O desenvolvimento de biotintas com hidrogeis e nanomateriais para a construção de tecidos cardíacos levou uma aluna de pós-graduação da Universidade Tiradentes (Unit) para o doutorado-sanduíche na Irlanda. Érika Santos Lisboa, que cursa o terceiro ano do Doutorado em Biotecnologia pela Rede Nordeste de Biotecnologia (Renobio/Unit), concluiu recentemente a sua fase de pesquisas e estudos na University College Dublin (UCD), sediada em Dublin (capital do país) e considerada uma das principais universidades de pesquisa intensiva da Europa. A etapa durou um ano e terminou agora em abril, quando Érika voltou para Aracaju.
A oportunidade para estudar em Dublin surgiu por meio do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE), com bolsa concedida pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Ela foi viabilizada através de uma parceria do Laboratório de Nanotecnologia e Nanomedicina (LNMed), do Instituto de Tecnologia e Pesquisa (ITP), com outros dois grupos relacionados: o Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), ligado à Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN); e o da School of Chemical and Bioprocess Engineering, da UCD, que é chefiado pela professora portuguesa Eliana Barbosa Souto.
“A Irlanda foi escolhida como destino em razão da parceria do nosso laboratório na Unit com a professora Eliana Souto. Por se tratar de uma colaboração de longa data, a definição do local seguiu essa orientação internacional já consolidada. A vivência na Irlanda se correlaciona com a minha tese principalmente pela estrutura da universidade, que é de ponta e possui grande potencial de caracterização, o que me permitiu avançar na parte de nanomateriais do meu trabalho”, diz a doutoranda sobre a UCD, criada inicialmente como instituição católica de ensino, em 1854, e posteriormente incorporada à estrutura da National University of Ireland (NUI).
A instituição irlandesa conta hoje com mais de 38 mil estudantes vindos de 152 países, incluindo cerca de 5 mil alunos que residem fora da Irlanda. Já a escola da UCD é apontada como referência mundial em estudos relacionados à nanotecnologia e a bioprocessos. “O contato com outros pesquisadores e com outras linhas de pesquisa contribuiu para ampliar minha visão sobre o projeto e me ajudou a pensar melhor os direcionamentos da tese. A experiência com outra língua também foi importante, porque fortaleceu minha comunicação científica e minha capacidade de acompanhar discussões e pesquisas em um contexto internacional”, ressalta Érika.
Se a expertise da universidade e da equipe já eram conhecidos da doutoranda, as surpresas ficaram por conta do país e da cidade. Para ela, o destino foi uma grata surpresa. “Nunca havia considerado a Irlanda como uma possibilidade, mas o país rapidamente me conquistou. Hoje, é um lugar pelo qual tenho grande admiração e, se houver oportunidade, certamente retornarei para aproveitá-lo ainda mais. Apesar do clima frio e dos dias frequentemente chuvosos, Dublin possui um charme singular que me encantou profundamente”, comentou, ao descrever a cidade de 592 mil habitantes que é considerada uma das 30 mais globalizadas do mundo.
Localizado na maior parte da Ilha da Irlanda, o país se formou a partir das ocupações dos povos celtas, há mais de 1.600 anos a.C, e pertenceu durante mais de 700 anos ao Reino Unido da Grã-Bretanha, com quem travou uma guerra de independência entre 1919 e 1922. Hoje, a Irlanda tem o segundo maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do mundo e uma economia forte, baseada nas indústrias farmacêutica, energética e informática. Ela têm atraído muitos brasileiros para estudo ou trabalho, além de ser conhecida por suas altas montanhas, seus campos verdes, vários tipos de cerveja, a Festa de São Patrício (em 17 de março) e nomes da música (como Sinead O’Connor, Enya, U2 e The Cranberries) e da literatura (como James Joyce, Oscar Wilde, Samuel Beckett e George Bernard Shaw).
