O trabalho de inclusão de meninas e mulheres na carreira científica acaba de ganhar um importante reconhecimento em nível nacional: o “Programa Meninas na Ciência”, promovido por professoras dos programas de pós-graduação da Universidade Tiradentes (Unit), foi o grande vencedor da 3ª edição do Prêmio Fernando Braga – Sustentabilidade Ambiental na Educação Superior. Ele é concedido pela Associação Brasileira das Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e contempla projetos desenvolvidos por instituições de ensino para promover o desenvolvimento sustentável e melhorar a vida das comunidades locais, através de projetos e iniciativas nas áreas de ensino, pesquisa e extensão. O projeto sergipano ficou em primeiro lugar entre 149 concorrentes de todo o Brasil.
A premiação foi entregue na última quarta-feira, 14, durante solenidade realizada na sede da ABMES, em Brasília (DF). Ela contou com a presença da professora Cláudia Moura de Melo, do Programa de Pós-Graduação em Biociências e Saúde (PBS), que recebeu a premiação e fez os agradecimentos em nome da equipe de professoras, pesquisadoras e alunas que integram o projeto. Para ela, o prêmio representa o reconhecimento ao trabalho de uma equipe interdisciplinar capitaneada por 12 pesquisadoras das áreas de Biociências, Saúde, Engenharias e Educação, em prol da inserção e permanência de meninas e jovens estudantes em diferentes níveis no meio científico, desde a Educação Básica e passando pela Graduação até o Mestrado e o Doutorado.
“O universo da ciência, por muito tempo dominado por figuras masculinas, hoje se abre para a pluralidade e o talento feminino, graças a iniciativas como o programa Meninas na Ciência. Ele busca desmistificar a imagem de que a pesquisa científica é um campo exclusivamente masculino, incentivando a participação de meninas e jovens que querem estar na ciência. Isto se configura em uma mensagem poderosíssima para as jovens pesquisadoras: ‘Eu sou vista, eu sou ouvida e a Ciência que faço em Sergipe (e seus territórios) é relevante e conectada à aldeia científica global’”, destacou Cláudia.
Para a pró-reitora de Pós-Graduação e Pesquisa da Unit, Patrícia Severino, que é professora do PBS e co-participante do projeto, o prêmio da ABMES é a validação do propósito de tornar a ciência mais inclusiva e acessível para as meninas. “Essa conquista fortalece o compromisso da equipe em ampliar o alcance da divulgação científica e em consolidar estratégias que estimulem o protagonismo feminino na ciência desde a base. É um reconhecimento coletivo, que valoriza o trabalho consistente, interdisciplinar e engajado das pesquisadoras e pesquisadores envolvidos. Para a Unit, ela evidencia o papel da instituição como um espaço que promove inovação com responsabilidade social, alinhando ensino, pesquisa e extensão a demandas concretas da sociedade. E projeta a Unit nacionalmente como uma universidade que investe em iniciativas inclusivas, contribuindo para a formação de uma ciência mais diversa e representativa”, considerou.
“Trata-se de um reconhecimento merecido pelo empenho e qualidade do trabalho desenvolvido, em uma ação que está revolucionando o acesso à ciência para meninas de escolas públicas, promovendo inclusão, inovação e soluções para os desafios ambientais do nosso tempo. Essa conquista demarca a importância da inclusão de mulheres e meninas na ciência, além de destacar, a importância da Divulgação Científica como um suporte essencial na popularização de ações científicas”, acrescenta a professora Cristiane de Magalhães Porto, do Programa de Pós-Graduação em Educação (PPED), que atua no Meninas na Ciência como curadora de Divulgação Científica.
Áreas de pesquisa
O Meninas na Ciência existe desde 2024 e conta hoje com a participação de 14 alunas de mestrado e doutorado do PBS, do PEP (Engenharia de Processos) e do PPED (Educação), além de 12 estudantes de graduação, ligados aos cursos de Farmácia, Biomedicina, Enfermagem, Engenharia Civil, Ciências da Computação e Comunicação Social – Publicidade e Propaganda. As orientadoras responsáveis são as professoras-doutoras Cláudia Moura de Melo (PBS), Veronica de Lourdes Sierpe Jeraldo (PBS), Eliane Bezerra Cavalcanti (PEP), Maria Nogueira Marques (PBS), Cristiane de Magalhães Porto (PPED), Silvia Maria Egues Dariva (PEP), Cleide Mara Faria Soares (PEP), Adriana de Jesus Santos (PEP), Patrícia Severino (PBS), Juliana Cordeiro Cardoso (PBS) e Adriana Karla de Lima (Farmácia), além do professor Heriberto Alves dos Anjos (PBS).
O projeto tem ainda a participação de 18 professoras da Educação Básica e 15 alunas do Ensino Fundamental e Ensino Médio, as quais atuam como bolsistas. As escolas públicas participantes são os colégios estaduais Tobias Barreto (Aracaju), Frei Inocêncio (Nossa Senhora do Socorro) e Djenal Tavares de Queiroz (Moita Bonita); as escolas municipais José Ferreira de Carvalho (Capela) e Josué Passos (Ribeirópolis). e os Centros de Excelência Miguel das Graças (São Miguel do Aleixo) e Edelzio Vieira de Melo (Capela). Nestes colégios, as pesquisadoras e bolsistas fazem uma série de atividades para envolver os estudantes na pesquisa científica, ensinando suas noções básicas e apresentando as suas várias possibilidades de atuação; incluindo os ramos do empreendedorismo, da inovação e da comunicação.
