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O som do sertão e da fé: grupos de pífano mantêm tradição centenária em Sergipe

Entre povoados e cidades do interior, bandas de pífano mantêm viva uma expressão cultural que une música, memória e identidade.

às 18h51
Sergipe é um dos estados onde os pífanos estão mais presentes na cultura popular, principalmente em seus festejos religiosos e folclóricos (Foto: Carlovancy Andrade/Instituto Marcelo Déda)
Sergipe é um dos estados onde os pífanos estão mais presentes na cultura popular, principalmente em seus festejos religiosos e folclóricos (Foto: Carlovancy Andrade/Instituto Marcelo Déda)
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Uma simples flautinha de bambu, mas que produz por si próprio um som característico e significativo na cultura nordestina e sergipana. E cuja força cresce ainda mais quando soma-se a outros elementos, como caixas, tambores e pratos. É o pífano, que também é costumeiramente chamado de “pife”. Ele é fruto da fusão de instrumentos de sopro mais populares na Europa, principalmente em países como França, Espanha e Portugal, os quais se misturaram com influências indígenas, latinas e africanas. Com a formação e adaptação das tradições religiosas e folclóricas, o pife passou a se identificar mais com a cultura e a população de cada região, animando festas, ritos, procissões, feiras livres e outras manifestações. 

Sergipe é um dos estados onde os pífanos estão mais presentes na cultura popular. Um exemplo disso está no Grupo de Pífano Estrela, formado há pouco mais de 100 anos do Povoado Saco da Rainha, em Itabaianinha, sul do estado. Recentemente, ele foi homenageado pela Câmara Municipal e pela Prefeitura da cidade, que lhe concederam o título de Patrimônio Cultural Imaterial, através de uma lei municipal. No decreto, o Município reconhece o grupo como “expressão de identidade folclórica local” e “seu valor histórico e cultural”, além de definir o pífano como “uma rica manifestação da cultura popular”. 

Outro exemplo é o Grupo de Pífano Santo Antônio, organizado há mais de 60 anos no povoado Céu, em Boquim. Criado pelo mestre Antônio Modesto, mais conhecido como “Tonho Preto”, ele surgiu inspirado em outros grupos de pífano que costumavam animar as novenas religiosas do povoado. Entre as festas onde o grupo mais atua, desde o início dos anos 1960 até hoje, estão as cavalgadas e a tradicional Missa do Vaqueiro realizada no povoado Colônia, também em Boquim, que foi declarada ‘Bem de Interesse Cultural’ de Sergipe, em 2023, através de uma lei estadual. “Tonho Preto” também já recebeu diversas homenagens por seu trabalho de preservação do folclore, destacando-se o Grau de Mérito Universitário Especial, concedido em 2023 pela Universidade Federal de Sergipe (UFS). 

Em Frei Paulo, outro grupo de pífanos conserva uma história de 130 anos: a Banda de Pífano de Alagadiço, fundada em dezembro de 1896 e dedicada a Nossa Senhora da Conceição. O motivo, segundo a história pesquisada pelo escritor Antônio Porfírio Neto, foi o pagamento de uma promessa feita à santa pela esposa de João Sabino, um ex-militar que fugiu da Guerra de Canudos e se estabeleceu como um dos primeiros moradores do povoado Alagadiço, em Frei Paulo. Desde a sua anistia, ele passou a tocar com seu grupo de pífanos em todas as noites da novena em homenagem à padroeira e, nos dias da festa, liderava a procissão dos fieis até a igreja. A tradição se manteve até hoje e a banda também foi declarada Patrimônio Cultural do Município. 

Já na cidade de Capela, marcada pela vibrante festa em homenagem a São Pedro, no fim de junho, um som que não pode faltar é o da Banda de Pífanos do povoado Vila Pedras. A tradição é mantida por projetos como o Vila de Pífanos, criado em 2021 por Antônio Santos e Iolando Nascimento, que já tocavam durante os festejos populares e passaram a ensinar o toque do instrumento para garotos do povoado, através do Centro Social local. A banda se mantém presente com seu toque firme, não apenas nos dias principais do São Pedro, como a Festa do Mastro, mas também nas “festas preparatórias” que marcam a proximidade da data: a Sarandaia, o Cortejo da Baiana e a Marcação do Mastro. 

Outras cidades sergipanas também têm seus grupos dedicados a preservar a tradição dos pífanos nas festas e festejos folclóricos e culturais. Eles estão presentes em povoados de municípios como Itaporanga D’Ajuda, Moita Bonita, Lagarto, Ribeirópolis, Pacatuba, Aquidabã, Graccho Cardoso, Carira, Gararu, Macambira e Tobias Barreto, entre outros. E em Aracaju, destaca-se a “Banda Pífano de Pife”, criada em 2001 pelo músico e percussionista Pedrinho Mendonça, com a proposta de unir a tradição nordestina às influências de ritmos modernos. O grupo se apresenta frequentemente em espaços como o Museu da Gente Sergipana, na capital. 

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