Criar um jogo do zero em poucos dias, em equipe e sob pressão de tempo pode parecer improvável, mas essa é justamente a proposta das game jams, maratonas de desenvolvimento que reúnem programadores, designers e entusiastas para transformar ideias em projetos jogáveis. Essas iniciativas fazem parte de um movimento maior dentro da indústria de games, que vai além do entretenimento e se consolida como um espaço de formação, inovação e entrada no mercado de tecnologia.
Com uma indústria que movimenta mais de US$ 180 bilhões por ano no mundo, segundo relatórios do setor, o desenvolvimento de jogos passou a ser também uma alternativa concreta de carreira para profissionais de Tecnologia da Informação. Pensando nesse cenário e nas novas possibilidades do mercado de trabalho, a Universidade Tiradentes (Unit) promoveu a palestra “De uma comunidade global de games ao Shark Tank”, com o empreendedor Ian Rochlin, fundador da GameJam Plus.
Rochlin ganhou projeção nacional ao participar do programa Shark Tank Brasil, no qual conquistou investimento dos cinco jurados, feito raro na atração. “A ideia é mostrar aos alunos dos três cursos Análise e Desenvolvimento de Sistemas, Ciência da Computação e Sistemas de Informação, que existem diversas vertentes de atuação, incluindo programação, construção e criação de jogos. Observando os alunos, é possível perceber que muitos têm grande interesse nessa área”, explica o professor dos cursos de TI Luiz Gomes.
Do desenvolvimento de jogos ao empreendedorismo
Com trajetória iniciada na multinacional Procter & Gamble, Ian Rochlin deixou o mercado corporativo ainda jovem para empreender e hoje lidera uma das maiores competições de desenvolvimento de jogos do mundo, presente em dezenas de países. Durante a palestra, ele compartilhou experiências pessoais e desafios da carreira, com o objetivo de inspirar os alunos e desmistificar a ideia de sucesso imediato. “A proposta é inspirar, compartilhando minha história e minha participação no Shark Tank, além de contar como criei uma Copa do Mundo de Desenvolvimento de Jogos, hoje presente em 40 países. A ideia é dividir lições que possam ser úteis ao longo da trajetória profissional deles”, afirmou.
Ao abordar o empreendedorismo, Rochlin reforçou que o sucesso exige preparação e visão de longo prazo, contrariando a lógica de resultados rápidos difundida nas redes sociais. “Houve um momento em que estive prestes a desistir da minha empresa e, de forma inesperada, surgiu a oportunidade do Shark Tank. Se eu não estivesse preparado, essa oportunidade não teria tido o mesmo impacto”, relatou. Para ele, iniciativas como a da Universidade Tiradentes ampliam a visão dos estudantes ao apresentar caminhos além do mercado tradicional. “Existe um caminho possível, embora não seja fácil nem imediato como as redes sociais sugerem. Com perseverança, é possível alcançar. Além disso, o mercado de jogos também se apresenta como uma alternativa interessante”, concluiu.
Fortalecimento do ecossistema local
A realização do evento também marca um avanço para o cenário de desenvolvimento de jogos em Sergipe. Segundo Daniel Caldas, presidente da Associação Sergipana de Desenvolvimento de Jogos (ADJOGOS-SE), a iniciativa simboliza um momento importante de organização e fortalecimento do setor no estado. “Esse evento representa um marco para a associação, que foi formalizada neste ano. Já existia um grupo de desenvolvedores atuando há cerca de 10 anos, mas havia uma demanda por mais profissionalização. Conseguimos articular parcerias importantes com a Unit e o Sebrae, viabilizando a vinda do Ian e a realização do evento”, destacou.
Entre os alunos, o contato com o tema reforça o potencial da área e amplia horizontes profissionais. O estudante de Sistemas de Informação Andrey Conrado ressalta que o crescimento dos jogos independentes tem aberto espaço para novos desenvolvedores. “Essa é uma área que cresce cada vez mais e, embora existam grandes empresas dominando o mercado, jogos independentes têm conquistado um público cada vez maior. As game jams são muito relevantes nesse contexto, pois funcionam como uma janela de oportunidades para quem quer começar”, explicou. Segundo ele, iniciativas como essas permitem que estudantes experimentem o desenvolvimento de jogos de forma prática e colaborativa, desde os primeiros passos até a formação de equipes e criação de projetos, mesmo que não sigam carreira diretamente na área.
Em Sergipe, iniciativas como essa ajudam a dar visibilidade a um setor que ainda está em fase de organização, mas que já mobiliza estudantes, desenvolvedores e instituições. Ao reunir universidade e mercado em torno do mesmo tema, o evento aponta para a construção de um ambiente mais estruturado para quem deseja atuar com jogos, seja no desenvolvimento, no empreendedorismo ou em áreas correlatas da tecnologia.
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