O aroma da torra, o som das castanhas sendo quebradas manualmente e o trabalho compartilhado entre gerações fazem parte da rotina de um pequeno povoado localizado no agreste sergipano. Em Carrilho, comunidade rural de Itabaiana, a produção artesanal da castanha de caju se tornou um elemento fundamental da cultura local, reunindo conhecimentos, memórias e modos de vida transmitidos ao longo de décadas.
Foi esse conjunto de saberes e tradições que levou a Castanha de Caju do Carrilho a receber, em 2017, o reconhecimento de Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe, por meio da Lei Estadual nº 8.262. O título oficializou a importância histórica, cultural e identitária da atividade para a comunidade e reforçou a necessidade de sua preservação.
Origem familiar
Segundo pesquisas e estudos desenvolvidos pela Universidade Tiradentes (Unit), a tradição da castanha de caju no povoado surgiu há mais de cinco décadas e se consolidou como uma das principais atividades econômicas da região. O professor da Unit, Rony Silva, explica que o beneficiamento da castanha começou a ganhar força a partir da década de 1970, quando famílias locais passaram a trabalhar de forma artesanal na quebra e torrefação do produto.
“Embora relatos históricos indiquem que o beneficiamento começou a se fortalecer a partir da década de 1970, quando famílias locais passaram a trabalhar com a quebra e a torrefação das castanhas de forma artesanal. Esse saber foi transmitido oralmente e pela prática cotidiana, de pais para filhos, envolvendo toda a família nas etapas de torra, quebra, retirada da película e comercialização”, destaca o pesquisador.
Ao longo dos anos, a atividade passou por transformações importantes. O trabalho, que antes era realizado principalmente nos quintais das residências, ganhou novas formas de organização por meio de cooperativas, capacitações técnicas e melhorias nas condições de trabalho, sem abandonar as características artesanais que tornaram a produção conhecida.
Reconhecimento
Para o professor, o reconhecimento concedido pelo Estado representa a importância cultural da atividade e o compromisso com sua continuidade. De acordo com Rony, a Castanha de Caju do Carrilho recebeu a certificação devido a características que a diferenciam de outros produtos semelhantes. Entre elas está o modo tradicional de beneficiamento e a torrefação natural, realizada com a utilização da própria casca da castanha como combustível, tornando o processo mais sustentável.
“O reconhecimento da Castanha de Caju do Carrilho como Patrimônio Cultural Imaterial de Sergipe significa o reconhecimento oficial de seu valor cultural, histórico e identitário, além do compromisso do poder público com sua preservação. O título também contribui para fortalecer a memória coletiva da comunidade e valorizar um conhecimento construído e preservado ao longo de gerações”, pontua Rony.
Símbolo local
A castanha se tornou um símbolo de pertencimento para os moradores do povoado. Segundo o professor, a produção está profundamente ligada à identidade do Carrilho e integra diferentes manifestações comunitárias. Embora não existam grandes festividades oficialmente dedicadas exclusivamente à castanha, ela está presente em feiras, eventos locais e ações culturais que celebram a história da comunidade. “Desde o reconhecimento como patrimônio, em 2017, também houve um aumento da visibilidade do povoado, favorecendo iniciativas ligadas ao turismo cultural e fortalecendo a organização dos produtores”, ressalta.
Ao longo de sua história, a atividade garantiu a subsistência de mais de uma centena de famílias e continua desempenhando papel importante na economia local. Rony destaca que a comercialização da castanha movimenta a economia regional por meio da geração de emprego, da atuação de cooperativas e da valorização de um produto tradicionalmente associado ao município de Itabaiana.
Ao mesmo tempo, o setor enfrenta desafios para garantir sua continuidade. Entre eles estão a concorrência de mercados maiores, os custos de produção, as exigências sanitárias e a necessidade de atrair os jovens para a atividade. Para Rony Silva, preservar a tradição significa também proteger parte da história da comunidade. “Se essa tradição desaparecesse, perder-se-iam conhecimentos, memórias, modos de vida e práticas culturais que ajudam a definir a identidade do povoado”, alerta.
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