A dificuldade de transformar conhecimento científico em soluções aplicáveis ao mercado não está apenas na ausência de boas ideias, mas na falta de ambientes capazes de sustentar esse processo ao longo do tempo. No Brasil, muitas iniciativas de inovação ainda se concentram em acelerar produtos já próximos da comercialização, deixando em segundo plano a pesquisa científica, a formação acadêmica e o desenvolvimento tecnológico de longo prazo. É justamente diante dessa lacuna que os hubs de inovação universitários ganham relevância.
Para Domingos Machado, presidente do Tiradentes Innovation Center (TIC), localizado na Universidade Tiradentes (Unit), o diferencial desse modelo está na capacidade de integrar áreas e conhecimentos de alto nível. “Ao reunir estudantes, professores titulados e pesquisadores de diferentes cursos, o hub amplia as possibilidades de inovação para além da lógica do retorno imediato. Enquanto outras aceleradoras focam quase exclusivamente em product-market fit e ROI rápido, o hub universitário pode investir em mestrados e doutorados, utilizando laboratórios de ponta para o desenvolvimento de deep techs”, afirma.
Esse modelo também se reflete no perfil das startups desenvolvidas. Domingos explica que o TIC atua prioritariamente nas áreas de Educação, Saúde, Energia e Tecnologia da Informação, consideradas estratégicas tanto do ponto de vista social quanto econômico. Na prática, o suporte oferecido às startups é estruturado por quatro fases: pré-incubação, incubação, aceleração e residência. “Cada startup recebe um plano individual, desenhado para elevar o grau de maturidade da solução e do modelo de negócio, com apoio especializado em diferentes frentes do desenvolvimento empresarial”, explica.
A conexão com a pesquisa científica, na avaliação do presidente do TIC, é um fator determinante para aumentar a competitividade das startups. Ele explica que empresas ancoradas em pesquisa tendem a desenvolver uma propriedade intelectual mais robusta, passível de proteção por patentes. “Isso impacta diretamente a maturidade e a taxa de sucesso, porque o produto não nasce de suposições de marketing, mas de evidências testadas”, afirma, destacando que esse diferencial torna as startups mais atrativas para investidores, parcerias estratégicas e processos de aquisição.
Papel regional
No Nordeste, a atuação dos centros de inovação assume um papel adicional ao enfrentar a distância histórica entre universidade e setor produtivo. Domingos resume essa tensão ao afirmar que “a universidade fala ciência e a indústria fala lucro e eficiência”. Segundo ele, o hub atua como mediador ao transformar pesquisa em inovação, promover editais de inovação aberta com desafios reais apresentados por empresas locais, simplificar o entendimento sobre leis de inovação e transferência de tecnologia e contribuir para políticas públicas por meio da participação em conselhos e comitês estaduais e municipais.
Domingos considera que o Brasil ainda forma mais startups do que empresas efetivamente escaláveis. Para ele, muitas iniciativas ficam pelo caminho no chamado “vale da morte” por falta de preparo em gestão e estratégia. “É preciso investir mais em educação empreendedora voltada à gestão, e menos apenas em programação ou produto”, defende, destacando a importância de inserir as startups em centros de inovação, incubadoras e aceleradoras que aumentem sua maturidade tecnológica e empresarial.
Automatizar o que sempre foi manual
Incubada no TIC, hub de inovação da Universidade Tiradentes, a Dokbot é um exemplo de startup que nasce a partir de um problema concreto do mercado e se desenvolve em um ambiente voltado à pesquisa aplicada, ao empreendedorismo tecnológico e à aproximação entre universidade e setor produtivo. A empresa atua no desenvolvimento de soluções baseadas em inteligência artificial voltadas à documentação de software, uma etapa considerada crítica, e frequentemente negligenciada, no ciclo de desenvolvimento de sistemas.
A startup foi fundada por Daniel Santos e Fabrício Santana, profissionais com mais de duas décadas de atuação na área de tecnologia da informação, com passagem por empresas dos setores financeiro, de meios de pagamento, governo e consultoria. A experiência acumulada ao longo dos anos foi determinante para a identificação da dor que deu origem ao negócio.
