Desembarcar em outro país para estudar já é, por si só, uma experiência transformadora. Agora imagine, além do intercâmbio, ter acesso direto à rotina de um laboratório científico, participar de análises reais, acompanhar a construção de dados e observar de perto a defesa de uma pesquisa de pós-graduação. Foi exatamente essa vivência que marcou a trajetória do colombiano Nelson Esteban Toca Niño, estudante de Fisioterapia, que escolheu o Brasil para realizar um semestre de intercâmbio na Universidade Tiradentes (Unit).
Segundo ele, a decisão surgiu da vontade de conhecer novas metodologias de ensino e mergulhar em outra cultura acadêmica. “Fui motivado pela oportunidade de aprender sobre uma nova cultura, seus métodos de ensino e de aprender outro idioma. Ver a universidade nas redes sociais aumentou meu desejo de participar”, contou.
Durante o período, o estudante cursou disciplinas regulares e percebeu diferenças estruturais entre os sistemas de formação. Ele observou que, embora haja semelhanças pedagógicas entre as instituições, a infraestrutura disponível na universidade brasileira ampliou suas possibilidades práticas. “Ambas possuem métodos interativos, mas a Unit conta com ótimos espaços que complementam meu processo de formação, como o complexo de saúde”, explicou.
Na disciplina de Fisioterapia Neurofuncional, o contato direto com pacientes marcou a experiência. Esteban relatou que já possuía conhecimentos teóricos, mas foi a vivência clínica supervisionada que consolidou o aprendizado. “Pude colocar muitas coisas em prática com pacientes de diversos distúrbios funcionais, acompanhada por professores com muita experiência”, disse.
A aproximação com a pesquisa surgiu a partir do convite para integrar um projeto de mestrado vinculado ao Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP). O estudante afirmou que essa etapa ampliou sua visão sobre a profissão ao conectar teoria, análise científica e aplicação terapêutica. “Isso me ajudou a ver a fisioterapia sob perspectivas que eu nunca havia considerado, analisando questões do nível micro ao macro e compreendendo a fisiologia do sistema neuromuscular de forma mais profunda”, relatou.
Imersão no laboratório
No laboratório coordenado pela professora Edna Aragão Farias Cândido, Esteban permaneceu quatro meses acompanhando a rotina científica e aprendendo metodologias específicas. A docente explicou que o intercambista demonstrou interesse desde o início e se integrou rapidamente às atividades técnicas. “Ele se disponibilizou para participar da coleta de imagens e leitura de lâminas histológicas da pesquisa de mestrado, além de acompanhar a defesa da aluna para entender toda a dimensão do estudo”, afirmou.
Entre as tarefas desenvolvidas, o estudante aprendeu a realizar busca sistemática de artigos científicos e a interpretar amostras microscópicas classificadas conforme critérios experimentais. Ele descreveu o processo como uma etapa fundamental para compreender como dados são produzidos e validados. “As amostras eram analisadas para identificar tecidos com maior clareza, classificadas e depois avaliadas por software para gerar resultados quantificáveis apresentados em gráficos estatísticos”, detalhou.
A professora destacou que a dedicação do aluno foi determinante para o avanço das atividades. De acordo com ela, o treinamento em captura de imagens microscópicas e análise digital foi realizado com precisão e rapidez. “Ele executou essas tarefas com empenho, o que garantiu prontidão na entrega dos resultados e permitiu acompanhar a construção dos gráficos da pesquisa”, explicou, ressaltando a autonomia conquistada ao longo do período.
Além das atividades técnicas, a convivência diária com pesquisadores brasileiros gerou trocas acadêmicas e culturais. Edna observou que a presença de um aluno estrangeiro reforça a valorização da pesquisa entre os estudantes locais e amplia o repertório coletivo. “Ele também interagiu com outros projetos em desenvolvimento e contribuiu com buscas de artigos científicos, fortalecendo a dinâmica colaborativa do laboratório”, pontuou.
Horizontes futuros
Assistir à defesa da dissertação da mestranda Laira Maria Matias Lisboa, com quem trabalhou diretamente, foi um dos momentos mais marcantes da experiência. Esteban contou que acompanhar a apresentação final permitiu visualizar a trajetória completa de um estudo científico. “Pude observar como todo o projeto foi apresentado e como o processo de estudo culminou. Sou muito grato por ter participado e espero defender meu próprio projeto no futuro”, declarou.
Para ele, o contato com a pós-graduação revelou que a formação universitária vai além da graduação e exige continuidade investigativa. O estudante avaliou que a participação em um projeto desse nível contribuiu para sua maturidade profissional e ampliou sua compreensão sobre a carreira científica. “Abre uma janela para entender que a vida universitária é aprendizagem contínua e avanço gradual na compreensão da fisioterapia sob todas as perspectivas possíveis”, afirmou.
Na avaliação da professora Edna, iniciativas de mobilidade acadêmica como essa fortalecem a internacionalização da ciência e qualificam a formação discente. Ela ressaltou que a troca de experiências entre universidades estimula novas abordagens de pesquisa e amplia a visão crítica dos estudantes. “Essas vivências evidenciam a riqueza da troca de conhecimento e a valorização das atividades científicas”, disse.
Ao final do intercâmbio, Esteban definiu a experiência como uma das mais importantes de sua trajetória pessoal e acadêmica, destacando o acolhimento recebido. “Desde que cheguei, nunca tive medo de estar em outro país. O apoio de alunos, professores e da secretaria de internacionalização me fez sentir em casa”, relatou. Motivado pelo que vivenciou, ele pretende retornar ao Brasil para a pós-graduação e deixa um conselho a outros estudantes: “Não se arrependerão. As experiências serão incomparáveis e as pessoas que conhecerão serão únicas”, finaliza.
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