Quando se pensa em caruru, muitos sentem logo a vontade de apreciar uma deliciosa porção do prato típico da culinária baiana, à base de quiabo picado e cozido com leite de coco, azeite de dendê, castanha, amendoim e camarão. E se imaginarmos que o quiabo, além de ingrediente da culinária, pode também servir de base para o tratamento de água? É uma possibilidade que vem sendo estudada no “Caruru Tecnológico”, um projeto de pesquisa realizado há mais de dois anos por professores e mestrandos do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP), da Universidade Tiradentes (Unit).
A pesquisa consiste na extração e desenvolvimento de uma biomolécula a partir da mucilagem, conhecida como “baba”, que sai do quiabo durante o processo de cozimento. Esta biomolécula, processada em laboratório, transforma-se em um polímero capaz de reduzir a turbidez da água, tornando-a potável e apta para o consumo humano.
O estudo vem sendo desenvolvido no PEP há cerca de dois anos pelos professores Denisson Salustiano dos Santos e Sílvia Maria Egues Dariva, com a participação do mestrando João Pedro Moreira Prado e de outros estudantes de graduação e pós-graduação. As etapas da pesquisa vêm acontecendo no Laboratório de Prevenção e Controle de Incrustação (LPCI), ligado ao Núcleo de Estudos em Sistemas Coloidais (Nuesc), do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP).
Denisson conta que o ponto de partida foi um trabalho de iniciação científica realizado entre 2022 e 2023 por estudantes de Ensino Médio, no Centro de Excelência Dom Juvêncio de Brito, em Canindé do São Francisco. De acordo com Denisson, os alunos da escola pública estadual desenvolveram uma cápsula a partir da fibra do quiabo para reduzir a sujeira de águas barrentas, ao descobrirem essa potencialidade a partir da literatura científica.
“Só que a maneira como eles utilizavam ainda não tinha um aprimoramento para potencializar ainda mais o resultado. E eles identificaram dois fatores limitantes para que essa tecnologia evoluísse: o fornecimento contínuo de quiabo, que não é produzido em todo o país; e a garantia de eficiência, pois o processo anterior tinha resultado, mas poderia sofrer algumas oscilações. A gente pegou essa inspiração deles e aprimorou aqui no laboratório, purificando a molécula. Essa modificação garantiu aumento de eficiência, uma estabilidade maior e uma capacidade de aplicação mais diversa”, explica o professor.
No LPCI, os pesquisadores extraem a “baba do quiabo”, a partir da casca do produto, e fazem a purificação com água deionizada e outros solventes naturais. Desse processo, é extraído um polímero, com propriedades semelhantes à do amido de milho. Ao ser colocado na água, ele começa a atrair para si as substâncias inorgânicas presentes nela, como barro, areia e poluentes. “Quando a gente adiciona essa substância na água, ela se liga ao barro, a terra ou areia que está suspensa. Essa ligação química faz com que esse barro esteja mais fortemente ligado à molécula do que disperso na água. E aí, isso aumenta os flocos, que precipitam e saem da água”, detalha Denisson.
Vantagens comprovadas
O polímero do quiabo já entrou na fase de testes práticos que analisam a sua eficácia. O primeiro deles, realizado numa estação de tratamento de água em Maceió (AL), analisou a aplicação do produto em escala industrial, substituindo o sulfato de alumínio. Os resultados validaram o sucesso da aplicação, confirmando que ela conseguiu retirar a turbidez da água destinada ao consumo humano. Segundo o professor, a substância já demonstrou boas vantagens em relação aos métodos e insumos convencionais de tratamento de água, que são geralmente baseados em produtos químicos.
“O sulfato de alumínio é largamente utilizado hoje, porque é barato, mas tem alguns malefícios. Se aumentar sua concentração na água, ele pode trazer alguns problemas de saúde, principalmente porque ele é consumido ao longo prazo e vai se acumulando no organismo, podendo gerar inclusive malefícios neurológicos. Além disso, o sulfato é oriundo da mineração, que tem uma carga de carbono associada à atividade em si. Com esse polímero do quiabo, estamos usando uma molécula barata, renovável e que envolve uma cadeia de valor que é biodegradável e biocompatível”, argumenta ele.
