Muita gente acorda ou dorme com a sensação de que “a cabeça vai explodir” ou lhe matar a qualquer momento. É o lamento mais repetido entre as pessoas que têm a chamada enxaqueca ou migrânea, doença neurológica crônica que causa dores fortes e pulsantes em um dos lados da cabeça (ou nos dois), e que pode se desdobrar em outros sintomas. Trata-se de uma das doenças que mais afetam a população e o mercado de trabalho. Segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 34 milhões de pessoas convivem com a enxaqueca no Brasil, o que equivale a 15,8% da população, sendo em sua maioria mulheres com idade entre 30 e 50 anos.
A ciência ainda não definiu uma causa exata para a incidência das enxaquecas, mas uma grande possibilidade é apontada pela própria OMS: a “liberação de substâncias inflamatórias que produzem dor ao redor dos nervos e vasos sanguíneos da cabeça”, que pode ser desencadeada por distúrbios do sono, alterações hormonais e o consumo de álcool e de certos alimentos. mas uma coisa é certa: a enxaqueca é muito mais do que ‘uma dor de cabeça forte’.
“Ela envolve uma disfunção complexa no sistema nervoso central, uma hipersensibilidade do cérebro que faz com que ele reaja a estímulos que normalmente seriam neutros, como luz, som, cheiros, até variações hormonais. E o problema é que essa reatividade impacta diretamente a qualidade de vida: produtividade cai, humor oscila, sono se desregula, e a pessoa passa a viver com medo da próxima crise. Isso, por si só, já é um gatilho psicológico fortíssimo”, descreve o professor José Marcos Melo dos Santos, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), referindo-se aos fatores e desdobramentos de ordem emocional ou mental, para além dos fatores biológicos.
De acordo com Marcos, a enxaqueca é um exemplo clássico de interação entre corpo e mente. “O estresse crônico, a ansiedade e a dificuldade de regulação emocional podem atuar como gatilhos ou amplificadores das crises. Não é que “a dor é psicológica”, mas o modo como a pessoa percebe, interpreta e reage à dor influencia o ciclo todo. Por exemplo, a catastrofização, que é aquele pensamento do tipo ‘Essa dor vai me destruir!’, aumenta a ativação fisiológica e, por tabela, a dor. Então, quando a gente trabalha as emoções e pensamentos, a gente não está “tirando a dor da cabeça”, mas modulando o funcionamento do corpo”, explica ele.
Técnicas de alívio
Neste sentido, um caminho que pode ajudar a diminuir o sofrimento das pessoas que convivem com a enxaqueca (e outros tipos de dor de cabeça) pode estar nas intervenções comportamentais, como a Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), as técnicas de relaxamento, a atenção plena (mindfulness) e o biofeedback, entre outras. Segundo o professor, tratam-se de estratégias terapêuticas que ajudam a pessoa a manejar o estresse, reorganizar hábitos e modificar padrões mentais e emocionais que mantêm o ciclo da dor.
“A ideia é ensinar o corpo e a mente a saírem do modo ‘alerta constante’, que é justamente o que alimenta a enxaqueca”, afirma José Marcos, frisando que, na prática, estas técnicas mudam a relação de cada pessoa com a dor. “Ao invés de lutar contra a dor, o que paradoxalmente intensifica a percepção dela, o paciente aprende a responder de forma mais funcional. Na prática, isso significa menos tensão muscular, menos ansiedade, menos ativação fisiológica e, consequentemente, menos crises. A pessoa deixa de viver “refém” do medo da dor e volta a se perceber no controle da própria vida, mesmo quando a dor aparece”, completa.
Cada uma destas técnicas age de maneira diferente no funcionamento do corpo e da mente, fazendo variados efeitos no combate à enxaqueca. A TCC ajuda a identificar e mudar pensamentos disfuncionais que aumentam o sofrimento, induzindo o paciente a lidar com a dor sem entrar em pânico e fazendo o cérebro responder de outra forma. O relaxamento reduz a ativação do sistema nervoso simpático (do “lutar ou fugir”), o que desacelera o organismo e diminui a frequência das crises. O mindfulness treina a atenção para o presente e melhora a regulação emocional, reduzindo a reatividade à dor. E o biofeedback ensina o paciente a autorregular os parâmetros de funcionamento corporal, como respiração, frequência cardíaca, tensão muscular e outros.
Estas intervenções são conduzidas principalmente por psicólogos, especialmente os que trabalham com TCC ou ACT (Terapia de Aceitação e Compromisso). O professor da Unit, no entanto, defende que elas sejam indicadas pelos médicos e tenham uma abordagem multidisciplinar. “O médico pode e deve indicar, porque o manejo comportamental complementa o tratamento farmacológico. Aliás, quando o paciente só depende da medicação, corre o risco de entrar no chamado ‘uso excessivo de analgésicos’, que piora a enxaqueca. Então, o caminho é justamente unir as duas frentes: médica e psicológica”, argumenta Marcos.
Comprovação científica
As consequências positivas destas técnicas no combate à enxaqueca estão a poucos passos de serem comprovadas pela ciência, uma pesquisa publicada em fevereiro do ano passado pela revista científica Headache, com base na revisão de 63 estudos clínicos realizados entre 1975 e 2023, apontou que as intervenções comportamentais, combinadas entre si, podem ajudar a diminuir a frequência das crises de enxaqueca e a intensidade das dores, melhorando a qualidade de vida dos pacientes. Os resultados mostraram uma redução média de cerca de um dia de enxaqueca por mês.
O professor acredita que a conclusão do estudo é uma evidência promissora e esperada, mesmo mantendo o olhar crítico. “A evidência ainda é considerada de baixa certeza e os estudos são heterogêneos, mas a direção é clara: trabalhar o comportamento e o emocional faz diferença. O ponto é que a ciência está apenas quantificando algo que, clinicamente, nós já vínhamos observando há anos: o corpo e a mente não se separam na dor”, avalia Marcos, destacando que o estudo aponta caminhos e possibilidades que devem ser seguidas no enfrentamento contra a enxaqueca.
O principal deles, em sua visão, é o tratamento integrado e interdisciplinar entre os profissionais de saúde. “O caminho é interdisciplinar: neurologista, psicólogo, fisioterapeuta, nutricionista… Todo mundo falando a mesma língua. E, do ponto de vista psicológico, investir em programas de manejo do estresse, grupos de TCC, práticas de mindfulness, psicoeducação sobre sono e regulação emocional. A enxaqueca não é só um problema de dor, é um problema de vida. E tratar a vida, isto é, os hábitos, as emoções e a forma como se lida com o próprio corpo, é o que realmente muda o jogo”, completa Marcos.
com informações da CNN Brasil
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