O trauma mundial deixado pela pandemia da Covid-19, com seus mais de 7,1 milhões de mortes provocadas em todo mundo (716 mil apenas no Brasil) entre 2020 e 2025, deixou um novo e permanente alerta na comunidade científica mundial: a possibilidade de que novos vírus e doenças se alastrem pelo mundo. Este tema foi levantado em um artigo recente publicado no portal The Conversation pelo professor e pesquisador Patrick Jackson, da University of Virginia (EUA), que apontou três vírus com potencial de desencadear novas crises e epidemias globais neste ano de 2026: o mpox, o Oropouche e o subtipo H5N1 do Influenza A.
“Vírus antigos estão em constante evolução. Um planeta em aquecimento e cada vez mais populoso coloca os seres humanos em contato com mais e diferentes vírus. E o aumento da mobilidade significa que os vírus podem viajar rapidamente pelo mundo junto com seus hospedeiros humanos”, cita o texto do norte-americano, antes de citar esses três vírus como os que mais tem infectado viajantes no trânsito entre países e regiões nos quais eles registram maior circulação, como África Central, Estados Unidos e América do Sul, respectivamente.
No Brasil, alguns balanços de casos registrados pelo Ministério da Saúde parecem indicar vagamente esta tendência. A febre do vírus Oropouche, transmitida através do mosquito conhecido como “maruim”, já teve mais de 11 mil casos no Brasil em 2025, inclusive em estados fora da Região Amazônica. Quanto ao mpox, foram 88 casos confirmados, dois em análise e outros 171 suspeitos apenas nos dois primeiros meses deste ano.
Quanto ao Influenza, não há maiores preocupações quanto ao H5N1, causador de uma gripe aviária que pode ser transmitida para humanos, que só teve até o momento um surto registrado apenas em aves comerciais na região de Montenegro (RS), sem confirmação ou suspeita de que pessoas tenham sido contaminadas. No entanto, um segundo subtipo do vírus, o Influenza A H3N2 Subclado K chegou ao Brasil no ano passado e já fez pelo menos quatro casos, sendo um no estado do Pará e três no Mato Grosso do Sul. Todos eles ainda estão em investigação quanto à origem das infecções.
“O vírus Influenza, causador da gripe, tem uma grande capacidade de mutação. Atualmente, foi detectada essa nova mutação de uma variante já conhecida, o Influenza A H3N2. Essa nova subvariante, apelidada de “gripe K”, foi detectada no final do ano passado e já foram registrados surtos atribuídos a ela pelo mundo. Como trata-se de vírus de fácil transmissão e que a população ainda não tem proteção, espera-se que se espalhe ao longo deste ano”, explica o médico infectologista Matheus Todt, professor do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit).
Ele afirma que o mpox, o Oropouche e a gripe H5N1 têm se sobressaído como as maiores preocupações pelo fato de já circularem entre os humanos há algum tempo. “Era uma questão de tempo para que eles gerassem epidemias ou mesmo se tornassem endêmicos em algumas regiões”, diz Todt, que no entanto, não acredita na possibilidade de que algum deles venha a ser protagonista de alguma nova pandemia, em nível semelhante ao coronavírus. “Isso é pouco provável. Um microrganismo, para gerar uma pandemia da amplitude da Covid-19 precisa ter uma série de características simultâneas. Felizmente esses vírus não preenchem esses requisitos”, tranquiliza ele.
Formas de transmissão
Ainda de acordo com o professor, os vírus Influenza estão relacionados com quadros respiratórios e são transmitidos pelas vias aéreas. O Oropouche é uma Arbovirose (assim como a Dengue e a Zika), transmitida pela picada de mosquitos infectados, ocasionando sintomas semelhantes à Chikungunya. E o mpox é uma variante menos grave da varíola, ocasionando vesículas dolorosas e sendo transmitida pelo contato interpessoal (sobretudo o contato íntimo).
“A população deve estar informada sobre a forma de transmissão e os principais sintomas dessas doenças. De forma geral, podemos orientar que as pessoas evitem o contato com pessoas sabidamente doentes e, ao apresentar sintomas suspeitos, procurem atendimento médico”, falou Matheus, a respeito do tipo de prevenção que deve ser adotada deve ser adotada para impedir ou mitigar a circulação destes vírus.
A preocupação se estende em relação a outras doenças, como o sarampo, em razão da queda na cobertura vacinal; e até mesmo o HIV (causador da Aids), cuja ameaça de “ressurgir” é atribuída no artigo de Patrick Jackson “a interrupções na ajuda internacional”, isto é, a ordem do presidente Donald Trump para cortar as contribuições dos EUA a programas de enfrentamento contra o vírus em países pobres, principalmente na África.
A dengue e a chikungunya, transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti, também aparecem como as doenças mais proeminentes no mundo e no Brasil. “Essas doenças são endêmicas, portanto sempre haverá casos (sobretudo nos períodos chuvosos, quando os mosquitos transmissores se multiplicam). A vigilância deve ser constante”, conclui Todt.
com informações da Rádio Itatiaia
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