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Literatura popular atravessa séculos e encontra novos caminhos na era digital

Expressões como cordel, repente e lendas folclóricas preservam sua força histórica enquanto artistas e poetas buscam reinventar a tradição diante dos desafios culturais do século 21

às 20h18
Foto: Lízia Martins
Foto: Lízia Martins
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A literatura popular tem suas raízes muito antes da invenção da imprensa. Ela surge como uma forma de expressão coletiva baseada na oralidade, narrativas transmitidas de geração em geração, moldadas pelo imaginário social e pelos acontecimentos do cotidiano. Segundo informações do portal Educa Mais Brasil, seu núcleo remonta às primeiras sociedades humanas, quando histórias eram contadas para ensinar, entreter ou preservar memórias.

Quando chega ao Brasil, essa tradição encontra um terreno fértil. Povos indígenas já possuíam uma rica produção oral, composta por mitos, lendas e relatos. Após a colonização, essas narrativas se misturam às tradições africanas e europeias, resultando em uma produção híbrida e diversa. De acordo com um levantamento publicado pelo Portal Brasil Escola, o cordel e a cantoria nordestina são herdeiros diretos dessa fusão de culturas.

No século 19, com o avanço da tipografia, parte dessa produção passou a ser impressa em folhetos e então nasce, oficialmente, aquilo que se convencionou chamar de literatura de cordel no Brasil. Mas, mesmo ganhando materialidade, o elemento oral continuou sendo o coração do gênero: o poeta declamava, improvisava, cantava. A escrita apenas ampliou o alcance do que já era fortemente vivido nas feiras, praças e interiores.

Cordel, repentes e narrativas do povo

No contexto brasileiro, a literatura popular se desdobra em linguagens diversas. O cordel talvez seja o formato mais emblemático, especialmente no Nordeste. De acordo com informações publicadas pelo Jornal da USP, os folhetos impressos a partir do século 19 ajudaram a consolidar temas como valentia sertaneja, histórias de amor, humor, crítica social e até versões populares de grandes acontecimentos políticos.

Além do cordel, outras expressões como o repente e a embolada, manifestações marcadas pela improvisação musical, são consideradas parte do universo literário popular. A palavra, nesse caso, é tão protagonista quanto a melodia. Segundo o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o repente já foi reconhecido como patrimônio cultural, consolidando sua importância na preservação da memória e da identidade regional.

Ainda na esfera popular, lendas como o Saci, a Cuca, o Caboclo d’Água e a Mãe-d’Água são exemplos de narrativas que se espalharam pelo país por meio da oralidade e, mais tarde, ganharam versões escritas. A crítica literária aponta, como publicado pelo Portal Toda Matéria, que o Brasil desenvolveu um arcabouço de personagens folclóricos que dialogam diretamente com as inquietações e esperanças do povo, funcionando como espelhos simbólicos da vida cotidiana.

Sergipe e suas vozes

Em Sergipe, a literatura popular tem uma presença marcante e, muitas vezes, pouco explorada fora do estado. A tradição dos cordelistas sergipanos é antiga e reflete a realidade do agreste, do sertão e do litoral. Segundo informações do Portal Infonet, Sergipe foi um dos estados nordestinos que mais preservou a tradição dos folheteiros que circulavam em feiras e mercados, especialmente nos municípios do interior, como Itabaiana e Nossa Senhora da Glória.

A figura do poeta popular ainda ocupa um lugar de respeito em comunidades rurais. Muitos continuam produzindo folhetos de forma artesanal, imprimindo em gráficas locais ou até mesmo escrevendo à mão para declamar em rodas culturais. Em Aracaju, universidades e centros culturais têm promovido espaços para manter viva essa tradição. A TV Aperipê, por exemplo, já exibiu reportagens destacando a relevância dos poetas de feira e a importância de sua continuidade para a memória cultural sergipana.

Outro ponto importante é a presença das manifestações populares em festas tradicionais, como o São João. Ali, a cantoria, o repente e os cordéis convivem com quadrilhas, zabumba e sanfona. Essa integração reforça o papel da literatura popular como elemento estruturante da cultura regional. 

O papel da literatura popular no século 21

Apesar de sua força histórica, a literatura popular enfrenta desafios para alcançar novas gerações. A digitalização da cultura, o ritmo acelerado das informações e a perda de espaços tradicionais de encontro afetam diretamente a circulação da oralidade. Segundo análises publicadas pelo Observatório Itaú Cultural, muitos artistas populares relatam dificuldade de inserção em políticas públicas e falta de incentivos para formação de novos poetas.

Por outro lado, a internet também abriu portas. Cordelistas e repentistas começaram a registrar performances em vídeos, divulgar folhetos em redes sociais e participar de lives culturais. Há quem transforme cordéis em projetos educativos, trabalhando alfabetização e interpretação de texto em escolas públicas, prática apontada em reportagens do Portal G1 sobre iniciativas culturais no Nordeste.

O futuro da literatura popular depende do equilíbrio entre preservação e inovação. A tradição oral precisa continuar existindo como experiência comunitária, mas também pode dialogar com formatos mais contemporâneos. O que não muda é seu papel vital: registrar o cotidiano do povo, traduzir histórias vividas na pele e manter viva uma herança cultural que atravessa séculos.

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