconhecido nos dias de hoje. Um exemplo disso está nos produtos à base de cannabidiol (CBD), um dos compostos da planta de cannabis. Autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), eles são usados para tratar doenças como epilepsia, Parkinson e dores crônicas, bem como em sintomas de transtornos de ansiedade e efeitos colaterais em pacientes submetidos a quimioterapia. 

“Em diversos países, seu uso é tratado com naturalidade, sendo explorado de forma ética e responsável para a geração de empregos, desenvolvimento de produtos e avanço da ciência. No entanto, no Brasil, ainda enfrentamos muitos tabus e desinformações que dificultam o entendimento real sobre a Cannabis e suas aplicações. Acreditamos que o ambiente universitário, onde se formam profissionais, pesquisadores e cidadãos críticos, é o espaço ideal para promover esse debate com seriedade, responsabilidade e embasamento científico”, diz Ciro, ressaltando que a Laec “cumpre esse papel com compromisso e ética, contribuindo para a formação de estudantes conscientes, preparados e conectados com as transformações do cenário científico e profissional no Brasil”.

Estudos científicos

Desde a criação da Liga, já foram 11 trabalhos apresentados em jornadas, congressos nacionais e eventos, resultando ainda em 11 publicações em anais de revistas, quatro premiações (duas locais e duas nacionais) e dois artigos em desenvolvimento, bem como na organização de uma mesa-redonda sobre Cannabis na Semana de Extensão da Unit (Semex) e do simpósio Cannabis sativa: da Semente à Indústria, entre os dias 29 e 30 de maio. A Laec foi ainda convidada para apresentar seus projetos em dois grandes eventos nacionais: o Seminário sobre Maconha no Brasil Contemporâneo, que aconteceu em julho na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ); e a ExpoCannabis Brasil, segunda maior feira de Cannabis spp. do mundo, que acontecerá entre 14 e 16 de novembro, em São Paulo (SP). 

Para além das apresentações em congressos e eventos, alguns avanços e conclusões obtidas nestas pesquisas e estudos desenvolvidos pela Laec já vêm repercutindo no campo da saúde, oferecendo subsídios científicos que fortalecem práticas clínicas em desenvolvimento, embasando a Política Estadual de Cannabis spp. e apoiando profissionais na compreensão das indicações terapêuticas já regulamentadas pela Anvisa. “Embora não realize prescrição ou aplicação direta de tratamentos, a Liga cumpre um papel estratégico ao qualificar a prática clínica, orientar a implementação de serviços e promover o diálogo entre universidade, sociedade e sistema de saúde, garantindo que o conhecimento produzido se traduza em benefícios concretos para a população”, destaca Ciro. 

O funcionamento da Laec está firmado na Política Estadual de Cannabis spp, regida pela Lei Estadual 9.178/2023, que estabelece diretrizes para a pesquisa, ensino e extensão sobre a planta em Sergipe. “A Liga, portanto, atua em conformidade com essas normas, garantindo legitimidade às suas atividades. Nosso papel é promover o debate acadêmico responsável e baseado em evidências científicas. Também buscamos estimular a formação de profissionais qualificados e engajados com o tema. Assim, a Laec se torna instrumento de aproximação entre universidade, sociedade e poder público. Cumprir a lei é assegurar que nossa atuação seja ética, séria e socialmente relevante”, acrescenta Rafael.

Ciro e Rafael estão desenvolvendo duas teses de doutorado sobre o desenvolvimento de novos processos e a avaliação de eficácia para substâncias canabinoides. Com orientação do professor-doutor Cláudio Dariva, elas estão sendo realizadas no PEP, mas terão parte dos trabalhos desenvolvidos em doutorado-sanduíche na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), referência nacional em estudos científicos sobre compostos da cannabis. A previsão é de que essas teses sejam concluídas e defendidas até o início de 2027. 

Um amplo diálogo

Os 34 alunos integrantes da composição atual da Laec são de diferentes cursos e áreas de conhecimento. Os estudantes da Unit são ligados a cursos como Medicina, Enfermagem, Odontologia, Psicologia, Farmácia e Biomedicina. Há ainda alunos das áreas de Medicina Veterinária, Agroecologia e Ciências Biológicas, em instituições como a Universidade Federal de Sergipe (UFS) e os centros universitários Pio Décimo (UniPio) e Maurício de Nassau (Uninassau). Assim como as outras ligas acadêmicas, a Laec é dividida em diretorias (presidência, vice, secretarias, financeiro, marketing, artística, pesquisa, extensão etc.), sendo cada qual com funções específicas. As reuniões acontecem semanalmente e nelas são discutidos e planejados projetos, eventos, estudos e outras atividades. 

A atual presidente da Liga, Vitória Pereira Dias, aluna do quarto período de Odontologia, define a participação dos alunos como “intensa e colaborativa”, que está presente desde a construção de projetos e pesquisas até a organização de eventos e ações de extensão. “A Liga acrescenta uma formação mais crítica, interdisciplinar e conectada com a realidade social, preparando os alunos para atuarem com ciência, ética e responsabilidade. Ao trabalharmos com base em evidências científicas e diálogo responsável, conseguimos desconstruir preconceitos e ampliar a compreensão da sociedade sobre a Cannabis spp”, diz Vitória, acrescentando que os aprendizados com essa atividade transcendem os aspectos da ciência e da saúde. “Como presidente, tenho aprendido o valor da ciência comprometida com a transformação social, além da importância do trabalho coletivo, network e interdisciplinar na formação acadêmica e profissional”, completa.

O trabalho de estudo sobre a cannabis desenvolvido pela LAEC dialoga diretamente com a formação acadêmica e profissional dos alunos, ao proporcionar uma experiência interdisciplinar que articula conhecimentos de todas essas áreas. “Por meio de pesquisas, revisões sistemáticas e atividades de extensão, os estudantes fortalecem sua capacidade crítica e metodológica, ampliam a compreensão sobre aspectos terapêuticos, sociais e legais da planta e desenvolvem competências essenciais para o exercício profissional, como ética, responsabilidade social e atuação colaborativa. Dessa forma, a Liga contribui para a formação de profissionais mais preparados, qualificados e conscientes do papel transformador da ciência no contexto social e em políticas públicas de saúde”, conclui Ciro. 

Além dos doutorandos Rafael Valois e Ciro Amorim, a orientação responsável pela Liga é do professor José Marcos Melo dos Santos, do curso de Psicologia, que é auxiliado por outros três professores-orientadores de área: Alejandra Debbo (Medicina/Unit), Marlton Fontes Mota (Direito/Unit), Mariana Pires Maria (Engenharia Civil/UniPio e doutoranda PEP/Unit). A coordenadora de pesquisa da Liga é a odontóloga e professora Taís Rocha (Uninassau).

Outros detalhes e informações sobre a Liga Acadêmica de Estudo da Cannabis (Laec) podem ser acompanhados em seu perfil oficial no Instagram

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