A vontade de continuar útil à sociedade pode assumir múltiplas formas e, para alguns, ela chega justamente quando muitos já desaceleram. Foi assim com Carlos Alberto Morais Pacheco da Silva, que decidiu iniciar uma segunda graduação aos 60 anos. Já aposentado de sua primeira carreira profissional, ele buscava uma nova forma de contribuir para o bem-estar coletivo e encontrou na Psicologia um novo caminho. Hoje, egresso da Universidade Tiradentes (Unit), ele atua como voluntário no Lar de Idosos Nossa Senhora da Conceição (SAME), onde constrói semanalmente histórias de cuidado, escuta e acolhimento.
Carlos decidiu cursar Psicologia em 2018, já aposentado, movido pelo desejo de permanecer socialmente ativo. Ele recorda que, após décadas dedicadas à primeira carreira, sentiu que era hora de iniciar um novo ciclo. “A escolha aconteceu justamente porque eu já havia encerrado minha trajetória profissional anterior. Quando decidi ter outra atividade, eu já tinha 60 anos, mas queria continuar ajudando a sociedade de alguma forma”, contou.
A espiritualidade também teve peso importante na decisão. Carlos explica que já atuava oferecendo aulas e palestras dentro desse universo, o que o aproximou naturalmente da escuta e do acolhimento. “Eu já ajudava pessoas nesse contexto, então pensei que seria interessante também trabalhar dentro da clínica psicológica”, explicou, ao relembrar o que o aproximou da nova profissão.
A escolha pela Unit aconteceu após uma pesquisa criteriosa. Carlos analisou grades curriculares de diversas instituições até se identificar plenamente com a proposta da universidade. “A grade da Unit e as informações sobre os estágios me chamaram a atenção. E a vivência confirmou a escolha. Mesmo sendo o mais velho da turma, nunca me senti isolado. Fui tratado como um colega igual aos outros e encontrei professores e uma estrutura acadêmica muito boa”, disse.
Entre rotina acadêmica e vida pessoal
Embora estivesse aposentado, Carlos afirma que a nova jornada também exigiu dedicação e reorganização da rotina. Para ele, o principal desafio foi ajustar o tempo entre estudos e vida pessoal. “Eu me empenhei bastante para aproveitar o curso, mas também precisava continuar dedicado à minha esposa e às minhas responsabilidades pessoais. Esse equilíbrio foi essencial ao longo dos cinco anos de graduação”, relatou.
Ao comentar sobre o que mais despertou seu interesse, ele destaca uma ampla variedade de temas. Da Psicopatologia à Psicobiologia, passando por disciplinas voltadas ao envelhecimento, como Psicogerontologia, Carlos conta que encontrou afinidade com diferentes abordagens. “Todas as linhas teóricas ensinadas me atraíram, TCC, Fenomenologia, Psicanálise, Behaviorismo. A riqueza do conteúdo ampliou minha visão como futuro psicólogo”, afirmou.
Essa inclinação para compreender o envelhecimento humano acabaria guiando, mais tarde, sua atuação profissional. Durante a graduação, ele visitou uma única vez o SAME, mas a impressão foi marcante. “Percebi que havia carência de um psicólogo com atuação fixa. Como já tinha interesse em trabalhar com idosos, foi natural procurar atuar em um local como o SAME”, explicou.
A escolha pelo voluntariado
O trabalho voluntário sempre esteve presente na vida de Carlos, o que tornou a decisão ainda mais coerente. Ele conta que já havia atuado durante dez anos como voluntário em um instituto ligado ao estudo de fenômenos paranormais e multidimensionalidade. “A questão do voluntariado é muito natural para mim. Eu já tinha essa vivência, então fazer isso novamente, agora como psicólogo, foi uma consequência”, observou.
Seu vínculo com os residentes do SAME é marcado por atividades que vão desde entrevistas de ingresso até atendimentos psicoterapêuticos. “Realizo anamnese, acolhimento psicológico continuado, aconselhamento e tratamento conforme as demandas. Atendo também funcionários, porque o cuidado emocional da equipe também é fundamental”, detalhou.
Apesar das muitas histórias que presencia, Carlos preserva o sigilo como princípio ético. Ainda assim, compartilha um aspecto que considera marcante. “O ser humano precisa de atenção e de saber que alguém realmente se importa com ele. Quando isso se estabelece, surge uma beleza relacional, e o setting terapêutico faz sentido. Esse vínculo é o mais especial para mim”, afirmou.
Transformações pessoais e profissionais
A experiência voluntária trouxe impactos profundos em sua vida. Carlos explica que, ao lidar com idosos que enfrentam limitações e desafios, ele próprio ganha novas perspectivas. “Essa vivência me traz humildade diante da vida. Convivo com pessoas algumas fortes, outras frágeis, fazendo o possível para conduzir suas vidas da melhor forma. Isso também me fortalece”, refletiu.
Do ponto de vista profissional, a passagem pelo SAME reforçou sua confiança na escolha pela Psicologia como segunda carreira. “Mostra que escolhi uma profissão útil e necessária. Isso me dá a certeza de que esse caminho faz sentido”, disse. Ao pensar sobre o que diria a outras pessoas que cogitam iniciar uma nova formação ou se envolver com trabalho voluntário, Carlos é direto: “Não importa o momento da vida. O que importa é se perguntar se você realmente se importa com os outros. Se a resposta for positiva, você será um bom psicólogo ou psicóloga. Quanto ao voluntariado, é algo íntimo, mas a sociedade precisa dele em inúmeras áreas”, recomenda.
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