Segundo Daniel Santos, a ideia da Dokbot surgiu a partir de uma dificuldade recorrente enfrentada por desenvolvedores em diferentes contextos: a ausência ou desatualização da documentação de software. “Assim como a planta de um edifício, todo software precisa de uma documentação clara e confiável, que explique regras de negócio, arquitetura e fluxos do sistema. O problema é que documentar software exige muito esforço manual, envolve várias pessoas, reuniões, diferentes fontes de informação e um custo elevado”, explica. De acordo com ele, o custo médio de uma única página de documentação pode chegar a R$ 600, e esse processo pode representar até 30% do esforço total de um projeto de desenvolvimento.
A percepção de que o problema não era pontual, mas estrutural, veio com o tempo. Além das experiências individuais dos fundadores, a demanda também se manifestava de forma consistente na Getinfo Soluções Corporativas, empresa de desenvolvimento de software liderada por Fabrício Santana, que atua há mais de 15 anos no mercado e conta com cerca de 400 colaboradores. “Sempre que conversávamos com outros profissionais da área, as dificuldades eram as mesmas”, relata. A partir disso, os fundadores realizaram pesquisas e entrevistas com empresas de diferentes portes e segmentos, confirmando que se tratava de uma dor real e relevante. O volume de investimentos projetados para o mercado global de documentação de software reforçou o potencial de escalabilidade da solução.
Escala global
A tecnologia desenvolvida pela Dokbot funciona como um agente de inteligência artificial capaz de gerar documentação automaticamente a partir de diferentes fontes de informação, como sistemas existentes, textos, áudios ou vídeos de reuniões. Em poucos segundos, a plataforma organiza e produz os documentos no formato desejado, além de integrar-se a ferramentas amplamente utilizadas no mercado, como Jira e Azure DevOps. O sistema também monitora alterações em tempo real e sugere atualizações na documentação, que podem ser aplicadas de forma automática ou supervisionada. De acordo com os fundadores, esse caráter proativo diferencia a Dokbot de outras soluções disponíveis, que ainda dependem fortemente de processos manuais.
Atualmente, a startup concluiu o desenvolvimento do seu Produto Mínimo Viável (MVP) e iniciou a fase de validação com startups incubadas no próprio TIC, além de negociações para provas de conceito em diferentes estados do Brasil e em Portugal. Para os fundadores, a inserção no hub de inovação teve papel estratégico nas decisões iniciais da empresa. “O TIC nos colocou em contato com outros empreendedores, programas de incubação, editais de fomento e iniciativas que antes não faziam parte do nosso radar”, afirmam Daniel e Fábricio. A startup já participou de programas como Catalisa ICT, InovAtiva Brasil e Capital Empreendedor, além de eventos nacionais voltados à inovação e tecnologia.
Desde a concepção, a Dokbot foi pensada para atuar em escala global. A padronização dos processos de desenvolvimento de software e a natureza digital da solução reduziram as barreiras para a internacionalização. Como parte dessa estratégia, Daniel Santos passou a residir em Portugal em 2025, onde a empresa iniciou a expansão para o mercado europeu e foi aprovada em um programa de incubação na Unicorn Factory Lisboa, um dos principais hubs de inovação do país.
Infraestrutura financeira invisível
Também incubada no TIC, hub de inovação da Universidade Tiradentes, a Baasic atua em um dos segmentos mais sensíveis e regulados da economia: o financeiro. Fundada por Helom Silva, a startup desenvolve infraestrutura tecnológica para que empresas possam oferecer serviços financeiros de forma segura, regulada e integrada aos seus próprios produtos, sem a necessidade de se tornarem bancos.
