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Doutoranda da Unit é premiada no 25 Mulheres na Ciência - América Latina 2026

Pesquisa converte bagaço de malte em nanocelulose para biofilmes biodegradáveis e projeta a engenharia brasileira no cenário internacional

às 20h41
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O Brasil está entre os maiores produtores de cerveja do mundo, e, junto com os bilhões de litros fabricados anualmente, toneladas de bagaço de malte são geradas como subproduto do processo. Rico em celulose, hemicelulose e lignina, esse resíduo costuma ter uso limitado e baixo valor agregado. Transformá-lo em material de alto desempenho tecnológico exige mais do que reaproveitamento: requer domínio químico e visão de escala industrial.

Foi a partir dessa equação que a doutoranda Gabriela Barros, do Programa de Pós-Graduação em Engenharia de Processos (PEP) da Universidade Tiradentes (Unit), nota máxima na CAPES, desenvolveu a tese “Biofilmes de nanocompósitos de bagaço de malte”. O trabalho lhe rendeu o prêmio 25 Mulheres na Ciência – América Latina 2026, promovido pela 3M, entregue em 11 de fevereiro, data em que se celebra o Dia Internacional das Mulheres e Meninas na Ciência.

A pesquisa transforma o principal resíduo da produção de cerveja em um material extremamente fino, chamado nanocelulose, que depois é combinado a outros componentes para formar filmes biodegradáveis. Esses filmes podem ser usados na fabricação de embalagens mais sustentáveis e até em revestimentos industriais. Mais do que reduzir o descarte de resíduos, o estudo mostra que é possível criar, a partir desse material, um produto resistente e estável, capaz de competir com opções já disponíveis no mercado.

Segundo Gabriela, o maior desafio foi lidar com a complexidade estrutural do resíduo. “O principal desafio foi transformar um resíduo complexo como o bagaço de malte, rico em celulose, hemicelulose e lignina, em uma nanocelulose com características específicas para a formação do produto final. Foi necessário otimizar etapas de pré-tratamento químico para não degradar excessivamente a fração celulósica”, explica.

Engenharia aplicada

Ao iniciar o doutorado, Gabriela optou por seguir metodologias já consolidadas na literatura científica. No entanto, ao longo da pesquisa, percebeu que a simples reprodução de protocolos não garantiria os resultados desejados para o tipo de extração que pretendia realizar. “Esse processo me ensinou a desenvolver maior senso crítico, especialmente na seleção, adaptação e validação das metodologias”, afirma.

Um dos diferenciais do estudo foi o uso de um processo químico menos abrasivo, desenvolvido e patenteado pelo grupo de pesquisa, além da escolha de um resíduo agroindustrial abundante e subvalorizado. “O uso do bagaço de malte e de um processo químico menos agressivo foi essencial para garantir eficiência sem comprometer a integridade da nanocelulose”, destaca.

Para comprovar que o material realmente funciona, a pesquisadora submeteu os biofilmes a uma série de testes em laboratório. Foram avaliados, por exemplo, o quanto o material aguenta ser puxado sem rasgar, o nível de resistência e o quanto ele consegue se esticar antes de romper, características importantes para que uma embalagem não se rompa com facilidade.

Também foram feitos testes para verificar como o material reage ao calor, se suporta variações de temperatura sem deformar e qual é seu nível de proteção contra a passagem de vapor d’água, um fator essencial para conservar alimentos e medicamentos. Além disso, análises microscópicas permitiram observar a estrutura interna do material e identificar o tipo de nanocelulose obtida, o que influencia diretamente na resistência e na durabilidade do produto final.

Escala e mercado

O ponto de virada da pesquisa ocorreu quando os resultados começaram a se aproximar dos parâmetros exigidos por materiais que já disputam espaço no mercado de embalagens inteligentes.  No Brasil, onde a produção cervejeira é expressiva, o bagaço de malte é gerado em larga escala e, muitas vezes, subutilizado. A conversão desse resíduo em nanocelulose amplia seu ciclo de vida, agrega valor tecnológico e reduz descarte ambiental, inserindo o material em cadeias produtivas de maior complexidade.

Segundo a pesquisadora, o material pode ser direcionado à indústria de alimentos, farmacêutica e cosmética, especialmente na produção de embalagens biodegradáveis e revestimentos com propriedades específicas de barreira e resistência. “Atualmente, o principal desafio para avançar rumo à escala industrial está relacionado ao custo energético do pré-tratamento necessário para a extração da nanocelulose”, pontua.

Reconhecimento internacional

Para Adriana Santos, professora do PEP da Universidade Tiradentes e orientadora da tese, o reconhecimento internacional está diretamente ligado à consistência científica e à perspectiva de aplicação do estudo. “A pesquisa desenvolvida por Gabriela se destaca pela integração entre inovação tecnológica, sustentabilidade e potencial de aplicação industrial. Trata-se de uma abordagem alinhada à economia circular, agregando valor a um resíduo e transformando-o em um material de alto desempenho tecnológico”, afirma.

Ela ressalta que o diferencial do projeto está na combinação entre rigor metodológico, inovação no processo de extração e possibilidade de escalonamento. “Não se trata apenas de um avanço laboratorial, mas de uma proposta com potencial de transferência tecnológica”, observa, ao destacar que a premiação evidencia a qualidade da produção científica desenvolvida no programa.

Sobre o perfil da pesquisadora, Adriana enfatiza características que foram determinantes para o resultado alcançado. “Sua curiosidade é marcada pela busca constante por soluções inovadoras e pela disposição em aprofundar discussões teóricas e experimentais. Outro aspecto decisivo é sua paixão pela ciência. Quando assume um desafio, o faz com planejamento, foco e dedicação, essa persistência foi essencial para que sua pesquisa alcançasse reconhecimento internacional”, compartilha.

Para a docente, a conquista amplia a visibilidade da ciência produzida no Brasil e fortalece o protagonismo nacional na área de materiais sustentáveis. “A conversão do bagaço do malte em nanocompósitos aplicáveis a biofilmes poliméricos sustentáveis posiciona o Brasil como agente relevante na transição para uma economia circular e de baixo impacto ambiental. No campo dos materiais sustentáveis, essa conquista fortalece o protagonismo do país na valorização de resíduos agroindustriais e no desenvolvimento de biomateriais avançados”, conclui.

Leia também: Intercambista vivencia ciência na prática e integra pesquisa de pós-graduação no Brasil

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