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O que muda com a nova NR-1: entenda os impactos para trabalhadores e empresas

Atualização da norma de segurança do trabalho obriga empregadores a identificar fatores que podem causar adoecimento mental, como sobrecarga, pressão excessiva e conflitos no ambiente profissional.

às 18h22
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil
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A saúde mental vem ganhando um status cada vez maior de prioridade nas ações e políticas de saúde tanto pelas pessoas como por empresas e pelo poder público. O passo mais recente neste sentido foi a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passa a incluir oficialmente os riscos psicossociais nas políticas de saúde e segurança do trabalhador. O novo texto da regra começou a valer no último dia 26 de maio e está na fase dos 90 dias de adaptação para as empresas, na qual as fiscalizações do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) terão apenas caráter informativo e educativo. 

A partir de agora, conforme a nova NR-1, as empresas estão obrigadas a identificar e corrigir fatores que provocam adoecimento mental e problemas psicológicos, como pressão excessiva, sobrecarga, conflitos interpessoais e organização do trabalho, incorporando essas variáveis ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e às políticas de saúde ocupacional. Além da prevenção ao adoecimento mental, o objetivo é promover ambientes laborais mais seguros e equilibrados.

A norma se justifica pela alta incidência de afastamentos e licenças de trabalhadores diagnosticados com doenças psicossociais, como ansiedade, depressão e síndrome de burnout, entre outros. Segundo dados da Previdência Social, elas motivaram o afastamento de mais de 540 mil pessoas do trabalho em 2025, um número 15% maior em relação ao total de 2024. Para o professor Cleberson Tavares Costa, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), a atenção para este problema deveria ter sido dada e ampliada pelas empresas e pelo poder público há mais tempo. 

“Temos muitos acontecimentos na vida social do sujeito, dentro e fora do trabalho e com o trabalho. Como a gente costuma discutir bastante em aula com os alunos, o trabalho é simplesmente o maior exercício social da nossa história. Qualquer problema que a gente tenha, seja no trabalho ou algo fora do trabalho que seja amplificado lá, teremos um problema de escala social. A gente está discutindo isso de forma atrasada, mas que bom que finalmente chegamos a esse ponto”, afirma Cleberson, que também atua como especialista em Psicologia Organizacional e do Trabalho. 

De acordo com ele, existem duas demandas principais no que diz respeito à saúde mental: a ansiedade patológica, na qual o paciente sofre crises prolongadas, intensas e contínuas de nervosismo e sintomas físicos; e a depressão, na qual o paciente tem tristeza e apatia profunda. “O burnout também tem que ser muito discutido, porque é uma doença que foi descoberta através do trabalho e que reúne sintomas mistos de ansiedade, de excesso de ansiedade, de um excesso de estresse, de sintomas depressivos, de evitação do trabalho, etc”, acrescenta Cleberson. 

Outra questão apontada é a vulnerabilidade maior entre as mulheres, sobretudo as que são responsáveis pelos cuidados com as famílias ou mesmo com os cuidados domésticos. Esta atribuição extra e não-remunerada acaba piorando a sobrecarga de trabalho e, por consequência, a saúde mental das trabalhadoras. “A mulher vivencia dupla ou tripla jornada, em um trabalho de forma integral. Ela só pára de trabalhar quando dorme na maioria dos casos, porque muitas vezes ela está tomando conta da casa, dos filhos, dos afazeres domésticos e trabalhando. Em tempos atrás, a gente não tinha a mulher no mercado de trabalho e foi uma conquista. É super louvável e digna a mulher no mercado de trabalho, só que a gente, enquanto sociedade, não reajustou esse cenário para a mulher. O homem continua tendo privilégios de chegar, descansar um pouco mais no sofá, não tomar tanto conta dos filhos…enquanto a mulher está extremamente sobrecarregada, não somente através das questões de trabalho, talvez até mais por questões sociais”, alerta o psicólogo. 

Mudando a cultura 

Entre os principais impactos da nova redação da NR-1, é esperada uma grande mudança de cultura das empresas e instituições, no sentido de considerar as questões relacionadas à saúde mental e ao perfil emocional dos colaboradores, desde o processo de seleção até o seu desligamento, passando por um acompanhamento mais próximo de cada funcionário. Este posicionamento já é adotado por boa parte das empresas de médio e grande porte.   

“Uma boa empresa já tem um processo seletivo em que avalia também as condições de saúde mental do sujeito, porque essas questões não são fragmentadas, nem decorrem de um fator. Você até pode ter pontualmente, mas de um modo geral nós somos sistêmicos, interativos. Elas têm avaliações psicológicas desde o cunho projetivo, avaliando questões de personalidade e até questões de atenção, concentração, estresse e ansiedade para identificar qual é o estado psicológico daquele sujeito”, afirma o professor.

Cleberson acrescenta que este cuidado deve ser mantido com cada colaborador enquanto ele estiver contratado e integrado à empresa. “Não adianta você ter um processo seletivo que dá atenção a essas questões de saúde mental e esquecer essa questão durante o dia-a-dia do trabalhador. Boas empresas, por exemplo, também já têm um monitoramento anual ou semestral de clima organizacional, em que você investiga algumas questões que podem estar associadas ao assédio, e outras políticas organizacionais no sentido preventivo”, orienta, ressaltando que as empresas podem aproveitar o período de 90 dias implementar estas medidas e desenvolver o aspecto cultural. 

Mas a questão da segurança mental no trabalho, não passa apenas pela implementação das medidas previstas pela NR-1, mas por uma política bem mais ampla de garantir boas condições de trabalho aos colaboradores, inclusive em detalhes como salário, carga horária, estrutura e boas relações entre chefes e subordinados. Cleberson Costa considera que “a atualização da norma  é um ponto de partida, não de chegada”, e que a questão precisa ser pensada de uma forma ainda mais ampla. 

“É difícil a gente discutir questões de saúde mental de forma simplificada, sendo que o sujeito tem uma remuneração que não dá para ele sustentar a própria casa, tem uma jornada de trabalho exaustiva, tem inúmeras dificuldades em decorrência de um trabalho que não remunera bem, que não oportuniza um espaço de descanso para ele, que não oferece ferramentas adequadas para o desenvolvimento do seu trabalho. Então, quando a gente fala sobre saúde mental, especificamente no trabalho, a gente tá falando de condições adequadas, condições dignas e condições de prosperidade para aquele trabalhador e para sua família. Se a gente enquanto sociedade não mudar, nem refletir sobre mudanças, a NR-1 ela vai ser limitada.”, conclui o professor. 

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