No Nordeste, muitas plantas endêmicas produzem óleos com propriedades únicas, ainda pouco exploradas pela indústria. Entre esses recursos naturais, alguns frutos contêm compostos capazes de se transformar em bioemulsificantes, produtos com aplicações em alimentos, cosméticos e materiais tecnológicos, se forem processados de maneira adequada. Desenvolver métodos para converter esses óleos em produtos industriais combina conhecimentos de química, biotecnologia e engenharia, ao mesmo tempo em que agrega valor econômico e promove a sustentabilidade regional.
É nesse cenário que se insere a trajetória de Yan Aragão, aluno de Engenharia Mecatrônica da Universidade Tiradentes (Unit). Bolsista de Iniciação Científica por três anos, com apoio do CNPq, o estudante desenvolveu pesquisas voltadas à biocatálise e à automação de bioprocessos, aplicando conceitos da mecatrônica para tornar mais eficientes sistemas de produção biotecnológica. A combinação entre pesquisa aplicada, inovação tecnológica e atuação em projetos de extensão culminou na aprovação no Programa de Especialização em Engenharia (PEE) da Embraer, realizado em parceria com o Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA).
Pesquisa aplicada
O primeiro contato de Yan com a pesquisa ocorreu ainda na graduação, quando passou a integrar projetos na área de Engenharia de Bioprocessos, com ênfase em biocatálise. Segundo ele, a escolha do tema esteve diretamente ligada à possibilidade de aprender fazendo, aproveitando a estrutura de laboratórios da universidade para aplicar conceitos técnicos desde o início da formação. “Escolhi essa área pela vontade de ter uma primeira oportunidade profissional no mesmo ambiente em que eu teria aula no turno seguinte, utilizando os laboratórios para aplicar conceitos técnicos desde cedo”, explicou.
A pesquisa desenvolvida tinha como objetivo criar novos bioprodutos a partir de uma planta endêmica do Nordeste, utilizando processos de biotransformação do óleo do fruto em compostos de alto valor agregado e interesse industrial. De acordo com o estudante, a proposta buscava oferecer uma alternativa regional e sustentável aos métodos tradicionais baseados em insumos sintéticos. “O trabalho foi fundamentado na Economia Circular, garantindo o aproveitamento máximo da biodiversidade local e promovendo o fortalecimento da economia regional aliado à preservação ambiental”, destacou.
Com o avanço dos projetos, Yan passou a identificar gargalos nos processos laboratoriais, especialmente pela realização manual de etapas que poderiam ser automatizadas. A partir dessa percepção, ele propôs o desenvolvimento de sistemas automatizados para a produção dos bioprodutos, integrando conhecimentos da Engenharia Mecatrônica a processos tradicionalmente ligados à Engenharia Química. Essa mudança marcou uma inflexão importante na sua trajetória científica, ampliando o escopo da pesquisa e o nível de complexidade dos projetos.
Automação e IA
Nos projetos seguintes, o estudante passou a atuar diretamente no desenvolvimento de um reator automatizado, capaz de monitorar variáveis que antes não eram acompanhadas no laboratório. A iniciativa envolveu a programação de microcontroladores, aquisição e tratamento de dados e integração de sistemas, permitindo maior controle e eficiência dos processos biotecnológicos. “Comecei a perceber que muitos dos processos poderiam ser automatizados, e isso abriu espaço para aplicar diretamente a Engenharia Mecatrônica como suporte à Química”, relatou.
A partir dessa base, surgiu uma nova linha de investigação: o uso de inteligência artificial para otimizar os processos. Yan passou a desenvolver, em parceria com pesquisadores da pós-graduação, modelos capazes de predizer a melhor combinação de variáveis de processo para maximizar a eficiência dos bioprodutos. “A proposta representou um avanço significativo na pesquisa, ao unir automação, análise de dados e aprendizado de máquina em um contexto industrial real”, conta.
Ao longo desse período, o estudante também participou de congressos e simpósios regionais e nacionais, apresentando os resultados dos trabalhos desenvolvidos. Para ele, essas experiências foram fundamentais para o amadurecimento acadêmico. “A iniciação científica me ensinou a ser autodidata, a buscar informação de forma crítica e a entender se aquele conhecimento realmente dialoga com o problema que estou tentando resolver”, afirmou.
