A inclusão de pessoas com deficiência e o ensino da Língua Brasileira de Sinais (Libras) ganhou um destaque especial nas comemorações dos 25 anos da Biblioteca Central Jacinto Uchôa de Mendonça, da Universidade Tiradentes (Unit). Na noite da última sexta-feira, 17, ela promoveu a 2ª Mostra de Libras, uma apresentação de projetos desenvolvidos por alunos que cursaram o componente curricular Práticas Comunicativas em Libras, do curso de Psicologia, em integração com os componentes de formação geral (Libras) dos cursos tradicionais da instituição. A ação, realizada com base na metodologia de Aprendizagem Baseada em Projetos (ABP), também marca as comemorações pelo aniversário da Lei nº 10.436/2002 (Lei de Libras), que completa 24 anos na próxima sexta-feira, 24.
Ao todo, 53 trabalhos realizados por mais de 300 alunos de 14 cursos foram apresentados na mostra. Em cada um deles, foram detalhados diversos detalhes e aspectos da Libras, um idioma dotado de gramática e alfabeto próprio, que utiliza mãos, expressões faciais e corpo para comunicação entre a comunidade surda brasileira,. Entre os temas trabalhados pelos alunos desde o primeiro dia de aula, estão o alfabeto, os números, pronomes possessivos, pronomes demonstrativos, pronomes pessoais, sinais icônicos, sinais arbitrários, verbos, substantivos, adjetivos e sinais adotados nos contextos acadêmico e profissional.
“Todos esses trabalhos que estão sendo apresentados buscam a inclusão, o atendimento à pessoa surda e o desempenho dos alunos na prática com a língua de sinais. Esse é o nosso objetivo macro: tornar possível a comunicação entre o profissional e a pessoa surda. Um psicólogo, por exemplo, vai precisar saber a língua de sinais e conhecer a identidade da pessoa surda para que ele possa prestar um bom atendimento, e assim é também as outras profissões”, explica a professora Káthia Cilene Nascimento, orientadora da mostra e responsável pelo componente curricular Libras, ministrado em vários cursos da Unit.
O bibliotecário Marcos Breno Andrade Leal, que atua na coordenação da Biblioteca Jacinto Uchôa, diz que a ideia da Mostra de Libras surgiu em 2025, durante uma conversa com a professora Kathia, como uma forma de aproximar ainda mais os alunos da comunidade surda. Para ela, a ideia é mostrar que a Biblioteca não é apenas um espaço de livros, mas também, um espaço de interação social e cultural.
“As pessoas precisam compreender que a biblioteca é um espaço disponível para todas as pessoas, inclusive a comunidade surda. Então, ela tem que estar preparada para receber qualquer tipo de público e realizar as ações que envolvam não apenas a comunidade de ouvintes, como também os surdos. Eu percebi que é necessário integrar a Libras não apenas no meu dia a dia, mas também no trabalho. Ampliar um pouco a percepção que também existem usuários surdos que pretendem visitar também a biblioteca”, diz Marcos Breno, que também estuda Licenciatura em Letras Libras na Universidade Federal de Sergipe (UFS).
Além de alunos e professores da Unit, a mostra contou com a presença de pessoas surdas e tradutores de Libras da comunidade externa, que trabalham em empresas e em órgãos como a Secretaria Estadual de Educação e Cultura (Seduc), o Instituto Federal de Sergipe (IFS) e a Universidade Federal de Sergipe (UFS). Houve ainda a presença de uma equipe da gelateria artesanal Il Sordo, uma empresa formada majoritariamente por pessoas surdas, que promove a acessibilidade oferecendo gelatos, picolés e doces nas suas lojas de Aracaju, Salvador (BA) e São Paulo (SP).
“A importância dessa iniciativa é mostrar que a Unit está focada na inclusão da pessoa surda, bem como na formação dos profissionais. Nós estamos comemorando os 24 anos da Lei de Libras, que é um marco na história da comunidade surda e dos profissionais da área de Libras. É importante salientar que a comunidade surda está aqui presente, dividindo conosco as suas experiências. Tudo isso toca os nossos alunos e gera engajamento, para que ele tenha noção da importância de aprender a língua de sinais e prestar um bom serviço à comunidade”, acrescenta Kathia.
Empatia e inclusão
Durante a mostra, houve uma palestra temática ministrada por Gabriela Cardoso da Silva, professora e tradutora de Libras como L1, isto é, tendo a Libras como seu idioma principal. Ela atua em escolas da rede estadual de ensino, como a Escola Estadual 11 de Agosto, em Aracaju. Nascida em Recife (PE) e radicada em Aracaju há alguns anos, Gabriela conta que procurou mostrar aos alunos da Unit um pouco da sua experiência de vida como professora e como pessoa surda. E procurou chamar a atenção para a importância de aprender a Libras para garantir uma melhor comunicação e inclusão para as pessoas da comunidade.
“Quero mostrar a todos os alunos que eles precisam aprender a língua de sinais. A vida do surdo é muito difícil por falta de comunicação em Libras. Se eu for no hospital, por exemplo, as pessoas não sabem libras, e a gente usa muito gesto. Então, eu vim aqui dar consciência de que o principal meio de comunicação do surdo é através da Libras, e que, sem ela, há uma barreira muito grande. É importante que os espaços e os serviços tenham intérprete e a comunicação em Libras, pois sempre a gente precisa fazer isso de forma particular”, argumentou a palestrante.
Uma das participantes da mostra foi a estudante Lorena Monise Feitosa Lima, do sexto período de Nutrição, que estudou Libras como uma matéria obrigatória em seu curso. “Eu acho que deve ser obrigatório em todos os cursos, porque, muitas vezes, a gente se depara com pessoas que têm dificuldade de fala, não consegue se comunicar. Muitas pessoas confundem Libras com mímica, mas eu não queria ser uma delas. Eu queria entender um pouco do mundo deles e me comunicar um pouco melhor”, diz Lorena, que fez para a Mostra um banner explicativo sobre o conceito da Libras, a legislação pertinente e noções sobre o uso dos números e do alfabeto. “Acredito que a empatia é o principal ponto na questão do aprendizado. É colocar-se no lugar do outro ser reconhecido e perceber que realmente a dificuldade deles não é um problema”, considerou ela.
A importância de uma maior qualificação dos profissionais para se comunicar em Libras também foi destacada pelo pró-reitor de Graduação da Unit, professor Ronaldo Linhares, ao fazer a abertura da Mostra. “Todos nós precisamos nos comunicar, mas quando a gente tem pessoas com dificuldades de comunicação, a gente estabelece novos formatos, novas estratégias, novos instrumentos. A Língua de Sinais é uma estratégia, é um instrumento e é um direito reconhecido que o país coloca também como forma de reconhecimento das demandas, das necessidades individuais de cada sujeito que tem dificuldades para se comunicar numa sociedade onde a comunicação oral é dominante. Estar com vocês aqui é muito importante para a gente reforçar esse direito. E muito mais importante ainda porque as atividades expostas foram desenvolvidas aqui na universidade por alunos que passaram a conviver com essa demanda, com essa necessidade”, considerou Linhares.
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