A pesquisa da tese
A tese que está sendo desenvolvida por Érika Lisboa, com orientação das professoras Patrícia Severino (PBS/Renorbio/Unit) e Eliana Souto (UCD), é focada no desenvolvimento de biotintas para bioimpressão 3D, utilizando hidrogéis associados a nanomateriais, como o óxido de grafeno, com aplicação em engenharia de tecidos cardíacos. De acordo com a aluna, o objetivo é obter sistemas com propriedades adequadas para bioimpressão e que também favoreçam a funcionalidade do tecido in vitro, como suporte estrutural, condutividade e interação celular.
O projeto é um avanço das pesquisas que Érika já vinha realizando na Unit, durante o mestrado em Biotecnologia Industrial cursado entre 2022 e 2024. Na ocasião, a dissertação foi sobre o desenvolvimento de um hidrogel de gelatina metacrilolada (GelMA) incorporado com nanofios de platina para a aplicação na produção de um tecido cardíaco 3D eletrocondutivo. Desta vez, está sendo usado um outro material: nanopartículas de óxido de grafeno funcionalizado com polifenóis, para engenharia de tecidos cardíacos e triagem de fármacos. Segundo ela, a pesquisa avançou significativamente nesta etapa.
“Agora, o foco está na produção de hidrogéis e na realização de ensaios in vitro para avaliar a citocompatibilidade. O objetivo final é aplicar esses hidrogéis na área cardíaca, buscando, ao término do estudo, a obtenção de tecidos in vitro voltados à engenharia de tecidos cardíacos”, confirma a doutoranda, indicando que tais tecidos podem ser destinados à recuperação de pessoas com doenças cardiovasculares, usando biomateriais para substituir ou reparar tecidos do coração. “Esse estudo tem impacto relevante na saúde, pois contribui para o desenvolvimento de biomateriais biocompatíveis com potencial aplicação na regeneração de tecidos cardíacos. No futuro, isso pode resultar em terapias mais eficazes para doenças do coração, além de reduzir testes em animais e acelerar o desenvolvimento de novos tratamentos”, acrescenta.
A tese está relacionada à área de Biotecnologia em Saúde, um dos eixos que formam a Renorbio. “Ao envolver o desenvolvimento de biotintas à base de hidrogéis e nanomateriais para aplicação em engenharia de tecidos cardíacos, traz a aplicação na área da saúde. Além disso, o uso do óxido de grafeno aproxima o trabalho da nanobiotecnologia, enquanto a bioimpressão 3D insere o estudo no campo da bioengenharia. Além disso, a possibilidade de aplicação desses sistemas tanto na regeneração tecidual quanto na construção de modelos in vitro para testes farmacológicos mostra o potencial do trabalho para o desenvolvimento de novas tecnologias em saúde”, destacou Érika.
Mesmo antes de concluída, a pesquisa de Érika ganhou destaque nacional e a fez ser escolhida entre as vencedoras do prêmio “25 Mulheres na Ciência da América Latina”, promovido pela 3M. A previsão é de que a tese na Unit seja defendida no final de 2027. Após isso, a egressa da Unit pretende se candidatar a bolsas de pós-doutorado, inclusive no exterior, e construir uma carreira profissional como professora e pesquisadora universitária. Uma trajetória que ela acredita que será impulsionada pelo que aprendeu em seu período de vivência e estudos na Irlanda.
“A experiência do doutorado-sanduíche reforçou meu desejo de retornar e continuar minha trajetória internacional. Foi extremamente enriquecedora, tanto científica quanto pessoal, com acesso a tecnologias avançadas e um ambiente mais internacional e colaborativo. A doutoranda que retorna ao Brasil volta mais confiante e preparada, após toda a experiência vivida. Em comparação com a Unit, a principal diferença está na infraestrutura e na intensidade dessas colaborações internacionais. Ainda assim, a Unit foi fundamental para minha formação e para que eu pudesse chegar a essa experiência”, conclui Érika, que levará adiante o que define como uma “verdadeira paixão por pesquisa, pela construção de ideias e pela resolução de problemas”.
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