Um menino de pele morena, cabelos de fogo, dentes afiados, olhos faiscantes e pés virados para trás, disposto a tudo para proteger as matas, os rios e todos os seres que habitam na natureza. Para vai até ela na intenção de caçar, desmatar e destruir, ele aparece como um demônio, causando terror e traumas. Já para quem a trata com amor e respeito, se torna um amigo carinhoso e próximo, com quem se pode contar sempre. Mas agora, para os participantes da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que será realizada entre 10 e 21 de novembro em Belém (PA), ele se apresentará como mascote, promovendo, representando e divulgando a Amazônia e o Brasil perante o mundo. É o Curupira, personagem muito presente no folclore brasileiro e cujo nome, em tupi-guarani, quer dizer “corpo de menino”.
Os primeiros relatos sobre ele aparecem em cartas escritas no ano de 1560 pelo padre e missionário espanhol José de Anchieta, que já convivia com os indígenas na região da atual cidade de São Paulo. Nelas, e com base na tradição oral, o religioso descreve o Curupira como um ser vingativo, que recebia oferendas dos moradores para que ele não os atacasse. “É coisa sabida e pela boca de todos corre, que já certos demônios e que os brasis chamam coropira, que acometem aos índios muitas vezes no mato, dão-lhe de açoites, machucam-nos e matam-nos. São testemunhas disto os nossos irmãos, que viram algumas vezes os mortos por eles”, afirmava Anchieta, em trecho compilado pelo folclorista potiguar Luís da Câmara Cascudo.
Outros relatos o descrevem como alguém muito esperto, que lança mão de várias táticas para espantar ou eliminar os invasores e malfeitores. Inclusive deixar rastros falsos, espalhar névoas pela floresta e emitir assobios agudíssimos ou sons falsos de animais e pássaros. E assim ele passou a ser descrito no folclore brasileiro ao longo do tempo, também entrando desta forma no imaginário popular, principalmente entre os que vivem na Amazônia. Há relatos de que muitos seringueiros e caçadores, ao entrarem na floresta, costumam deixar comidas, bebidas ou objetos ofertados ao Curupira.
Na década de 1930, algumas destas histórias foram perpetuadas pelo escritor paulista Monteiro Lobato, em seus livros da série Sítio do Pica-Pau Amarelo, que transformou o Curupira, o Saci e outras lendas em personagens que faziam companhia às aventuras de Pedrinho, Narizinho, Dona Benta, Tia Nastácia e outros protagonistas. E foi por conta das inúmeras adaptações das obras para o cinema, os quadrinhos, o rádio, a televisão e o streaming, que a história do Curupira chegou até os dias de hoje.
Essas características de esperteza e amor à natureza também foram reconhecidas pelos educadores e pelas autoridades. Em setembro de 1970, uma lei estadual de São Paulo, aprovada pela Assembléia Legislativa e promulgada pelo então governador Roberto de Abreu Sodré, instituiu o Curupira como Símbolo Estadual de Guardião e Protetor das Florestas e dos Animais, além de inseri-lo em ações de educação ambiental. E agora em 2025, a escolha pelo Curupira como mascote oficial da COP30 partiu da presidência da conferência, que está ligada ao governo brasileiro.
Foi uma das formas de integrar os saberes dos povos originários na estratégia de mitigação dos efeitos da mudança do clima, que é o principal tema da conferência. “A cultura brasileira herdou dos povos indígenas nativos do Brasil o conceito de “mutirão” (“Motirõ” em tupi-guarani), que se refere a uma comunidade que se reúne para trabalhar em uma tarefa compartilhada, seja colhendo, construindo ou apoiando uns aos outros. Ao compartilhar essa inestimável sabedoria ancestral e tecnologia social, a presidência da COP30 convida a comunidade internacional a se juntar ao Brasil em um mutirão global contra a mudança do clima, um esforço global de cooperação entre os povos para o progresso da humanidade”, destacou o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da conferência, em carta aberta à comunidade internacional.
O Curupira é retratado em praticamente todos os materiais de divulgação da conferência, incluindo o selo oficial. Nele, a mascote aparece sem rosto, mas com os cabelos de fogo em destaque e segurando uma lança, cercado por folhas, plantas e flores. Ela aparece também em livros, histórias em quadrinhos e como boneco em ações educativas, campanhas de divulgação e alguns eventos. Um deles foi o desfile oficial de 7 de Setembro em Brasília, no qual ele desfilou em carro aberto e foi saudado por todos os presentes, entre eles o presidente Luís Inácio Lula da Silva e todos os seus ministros.
Vai começar!
As atividades oficiais da COP30 na capital paraense devem começar nos dias 6 e 7 de novembro, quando acontece a Cúpula dos Chefes de Estado. Até esta sexta-feira, 31, 145 delegações estrangeiras estavam com a presença confirmada no evento, sendo 57 lideradas pelos respectivos presidentes, reis e primeiros-ministros. A expectativa é de que o número aumente até lá, já que outros países ainda avaliam enviar suas delegações a Belém. Entre as presenças mais aguardadas, está a do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, convidado pessoalmente por Lula durante o encontro que tiveram na Malásia, em 26 de outubro. No entanto, ainda não está confirmado se Trump aceitou.
A maior prioridade da conferência será alinhar os compromissos de países desenvolvidos e em desenvolvimento em relação ao financiamento das ações de mitigação, adaptação ou resiliência às mudanças climáticas; além de garantir que as metas de redução de emissões sejam compatíveis com a ciência climática; e de lidar com os impactos socioeconômicos a serem sentidos pelas populações mais vulneráveis. Os países participantes devem rever e fortalecer as Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) dos países, buscando manter o aquecimento global abaixo de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais.
com informações de COP30.br, Agência Brasil e Jovem Pan
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