A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que estabelece disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho, passou a incluir de forma mais clara os riscos psicossociais como parte da gestão organizacional. A mudança exige que empresas identifiquem fatores como pressão excessiva, sobrecarga, conflitos interpessoais e organização do trabalho, incorporando essas variáveis ao Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) e às políticas de saúde ocupacional. A proposta é fortalecer a prevenção ao adoecimento mental e promover ambientes laborais mais seguros e equilibrados.
Com o objetivo de discutir as mudanças da NR-1 e orientar empresas sobre responsabilidades legais, fiscalização e boas práticas, o Unit Carreiras realizou o 1º Workshop – NR-1 e Riscos Psicossociais na Prática, na Universidade Tiradentes (Unit). O encontro marcou a primeira edição promovida pelo setor dentro do formato “Café com RH”, agora com uma abordagem mais técnica, reunindo profissionais de Recursos Humanos de empresas parceiras, especialistas e representantes de diferentes áreas para debater estratégias de implementação da norma.
Tema atual
De acordo com a gerente do Unit Carreiras, Janaína Machado, a escolha do tema surge da necessidade de discutir um assunto que vem ganhando relevância dentro das organizações. “Como trabalhamos com educação e desenvolvimento profissional, entendemos que era importante trazer quem realmente está nesse processo. Por isso, convidamos auditores e fiscais do trabalho, que vão orientar sobre como as empresas devem se preparar, o que será cobrado e quais são as boas práticas para implementação da norma”, explica.
A programação foi iniciada com o painel “NR-1 e Riscos Psicossociais na prática – Responsabilidades legais e fiscalização”, que reuniu especialistas para discutir as mudanças e os impactos para as organizações. Para o coordenador do curso de Direito da Unit, Mário Fortes, a discussão está ligada ao aumento de afastamentos relacionados à saúde mental. “Nós vivemos hoje um cenário preocupante relacionado à saúde mental no ambiente de trabalho. Houve um aumento significativo, nos últimos anos, de afastamentos relacionados a questões psicológicas. Isso mostra a necessidade de olhar com mais atenção para o ambiente organizacional e para as condições de trabalho”, pontua.
Boas práticas
A atualização da NR-1 também já vem sendo trabalhada na prática por instituições que iniciaram o processo de adequação de forma antecipada. A diretora de Recursos Humanos da Unit, Alessandra de Faria, explicou que a instituição começou a se preparar ainda no ano passado, com a definição de metodologia e diagnóstico interno dos riscos psicossociais.
“O primeiro passo foi definir a metodologia que utilizaríamos, e optamos pela COPSOQ. A partir dela, aplicamos um questionário com os nossos colaboradores e, com base nos resultados, estruturamos um plano de ação para atuar nos pontos considerados mais críticos”, afirma.
Segundo ela, o trabalho envolve a integração das novas exigências com programas já existentes de saúde ocupacional e qualidade de vida. “Paralelamente, estamos atualizando todos os programas obrigatórios, como o PGR e o Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional (PCMSO), além de integrar essas ações aos programas que já temos voltados para saúde mental. A ideia é não criar algo isolado, mas conectar o que já existe com as exigências da nova norma”, destaca.
Alessandra ressalta que o diagnóstico confirmou situações já acompanhadas pela equipe, o que facilita a implementação das medidas. “Acredito que não teremos grandes dificuldades, porque iniciamos esse processo com antecedência. O diagnóstico que tivemos confirmou situações que já acompanhávamos, então o trabalho agora é mais de ajuste e aprimoramento do que de criação de algo totalmente novo”, explica.
Para a diretora, a gestão dos riscos psicossociais envolve diferentes fatores do ambiente organizacional e não deve ser atribuída a uma única área. “Quando falamos de risco psicossocial, estamos falando do ambiente de trabalho como um todo. Não é uma responsabilidade de uma única pessoa. Envolve a relação entre gestores e equipes, a organização das atividades, a pressão por resultados e a própria cultura institucional”, pontua.
Ela também destaca que ações voltadas à qualidade de vida contribuem diretamente para um ambiente mais saudável. “Aqui temos a vantagem de estar em uma instituição de ensino, com acesso a atendimento psicológico, atividades físicas e outras iniciativas de qualidade de vida. Esses recursos contribuem para um ambiente mais saudável e ajudam o colaborador a ter melhores condições para desempenhar suas atividades”, completa.
Resultados
Em um dos painéis apresentados, a sócia da Prospecta Treinamentos, Andrea Morais, destacou que ainda há uma percepção equivocada de que a adequação à norma representa apenas custo adicional. “Muitas organizações enxergam a norma apenas como uma obrigação ou um custo adicional, mas o que mostramos é que investir na saúde mental e em ambientes de trabalho saudáveis traz retorno direto para os resultados. Colaboradores mais engajados, com sentimento de pertencimento e bem-estar, tendem a produzir mais e a contribuir para um clima organizacional melhor”, explica.
A especialista ressalta que a implementação das diretrizes pode se transformar em vantagem competitiva para as empresas. “O nosso objetivo é apoiar as empresas nesse processo de implementação, não apenas para atender à legislação, mas para transformar isso em vantagem competitiva. Cuidar das pessoas impacta diretamente na produtividade, na redução de afastamentos e na melhoria do desempenho organizacional”, pontua.
Ela também observa que ainda existem dúvidas sobre o processo de adequação e fiscalização. “Percebemos que ainda existem muitas dúvidas e receios, principalmente em relação à fiscalização. As empresas estão buscando entender como se adequar e quais medidas precisam adotar. Esse evento cumpre exatamente esse papel: informar, orientar e promover troca de experiências para que todos possam se preparar de forma mais segura”, conclui.
Com a entrada em vigor das atualizações da NR-1, a tendência é que as organizações passem a olhar com mais atenção para fatores que impactam diretamente a saúde mental e o ambiente de trabalho. A discussão sobre riscos psicossociais, antes pouco estruturada em muitas empresas, passa a integrar a gestão de forma mais organizada, com diagnóstico, planejamento e acompanhamento. Para profissionais de RH e gestores, a mudança representa a oportunidade de construir ambientes mais equilibrados, reduzir afastamentos e alinhar cuidado com as pessoas aos resultados institucionais.
Leia também: Núcleos jurídicos da Unit realizaram mais de 1,5 mil atendimentos gratuitos em 2025