Agora, a substância passa pelas análises de qualidade, que englobam o Laudo de Atendimento aos Requisitos de Saúde e outros testes de laboratório exigidos pelos órgãos reguladores. A partir dos resultados, o produto entra na fase de registro de patentes e de certificações, podendo ser inserido no mercado após as devidas validações.
No mercado e na sociedade
O processo de certificação e de inserção no mercado conta ainda com a participação da Aqualuffa, uma startup que surgiu em 2019 e está em processo de implantação no futuro Tiradentes TechPark (TTP). Ela oferece soluções sustentáveis para tratamento de água, a partir de um produto que faz a descontaminação de águas oleosas utilizando materiais sustentáveis, além da degradação dos contaminantes e da preparação de microalgas para a produção de energia e de bioativos.
O produto, desenvolvido a partir de uma pesquisa feita no PEP/Unit pela professora Sílvia Egues com os então doutorandos Denisson Salustiano e Mychelli Andrade Santos, teve a sua patente concedida há dois anos pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). De acordo com ela, a Aqualuffa atuará como uma “ponte” de aproximação e ligação entre a pesquisa acadêmica e as empresas e entidades interessadas, através da transferência de tecnologias, do desenvolvimento de novos produtos e de seus aperfeiçoamentos.
Para além do barateamento dos cursos do tratamento de água e esgoto, o novo método tem potencial para ampliar o acesso à água potável em povoações ou comunidades que ainda não tenham acesso a uma rede de saneamento básico. Sílvia Egues acredita que o biopolímero desenvolvido no “Caruru Tecnológico” tem “uma gama de aplicações bastante interessante”, que vai desde o uso doméstico até a aplicação em escala industrial, nas empresas e companhias de saneamento.
“Estamos desenvolvendo uma tecnologia que possa ser utilizada num processo relativamente simples, como uma filtração. Esse processo pode ser usado como alternativa para locais de difícil acesso, comunidades que não são atendidas por água encanada ou até mesmo comunidades que têm aquelas cisternas para guardar água de chuva. Outra ideia é ter módulos desse material incorporados a reatores que possam ser usados em situações de emergência climática, como uma seca muito grave, uma tempestade ou uma inundação que deixe as pessoas com dificuldade de acesso à água limpa”, sugere ela
O biopolímero do “Caruru Tecnológico”pode ainda abrir mais uma possibilidade de uso para o quiabo, produto do qual Sergipe figura hoje como o maior produtor do Nordeste, e cuja atividade se concentra principalmente em perímetros irrigados de cidades como Canindé do São Francisco, Poço Redondo, Itabaiana, Lagarto e Ribeirópolis, entre outras.
Formando profissionais
A pesquisa desenvolvida no PEP e no LPCI contribui ainda com a formação de profissionais qualificados para atuação na pesquisa científica e em empresas de setores como saneamento e biotecnologia. Alguns alunos de mestrado e doutorado e outros de graduação que fizeram iniciação científica atuaram no “Caruru Tecnológico” durante um período e acabam levando a experiência da universidade para o mercado, ao serem requisitados por empresas e órgãos públicos.
Esse é o caminho que já está traçado pelo mestrando João Pedro Moreira, que é formado em Engenharia Civil pela Unit e, ao entrar para equipe do projeto, se envolveu completamente com a área de saneamento básico, onde pretende atuar no futuro. A adaptação em uma área de atuação completamente diferente exigiu muito aprendizado e superação de desafios, mas conquistou o pesquisador.
“O interesse veio a partir da necessidade de achar um meio de tratamento da água que não fosse tóxico para o meio ambiente, nem para as pessoas. Trabalhar com isso é um desafio, mas tem conexão, porque o saneamento também é uma vertente da engenharia civil, que sai um pouco dessa ideia de estrutura, concreto, construção. Na perspectiva profissional, eu acredito que a minha participação nesse projeto vai agregar para que eu siga na área de saneamento, se eu for para a indústria ou para pesquisa. Tanto um quanto o outro podem andar de mãos dadas”, garante João Pedro.
“Como pesquisadores, é sempre prazeroso quando estamos trabalhando em algo que se vê uma aplicação real, em uma pesquisa que pode gerar outro valor que não seja só o acadêmico. Estamos formando alunos para atuarem no mercado de trabalho e ao mesmo tempo dando suporte às empresas, apresentando opções para a indústria, além da possibilidade atender às demandas da comunidade como um todo”, destacou Sílvia Egues.
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