Há mais de um ano, está em vigor a Lei Federal 15.100/2025, que impõe restrições ao uso de celulares nas escolas brasileiras de Ensino Fundamental e Médio. Desde então, os estabelecimentos de ensino passaram a adotar medidas de controle e de proibição da entrada com os aparelhos nas salas de aula. E vêm contabilizando mudanças significativas no comportamento e nas rotinas dos alunos, que passaram a buscar novas (ou velhas) estratégias para melhorar o aprendizado e aprimorar a socialização com outros alunos.
O debate em torno desta medida não tardou em alcançar o ensino superior, fazendo surgir a notícia recente de que algumas faculdades e universidades de São Paulo também começaram a restringir e a proibir a entrada de alunos com celulares durante as aulas. Tais medidas foram tomadas após queixas de muitos professores contra a dificuldade de alguns alunos na leitura de textos longos e complexos, bem como a falta de atenção e de foco durante as aulas, o que obrigava os docentes a exigir atenção das classes. No entanto, as opiniões se dividem, pois outros estudantes e professores defendem o uso dos celulares para pesquisas, gravações e anotações relacionadas ao conteúdo ensinado, e para a consequente otimização do aprendizado e das atividades acadêmicas.
Para a professora e pesquisadora Alana Danielly Vasconcelos, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Tiradentes (PPED/Unit), a principal discussão travada hoje não é mais sobre se o celular deve ou não estar presente em sala de aula, mas sim como ele deve ser utilizado de forma pedagógica. “Há um tensionamento entre dois polos: de um lado, o uso indiscriminado que pode gerar dispersão; de outro, o potencial dessas tecnologias como recurso de aprendizagem, produção de conhecimento e inovação. Além disso, cresce o debate sobre o papel da inteligência artificial generativa, que amplia ainda mais essa discussão ao trazer novas possibilidades e também novos desafios para a educação no âmbito do nível superior”, analisa ela.
Alana defende a pertinência do debate sobre as vantagens e desvantagens do uso do celular e das tecnologias na educação superior. E também se mostra favorável a um equilíbrio entre as posições deste debate. “Atualmente, estamos com uma geração considerada hiperconectada, que aprende, se comunica e produz conhecimento mediada por tecnologias digitais. Ignorar isso seria desconectar a universidade da realidade social e atual do mundo. Por outro lado, também é legítima a preocupação com a qualidade da atenção, da concentração e da profundidade da aprendizagem. Portanto, a discussão é necessária para equilibrar uso pedagógico e a responsabilidade digital”, justifica.
Boas práticas
Uma das chaves para encontrar este equilíbrio está na integração consciente e intencional dos celulares às metodologias ativas de aprendizagem. De acordo com a professora, é quando o smartphone deixa de ser um elemento de distração e passa a ser um recurso de autoria e protagonismo do discente. Isso pode acontecer a partir de práticas como produção de conteúdo (vídeos, podcasts, registros fotográficos de atividades); acesso a bases de dados, artigos e materiais acadêmicos em tempo real; uso de aplicativos educacionais e plataformas colaborativas; participação em enquetes, quizzes e dinâmicas interativas; e desenvolvimento de projetos com foco em inovação, empreendedorismo e impacto social, dentre outros temas.
Mas esta integração só pode dar certo se houver a disposição do aluno em utilizar os celulares para assimilar melhor o conteúdo das aulas, sem que ele se distraia com redes sociais ou conversas paralelas. “Isso exige o desenvolvimento de competências de autorregulação e foco que também são habilidades educacionais importantes. A chave é transformar o uso do smartphone em algo intencional, e não automático”, aponta a Alana, citando algumas estratégias que podem ser usadas:
- Ativar modos de concentração ou bloquear notificações durante a aula (alguns aparelhos já permitem essa configuração);
- Utilizar o smartphone exclusivamente para atividades orientadas pelo docente;
- Fazer anotações digitais, gravações ou registros organizados do conteúdo (quando permitido pelo professor);
- Estabelecer momentos específicos para uso pessoal, fora do tempo de aprendizagem;
Por outro lado, certos abusos ou más práticas prejudicam diretamente o processo educativo e devem ser evitadas pelos estudantes, como o uso constante de redes sociais durante a aula, o plágio ou cópia de conteúdos sem reflexão e sem citar a fonte, a dependência excessiva da tecnologia digital sem desenvolvimento do pensamento crítico, e o uso do smartphone para dispersão ou desrespeito ao ambiente acadêmico ou aos colegas, professores e/ou funcionários da instituição. “Mais do que proibir, é fundamental educar para e sobre o uso consciente e ético das tecnologias digitais”, completa a pesquisadora.
Cuidados com a IA
O mesmo debate em torno do uso dos celulares também se aplica ao uso da inteligência artificial e de suas ferramentas, como o ChatGPT, que vem sendo costumeiramente usados em ações de pesquisa. E por isso, a atenção com as boas práticas e os cuidados exigidos para evitar abusos no uso dos celulares também se aplicam, e de forma ainda mais intensa, em relação ao uso da IA.
“A inteligência artificial potencializa tanto as boas práticas quanto os riscos. Sem orientação adequada, pode incentivar respostas superficiais, automatizadas ou até práticas inadequadas, como o uso para substituir o esforço intelectual. Por isso, o foco deve ser no letramento digital e no letramento em IA, ou seja, ensinar como utilizar e sobre esse tipo de tecnologia de forma crítica, ética e responsável”, diz Alana Danielly, destacando que a IA pode ser uma grande aliada quando utilizada como suporte ao processo de aprendizagem, e não como substituta do discente.
Na sua visão, a IA pode contribuir no apoio à organização de ideias e estruturação de textos; na explicação de conceitos complexos de forma acessível; na personalização do aprendizado; no estímulo à criatividade e à produção de conhecimento; e em simulações, estudos de caso e resolução de problemas. Para a professora, o ponto central é o uso da IA como recurso de mediação, e não como atalho.
Leia mais:
Prêmio Jovem Cientista vai contemplar pesquisas na área de Inteligência Artificial
Suspensão do celular em sala de aula favorece concentração e aprendizado