A Baasic nasceu da constatação de que, no Brasil, a entrada no mercado financeiro exige um alto grau de especialização técnica, jurídica e regulatória. “Empresas de software, varejistas, ERPs e marketplaces querem oferecer contas e pagamentos aos seus clientes, mas não têm condições de construir um banco do zero, lidar com o Banco Central ou garantir segurança cibernética de nível bancário”, explica Helom. A proposta da startup é atuar como a infraestrutura invisível por trás dessas operações, garantindo conformidade regulatória, segurança da informação e estabilidade tecnológica.
O insight que deu origem ao negócio está diretamente ligado ao avanço do Embedded Finance, modelo no qual serviços financeiros passam a ser incorporados a plataformas já utilizadas no dia a dia das empresas. Para o fundador, o movimento abriu oportunidades, mas também evidenciou uma lacuna no mercado. “Com o aumento das exigências do Banco Central, especialmente após as novas regras para Banking as a Service, ficou claro que não bastava oferecer APIs. Era preciso entregar blindagem técnica, jurídica e operacional”, afirma.
A solução desenvolvida pela Baasic consiste em uma plataforma de banco digital customizável, conectada a instituições financeiras e seguradoras. A partir das necessidades de cada parceiro, a startup adapta produtos, jornadas e identidade visual, permitindo que empresas ofereçam contas digitais, pagamentos via Pix, emissão de boletos e até crédito com a própria marca. Tudo isso operando sobre a infraestrutura da Baasic, voltada ao modelo B2B e direcionada a ecossistemas de negócios, empresas de tecnologia, educação, ERPs e marketplaces.
Confiança e impacto
Desde o início, a confiança e a segurança foram tratadas como pilares estratégicos. Antes mesmo de escalar comercialmente, a empresa investiu em governança, criptografia de dados, autenticação multifator e políticas rigorosas de backup. A plataforma também obteve a certificação PCI-DSS, norma internacional de segurança da informação exigida pelas principais bandeiras de cartões. “No setor financeiro, não existe margem para erro. Um equívoco não é apenas técnico, ele afeta diretamente a vida financeira das pessoas”, ressalta Helom.
A inserção da Baasic no ecossistema do TIC teve impacto direto na consolidação dessas decisões. O contato com mentores, especialistas e parceiros tecnológicos, como Amazon AWS, Google, Microsoft e Teltec, contribuiu para o desenho da arquitetura de segurança e da escalabilidade da solução. Além disso, a startup teve acesso a incentivos que somam mais de US$ 100 mil em créditos de tecnologia, fundamentais para o desenvolvimento e a fase de testes da plataforma.
Para Helom, um dos principais desafios para escalar startups no Brasil, especialmente no setor financeiro, é acompanhar a velocidade das mudanças regulatórias. Normas recentes, como a Resolução Conjunta nº 16, que redefiniu o mercado de BaaS em 2025, exigem estruturas ágeis de compliance, tecnologia e governança. “Crescer, nesse contexto, significa manter a conformidade em dia e garantir que nossos parceiros também cumpram regras de prevenção à lavagem de dinheiro, privacidade de dados e atendimento ao cliente final”, explica.
Embora o foco atual da Baasic esteja na consolidação do mercado nacional, a startup já começa a mapear oportunidades internacionais. Demandas vindas de países como Cabo Verde e Angola levaram a empresa a participar da Missão da Apex Brasil no Web Summit Lisboa 2025, onde teve contato com ecossistemas de inovação europeus e iniciativas voltadas à internacionalização de startups.
Impactos reais
Para Domingos Machado, o impacto de um hub universitário não se mede apenas pelo número de startups incubadas, mas pela capacidade de gerar continuidade e densidade no ecossistema. “O desafio agora é fazer com que essas empresas não apenas nasçam, mas permaneçam no território, gerando empregos qualificados, atraindo investimento e retroalimentando a universidade com novos problemas e demandas reais”, afirma.
Segundo ele, quando startups como a Dokbot e a Baasic conseguem validar soluções, acessar mercados e avançar em processos de escala, o efeito extrapola o ambiente do hub. “Esses negócios passam a influenciar cadeias produtivas, políticas públicas e a própria formação dos estudantes, que deixam de enxergar a inovação como algo distante ou teórico”, destaca.
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