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Quando retirar amígdalas e adenoide? Entenda os sinais e indicações da cirurgia

Ronco intenso, infecções repetidas e dificuldade para respirar estão entre os principais motivos para o procedimento

às 21h03
Nelson D’Ávila- otorrinolaringologista e professor da Universidade Tiradentes
Nelson D’Ávila- otorrinolaringologista e professor da Universidade Tiradentes
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A dor de garganta que parece não ter fim, as noites mal dormidas por causa do ronco alto e a respiração constante pela boca são sinais que costumam preocupar. Em muitos casos, esses sintomas aparecem de forma recorrente, interferem no sono e passam a afetar a rotina diária, com cansaço, irritação e dificuldade de concentração. Quando esse quadro se repete com frequência, pode indicar o aumento das amígdalas e da adenoide, situação que, em alguns casos, exige avaliação cirúrgica.

Além das infecções repetidas, o crescimento dessas estruturas pode bloquear parcialmente a passagem do ar, principalmente durante o sono. Isso leva a episódios de apneia, respiração ruidosa e sono agitado. Com o tempo, esses sintomas passam a impactar diretamente a qualidade de vida, tanto em crianças quanto em adultos, e levantam a possibilidade de retirada das amígdalas e da adenoide como forma de tratamento definitivo.

O otorrinolaringologista e professor da Universidade Tiradentes (Unit) Nelson D’Ávila explica que a indicação da cirurgia é diferente conforme a idade do paciente. “Nas crianças, a cirurgia geralmente serve para desobstruir a respiração. Nós indicamos a operação quando a criança ronca muito, tem apneia, respira o tempo todo pela boca ou tem otites graves de repetição. Já nos adultos, o foco principal é resolver problemas nas amígdalas. A indicação costuma ser para curar infecções crônicas, tratar um mau hálito forte e persistente causado por cáseos, evitar abscessos graves ou para investigar a suspeita de tumores”, afirma.

Sinais de alerta

Alguns sintomas ajudam a identificar quando é necessário procurar avaliação especializada. Entre eles estão dificuldades respiratórias persistentes, ronco intenso e alterações no sono. O especialista alerta que esses sinais podem afetar diretamente o desempenho durante o dia, especialmente em crianças, que podem apresentar irritabilidade ou dificuldade de aprendizagem.

“Fique de olho em dois tipos de problemas. O primeiro é a dificuldade para respirar: observar se a pessoa respira o tempo todo pela boca, ronca alto, tem apneia ou um sono muito agitado. Isso pode deixar as crianças desatentas ou hiperativas, e os adultos super cansados durante o dia. O segundo problema são as infecções: dores de garganta muito frequentes com febre, pus, ou a presença dos cáseos que causam uma sensação de corpo estranho e mau hálito”, explica. Ele também destaca situações que exigem atenção imediata. “Se notar que uma amígdala está muito maior que a outra ou houver sangramentos, procure o médico rápido”, alerta.

Além da avaliação clínica, existem critérios utilizados pelos especialistas para indicar a cirurgia. Um dos mais conhecidos é o chamado “Critérios de Paradise”, que considera a frequência e a intensidade das infecções ao longo do tempo. “A cirurgia passa a ser indicada se a pessoa tiver sete ou mais infecções fortes em um único ano, cinco por ano durante dois anos seguidos ou três por ano durante três anos seguidos. Vale lembrar que não é qualquer dorzinha de garganta; estamos falando de infecções intensas, com febre alta, pus e gânglios inchados”, afirma.

Impactos diretos

O aumento das amígdalas e da adenoide pode causar consequências importantes quando não tratado. A obstrução das vias aéreas compromete o sono e reduz a qualidade do descanso, o que afeta diretamente o desenvolvimento infantil e o desempenho dos adultos nas atividades diárias.