Orientação e apoio
A professora Cleide Mara Faria Soares, pesquisadora da Unit e orientadora de Yan, acompanhou de perto esse processo de formação. Segundo ela, o potencial do estudante foi se consolidando ao longo do tempo, especialmente pela inserção em um ambiente multidisciplinar que envolvia alunos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos. “O amadurecimento do Yan foi observado tanto nas práticas experimentais quanto na organização, análise e interpretação de dados, além da evolução na elaboração de relatórios técnicos e na comunicação científica”, explicou.
De acordo com a docente, o desempenho do aluno se destacou pela continuidade e pela capacidade de integrar conhecimentos de diferentes áreas, como automação, instrumentação e inteligência artificial, sempre alinhados às demandas dos projetos. “Ele demonstrou maturidade científica, responsabilidade com cronogramas e habilidade em transformar resultados experimentais em dados estruturados para análise e otimização de processos”, avaliou.
Esse percurso resultou em reconhecimentos importantes, como a premiação em primeiro lugar na área de Engenharia durante a Semana de Pesquisa da Universidade Tiradentes (Sempesq 2025). Para a professora, a experiência na iniciação científica também foi decisiva na preparação de Yan para processos seletivos altamente competitivos, como o do mestrado profissional da Embraer, ao proporcionar vivência em pesquisa aplicada, organização de portfólio e alinhamento às demandas da engenharia industrial.
Engenharia aeronáutica
Paralelamente à pesquisa, Yan também construiu uma trajetória notória em projetos de extensão, com destaque para a equipe Corvos Aerodesign. O interesse pela aeronáutica surgiu ainda antes do ingresso na universidade, quando teve contato com projetos estudantis de aeronaves. Já na graduação, passou a integrar a equipe, inicialmente no setor de aerodinâmica, atuando no projeto de asas e empenagens.
Com o tempo, assumiu funções de liderança, tornando-se capitão da equipe e diretor dos setores de Projeto e Desenvolvimento e de Controle e Estabilidade. Nessas funções, foi responsável por traduzir cálculos técnicos em projetos tridimensionais para manufatura, além de garantir a estabilidade e manobrabilidade das aeronaves desenvolvidas. “A Corvos foi onde eu realmente me encontrei na engenharia. Foi um ano de reestruturação, mas essencial para preparar as próximas gerações da equipe”, afirmou.
Segundo o estudante, a experiência no projeto foi determinante para o desenvolvimento de competências como liderança, escuta ativa e capacidade de traduzir demandas abstratas em soluções de engenharia. “No mercado, o cliente nem sempre é da sua área. A Corvos me ensinou a transformar o que o cliente quer em um projeto viável, respeitando regulamentos e usando criatividade e técnica”, explicou.
Formação integrada
Na avaliação de Yan, a aprovação no Programa de Especialização em Engenharia da Embraer é resultado direto da combinação entre pesquisa, projetos de extensão e vivências práticas ao longo da graduação. O programa, realizado em parceria com o ITA, permite que engenheiros de diferentes áreas realizem um mestrado profissional enquanto atuam na empresa, em um processo seletivo altamente concorrido. “A junção da pesquisa, da empresa júnior e da Corvos Aerodesign foi o que me moldou como profissional, com perfil autodidata e capacidade de traduzir necessidades em projetos”, destacou.
Para a professora Cleide Mara, o caso de Yan evidencia a qualidade da formação oferecida pela Engenharia da Unit e o impacto dos programas institucionais de pesquisa. “A aprovação dele representa um resultado significativo, pois mostra que a iniciação científica, quando bem orientada e aliada à infraestrutura institucional, pode gerar trajetórias acadêmicas e profissionais de alto nível”, afirmou.
Ao refletir sobre o futuro, Yan afirma que pretende atuar prioritariamente na indústria, enxergando a academia como uma etapa essencial de aprendizado. Para outros estudantes, deixa um conselho direto: aproveitar a graduação como espaço de experimentação. “A universidade é o lugar de errar rápido, testar caminhos e descobrir onde você realmente se encaixa. A pesquisa abre portas para áreas que a graduação, sozinha, não oferece, e prepara o estudante para inovar no mercado”, concluiu.
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