Entre os aspectos do Meninas na Ciência que mais chamaram a atenção da Abmes, estão o perfil colaborativo e interdisciplinar da equipe e o impacto social direto do projeto em centenas de alunas do ensino fundamental e médio de vários municípios sergipanos, o que é estimado em aproximadamente 800 alunas impactadas em dois anos. “O fomento ao estabelecimento da indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão no Programa também foi apontado como um ponto relevante, ao buscar uma formação baseada nas áreas dos conhecimentos, mas também possibilitando a construção de habilidades que estão interligadas entre teoria e prática que possibilita a práxis”, considera Cláudia Melo.
Ela também destaca o caráter inovador dos projetos de pesquisa, que contribuem para o fortalecimento da educação, pesquisa, inserção social e sustentabilidade socioambiental. Atualmente, oito projetos de pesquisa da Unit estão direta ou indiretamente ligados ao Meninas na Ciência, com coordenação e equipe de pesquisadoras do PEP, do PBS e do PPED: Eles debruçam-se em temas como mudanças climáticas, saúde, tecnologia, nanotecnologia, desertificação, descarbonização, combate a doenças, bioeconomia e aproveitamento de resíduos da agroindústria.
“As discussões e projetos sobre saúde, inovação e clima realizadas e desenvolvidas no âmbito do Programa Meninas na Ciência auxiliam a construir soluções inovadoras – em termos tecnológicos e de inovação social – que podem ser adotadas por nações inteiras. Quando a ciência ocupa esse espaço, abrimos caminho para respostas mais eficazes à crise climática e seus impactos sobre a saúde no contexto One Health. O grupo tem se especializado e fomentado também estudos analíticos de integração entre vigilância climática, políticas e estratégias de cuidado e desenvolvimento sustentável, como olhar sobre as especificidades territoriais e identitárias”, afirmou Cláudia.
Pra todos saberem
Outro aspecto de destaque do projeto é o Plano de Divulgação Científica, com ações de produção e divulgação das pesquisas e atividades desenvolvidas pelas alunas, através das redes sociais e dos materiais produzidos junto aos canais de comunicação da Unit, tanto pelo Complexo de Comunicação Social (CCS) quanto pela Assessoria de Comunicação (Asscom). O perfil do projeto no Instagram, criado em abril de 2025, conta hoje com um cenário de 266 seguidores, 51 publicações (posts) e uma média aproximada de 15 mil visualizações por trimestre. As estudantes participam ativamente destas ações, desde a roteirização, gravação e edição de conteúdos variados em diferentes formatos (Podcast, Videocast, TV, Youtube, Instagram, Facebook etc) e para vários meios de comunicação, sempre com protagonismo juvenil.
“A gente tem tentado levar essas notícias no Instagram para o pessoal entender as ações que estão sendo feitas. Tem sido um trabalho muito bom, e a gente sente que ele repercute, pois tenho amigos de outras universidades fora do estado que já conhecem o projeto. A divulgação científica não só é um importante espaço para a sociedade, mas também para trazer mais meninas para esse projeto, que recupera e incentiva as profissões. As meninas estão demonstrando como as mulheres podem ocupar seus espaços dentro da ciência, e o maior ganho desse projeto é a gente perceber o envolvimento dessas meninas e também das professoras que fazem parte”, considera Cristiane Porto.
Para a professora do PPED, outro ponto relevante do Meninas na Ciência é sua sintonia com o movimento que vem sendo feito nacionalmente pela comunidade científica para aumentar a participação de meninas e mulheres na ciência, o que tem mobilizado até grandes entidades do setor, como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). “Se você for fazer uma análise, vai ver que as mulheres foram muito apagadas pelo discurso masculino no decorrer da história, e que hoje estamos vivendo um momento onde a gente precisa estar presente. As mulheres, apesar de serem minoria, produzem mais academicamente que os homens. Nós somos poucas, mas somos intensas, e os dados mostram isso”, garante Cristiane.
Outras premiações
O Prêmio Fernando Braga é concedido desde 2023 pela ABMES e pela Edux21 Consultoria Educacional, em homenagem ao jornalista, professor e empresário Fernando Antonio Pereira Braga (1944-2021), que atuou por muitos anos em faculdades, universidades e veículos de comunicação do Rio de Janeiro. Este foi o primeiro a ser recebido pelo Meninas na Ciência em reconhecimento pelo conjunto da obra. No entanto, o programa da Unit já foi laureado em categorias de outras premiações, como o Prêmio 3M “25 Mulheres na Ciência”, o Prêmio CIENART, o Prêmio Hackathon for Education e o Prêmio Jovem Pesquisador 2025, da Semana de Pesquisa da Unit (Sempesq).
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