“Quando essas estruturas crescem muito, elas bloqueiam a passagem do ar, principalmente quando deitamos. A apneia do sono destrói a qualidade do descanso. Nas crianças, dormir mal prejudica a liberação do hormônio do crescimento, atrapalha muito a aprendizagem e pode até entortar os dentes e deformar o rosto, pois elas são obrigadas a ficar com a boca aberta para respirar. Nos adultos, os efeitos também são relevantes. Isso gera fadiga crônica, falta de memória e afeta o desempenho no trabalho”, acrescenta.

A indicação cirúrgica também muda ao longo da vida. Segundo Nelson, a adenoide costuma diminuir naturalmente na adolescência, o que torna o procedimento menos comum em adultos. Nessa fase, o foco passa a ser o tratamento das amígdalas. “A adenoide costuma murchar naturalmente na adolescência, então é muito raro operar adenoide em adultos. Na fase adulta, o problema quase sempre são as amígdalas. Enquanto nas crianças o foco é limpar a via aérea para que cresçam e durmam bem, nos adultos o objetivo é acabar com focos de infecção profunda, resolver o mau hálito severo ou afastar o risco de câncer”, afirma.

Quando operar

Antes da cirurgia, o tratamento clínico é sempre a primeira alternativa. Medicamentos e acompanhamento são utilizados inicialmente, e o procedimento é indicado apenas quando não há melhora ou quando os sintomas persistem. “Nós sempre tentamos os remédios primeiro, como sprays nasais, antialérgicos e antibióticos durante as crises. Se depois de um bom tempo de tratamento certinho o paciente continua sofrendo com obstrução e infecções, a gente parte para a cirurgia. Para ter certeza, fazemos um exame rápido no consultório, a endoscopia pelo nariz, para ver o tamanho do bloqueio. Em alguns casos, pedimos também a polissonografia para medir a gravidade das apneias”, completa.

A cirurgia é realizada em ambiente hospitalar e com anestesia geral. Todo o procedimento é feito pela boca, sem cortes externos, utilizando instrumentos específicos para remover os tecidos aumentados. “É um procedimento feito no hospital, com anestesia geral, e tudo é feito por dentro da boca aberta, ou seja, sem nenhum corte no rosto. Para tirar a adenoide usamos instrumentos guiados por câmeras que raspam o tecido. Já as amígdalas são soltas com bisturis tradicionais, elétricos ou tecnologias modernas como o plasma a frio, que agridem menos a área ao redor”, explica.

O pós-operatório varia bastante entre crianças e adultos. Nos pequenos, a recuperação costuma ser rápida e com retorno às atividades em poucos dias. Já nos adultos, o processo pode ser mais lento e exigir maior período de repouso. “As crianças se recuperam incrivelmente rápido. Elas sentem desconforto nos primeiros dois ou três dias, mas em cerca de quatro dias já querem voltar a brincar e, em até duas semanas, estão prontas para a vida normal. Já para os adultos, o processo é mais incômodo e geralmente exige cerca de dez dias de afastamento do trabalho”, afirma.

Os resultados do procedimento costumam aparecer rapidamente, principalmente nas crianças. A melhora da respiração e do sono impacta diretamente o desenvolvimento e a qualidade de vida. “Nas crianças, o resultado é nítido: elas param de roncar, voltam a respirar bem, dão um estirão de crescimento e melhoram a concentração na escola. Para os adultos, o alívio é enorme. Eles se libertam da dependência de antibióticos e das idas frequentes ao pronto-socorro”, destaca.

Cuidados importantes

Apesar de ser considerada segura, a cirurgia exige cuidados específicos no pós-operatório. A alimentação adequada e a hidratação são fundamentais para evitar complicações, especialmente sangramentos. “O principal risco é o sangramento, que pode ocorrer nas primeiras 24 horas ou entre o quinto e o décimo dia. Por isso, a dieta deve ser seguida à risca. Nos primeiros dias, o paciente só pode consumir coisas frias ou geladas, líquidas ou bem molinhas. É proibido comer alimentos quentes, duros ou ácidos, pois podem raspar a ferida e causar hemorragias”, orienta.

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