A inteligência artificial já não pertence apenas ao domínio da tecnologia, ela invade o campo da biologia, da psicologia e até do movimento humano. Cada vez mais, as máquinas observam, aprendem e interpretam o corpo: seu ritmo, suas reações e seus limites. O desafio, agora, é compreender como essa revolução digital pode servir à promoção da saúde e do bem-estar, e não apenas à eficiência técnica.
É com essa provocação que o 18º Congresso Internacional de Motricidade Humana (CIMH) chega ao Brasil, tendo a Universidade Tiradentes (Unit) como sede desta edição, realizada entre 22 e 24 de outubro, em Aracaju (SE). Sob o tema “Saúde, Esportes e Inovação: A Era da IA na Construção de Sociedades Saudáveis”, o evento reúne representantes de 15 países e 35 universidades, debatendo as transformações tecnológicas que impactam diretamente o corpo humano e suas formas de expressão, movimento e aprendizado.
De acordo com o professor Estélio Dantas, docente do curso de Medicina da Universidade Tiradentes (Unit), coordenador do Laboratório de Biociências da Motricidade Humana (LABIMH) e um dos organizadores do evento no Brasil, o CIMH reúne profissionais e pesquisadores de diferentes áreas em torno do estudo do movimento humano. “A motricidade humana é um campo amplo e interdisciplinar, que envolve todas as formas de movimento e suas relações com a saúde física, mental e social. O congresso promove a integração entre diversas áreas do conhecimento, fundamentais para compreender o comportamento e o movimento humano”, destaca o professor.
Segundo ele, a escolha da inteligência artificial como eixo central da discussão se deve ao impacto profundo que essa tecnologia vem provocando nas relações humanas e profissionais. “Assim como aconteceu com a invenção da escrita ou da imprensa, marcos que dividiram a história em ‘antes e ‘depois’ a IA representa uma mudança profunda na forma como vivemos e nos relacionamos. Os espaços profissionais, as relações humanas e as formas de atuação estão sendo completamente transformados por essa tecnologia. Por isso, nós, pesquisadores da motricidade humana, precisamos compreender de que forma essas mudanças impactam nossa área, quais adaptações serão necessárias e como podemos evoluir junto com essas inovações”, elenca.
Tecnologia e longevidade
Entre os convidados internacionais, a professora Anita Hokelmann, neurocientista e especialista em ciência esportiva na Universidade Otto von Guericke de Magdeburg (Alemanha), apresentou uma abordagem inovadora sobre atividade física em idosos com demência. “Desenvolvemos um equipamento chamado dance trolley, ou dance rollator, que permite que pessoas com demência ou Parkinson se movimentem com segurança. A dança e o movimento estão intimamente ligados, e proporcionar essa autonomia traz benefícios imensos à saúde física e mental”, destacou.
Hokelmann, que visita Aracaju pela segunda vez (a primeira foi em 2017) enfatiza que a troca científica entre continentes é um dos maiores ganhos do evento. “O CIMH é uma oportunidade rara de aprendizado mútuo. Entender o que está sendo desenvolvido em diferentes partes do mundo é essencial para o avanço da ciência global e para criar soluções adaptadas a cada contexto cultural”, disse.
Inteligência artificial no esporte
Outro ponto da programação é a palestra do professor Miguel Angel Narvaez Silva, da Colorado State University Pueblo (EUA), que explora o uso da inteligência artificial no treinamento esportivo. Para ele, a tecnologia representa um salto de eficiência, mas exige responsabilidade no uso dos dados. “A IA permite integrar e analisar informações de forma rápida e individualizada, otimizando o desempenho dos atletas e possibilitando estratégias mais eficazes. O desafio é equilibrar o potencial técnico com a ética e a segurança da informação”, explicou.
Narvaez ressalta que eventos como o CIMH são fundamentais para criar pontes entre o conhecimento acadêmico e a formação de novas gerações. “É a minha primeira vez aqui e estou muito animado em dialogar com estudantes brasileiros. Esse tipo de troca é o que forma líderes conscientes, capazes de usar a tecnologia de forma humana e colaborativa”, acrescentou.
Genética, mente e movimento
A relação entre corpo, genética e ambiente também ganhou destaque com a participação do professor Robert Wood, da Boise State University (EUA). Ele apresentou uma reflexão sobre o papel da inteligência artificial na interpretação de dados genéticos e epigenéticos aplicados à saúde e ao exercício físico. “A quantidade de informações genéticas disponíveis hoje é imensa. A IA nos permite compreender como o ambiente, o estresse e os hábitos moldam a expressão genética e, consequentemente, o comportamento e o movimento humano”, observou.
Wood também discutiu o conceito de “acelerador de educação”, que relaciona aprendizado, atividade física e estímulos ambientais. “Entender como o corpo responde ao mundo nos ajuda a desenvolver práticas que potencializam o desempenho físico e cognitivo. A IA é uma ferramenta-chave para modelar esses processos de forma mais precisa e eficiente”, completou.
Novas gerações e consciência tecnológica
O congresso também desperta entusiasmo entre os estudantes que participam das atividades na Unit. Para Sérgio Gabriel Batista, aluno de Educação Física, o evento é uma experiência transformadora. “É um congresso de alcance internacional que traz um aprendizado enorme. A IA está presente nas universidades e nas práticas esportivas, e precisamos aprender a usá-la como ferramenta, não como dependência”, pontuou.
Para ele, o contato direto com pesquisadores de diversos países amplia horizontes e estimula uma visão crítica sobre o futuro da profissão. “A presença desses especialistas aqui em Aracaju é inspiradora. A gente passa a enxergar o movimento humano de maneira global, com consciência, ciência e propósito”, completou.
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