Como a Inteligência Artificial vai interferir nas práticas de educação e de comunicação que vigoram na atualidade? E como isso pode garantir um ensino-aprendizado que contribua para a evolução do pensamento crítico das pessoas? Estas questões foram os temas principais de dois eventos simultâneos que aconteceram ao longo desta semana no Bloco D do Campus Farolândia da Universidade Tiradentes (Unit): o 12º Simpósio Internacional de Educação e Comunicação (12º Simeduc) e o 3º Fórum Permanente Paulo Freire (3º Fopaf), promovidos pelo Grupo de Estudos e Pesquisa em Comunicação, Educação e Sociedade (Geces), em conjunto com o Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED/Unit).
Ambos foram encerrados na manhã desta sexta-feira, 24, com duas conferências transmitidas on-line. A primeira, com o tema “Inteligência Artificial, Competências e Tecnologias na Educação”, foi ministrada pelo professor Raúl Quintana-Alonso, da Universidade Pontifícia de Salamanca (UPSA), em Salamanca (Espanha). A outra, sobre “Diálogos e saberes: a comunicação como ferramenta de transformação na educação popular”, foi realizada pela professora María Del Carmen López Vásquez, que atua como advogada e educadora popular no estado de Oaxaca (México).
O Simeduc e o Fopaf duraram três dias, com 77 trabalhos científicos submetidos e mais de 200 participantes inscritos, que puderam assistir a cinco conferências, três mesas redondas e dois painéis de discussão. Estas dinâmicas tiveram o objetivo de revitalizar e impulsionar diálogos fundamentais e pertinentes à pesquisa em educação e comunicação, os quais suscitam uma série de debates sobre Inteligência Artificial.
“A gente escolheu um tema que realmente está em todos os âmbitos sociais, e não dá pra gente ficar fugindo dessa realidade. Quando a gente fala de inteligência artificial, a gente pensa logo na questão da educação. Como é que a educação vai acontecer daqui pra frente? A educação é um projeto social, e dentro dele, a tecnologia, assim como a inteligência artificial, traz uma perspectiva completamente nova. A gente vem pensando numa outra sociedade, em como ela vai se comportar, como nós vamos nos comportar diante de uma coisa com a qual nós temos que viver e aprender a lidar”, contextualiza a professora Valéria Pinto Freire, líder do Geces e pós-doutora em Educação pelo PPED.
Embora simultâneos e complementares, os dois eventos procuraram discutir um mesmo tema sob duas linhas diferentes de raciocínio. Enquanto o 3º Fopaf refletiu sobre como os princípios do filósofo e educador Paulo Freire podem ser aplicados nas práticas educativas contemporâneas, o 12º Simeduc explorou as múltiplas aplicações da IA em diversos setores, especialmente na educação e comunicação, além de discutir os desafios éticos que surgem com o desenvolvimento e uso da IA, como viés algorítmico, responsabilidade e o futuro da escola e do trabalho. Também foram abordadas as tendências e perspectivas futuras da IA, incluindo o avanço em direção à inteligência geral e à superinteligência.
“Esse é um evento que acontece há um bom tempo, com pessoas que vêm de várias partes do mundo para falar com a gente. É quando a gente aprende coisas diferentes, verifica que os nossos problemas ou indagações são as mesmas dos nossos colegas. É quando a gente identifica que tem outros pesquisadores que estão pensando a educação junto conosco. E a comunicação, obviamente, faz parte do nosso dia. A gente não vive em sociedade sem se comunicar. A gente usa as tecnologias o tempo todo para isso, usa as interações humanas, o olho no olho, o estar perto”, destacou a professora Simone Silveira Amorim, do PPED, que fez parte da coordenação dos eventos.
“As tecnologias não surgem de uma noite para o dia. Elas surgem porque o homem tem necessidade, vai lá e coloca a cabeça para pensar e encontrar soluções. E essa solução surpreende o próprio homem, mas é fruto da necessidade. Então, a gente vai ter que conviver com elas, que podem até trazer outros problemas, mas, de imediato, elas foram criadas para resolver. Esperamos que o que a gente preparou para os eventos possa surtir o efeito desejado dentro do planejado, permitindo que as pessoas possam trocar informações e ampliar o seu conhecimento sobre essa relação entre a educação e a comunicação”, completa o pró-reitor de Graduação e Extensão da Unit, Ronaldo Linhares que também é professor do PPED.
Presença esperada
Uma das presenças mais esperadas do Simeduc e do Fopaf, na última quarta-feira, 22, foi a de Lúcia Santaella, professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e livre-docente pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA/USP). Considerada uma das referências mundiais em estudos sobre comunicação e semiótica, ela esteve na Unit para falar sobre “Educação e Inteligência Artificial: Caminhos para uma ‘outra’ sociedade”, na qual provocou uma reflexão sobre as transformações impulsionadas pelo advento das tecnologias baseadas na Inteligência Artificial.
“Nós já somos outra humanidade. As pessoas estão usando a inteligência artificial como nós começamos a usar o computador nos anos 1980. Nós temos que aprender a conviver, e o papel da educação é conviver eticamente. Nós temos que conduzir as novas gerações para que não se deixem enganar, ludibriar e tirem proveito daquilo que tem de melhor nessas tecnologias. Isso é uma arte”, conceitua Santaella, fazendo um paralelo ao debate levantado pelo surgimento e evolução das máquinas, ao longo do século passado. “As máquinas estão aí há muito tempo, só que elas evoluem muito rapidamente e estão estendendo capacidades humanas. Só que o humano é ambivalente, controverso e paradoxal. Em suma, o humano é um ser um pouco complicado”, acrescenta.
A presença da professora Lúcia Santaella atraiu muitos estudantes e professores que tiveram a oportunidade de estudar com pelo menos um de seus 51 livros publicados sobre semiótica e outras teorias da comunicação. Entre elas, estavam Liliane Maria de Oliveira Gomes e Kelly Cristine de Oliveira Gomes, alunas do primeiro ano do Mestrado em Educação na Unit, que levavam consigo uma das obras mais recentes da palestrante: “Culturas e artes do pós-humano”.
“Ela é uma pessoa muito importante no cenário da educação brasileira. Os nossos professores sempre falam sobre ela, e antes mesmo do mestrado a gente já conhecia o trabalho dela e admirava muito. Estamos aqui como fãs, e trouxemos um dos livros que a gente tem para guardar um autógrafo dela como lembrança. Foi uma experiência enriquecedora, porque são muitos assuntos que agregam na nossa área, da teoria à prática”, disseram elas, antes de conseguirem o autógrafo, algumas fotos e muitas outras ideias para suas dissertações.
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