Um artefato que atravessa o céu impulsionado por fogos de artifício, iluminando as noites juninas e grupos que se organizam em cortejos marcados por dança, música e simbologia religiosa compõem duas das mais expressivas manifestações culturais de Sergipe. De um lado, o Barco de Fogo, tradição consolidada no município de Estância; de outro, o Cacumbi, expressão presente em Laranjeiras e ligada à herança afro-brasileira.
Ambas, construídas a partir de saberes coletivos e transmitidas ao longo de gerações, agora passam a ser reconhecidas como manifestações da cultura nacional, após aprovação na Comissão de Educação do Senado, o que amplia sua visibilidade e reforça sua importância no patrimônio imaterial brasileiro.
O Barco de Fogo se destaca como um dos principais símbolos dos festejos juninos sergipanos pelo processo artesanal que envolve sua produção. A estrutura, geralmente confeccionada com madeira, papel e materiais pirotécnicos, é fixada a um cabo de aço e percorre esse trajeto impulsionada por fogos de artifício, criando um espetáculo dinâmico que combina técnica, precisão e criatividade popular.
A tradição teve início na década de 1930, em Estância, e desde então é mantida por fogueteiros que dominam conhecimentos específicos, transmitidos de forma prática entre gerações. Além do valor simbólico, o Barco de Fogo também desempenha papel relevante na economia local, especialmente durante o ciclo junino, período em que atrai visitantes, movimenta o comércio e consolida o município como referência nas celebrações tradicionais do Nordeste.
O Cacumbi, por sua vez, representa uma manifestação que articula dança, música e religiosidade, sendo uma das expressões mais significativas da cultura popular de Laranjeiras. Associado às celebrações de São Benedito, o folguedo reúne elementos que evidenciam a influência afro-brasileira, tanto nos ritmos quanto nas coreografias e nos figurinos utilizados pelos participantes. As apresentações são marcadas por movimentos coordenados, cantos tradicionais e uma organização coletiva que reforça o sentimento de pertencimento entre os integrantes.
Reconhecimento
O reconhecimento do Barco de Fogo e do Cacumbi como manifestações da cultura nacional representa um avanço importante no processo de valorização dessas práticas, ao garantir maior visibilidade e respaldo institucional. A medida contribui para a ampliação de políticas públicas voltadas à preservação do patrimônio imaterial, possibilitando o desenvolvimento de ações de salvaguarda, incentivo financeiro e projetos educativos que promovam o conhecimento e a continuidade dessas tradições.
Além disso, o reconhecimento tende a impulsionar o turismo cultural em Sergipe, ao destacar manifestações que já possuem relevância regional e que agora passam a integrar um circuito de maior projeção, atraindo visitantes interessados em experiências culturais autênticas e contribuindo para a geração de emprego e renda nos municípios envolvidos.
Patrimônio vivo e identidade cultural brasileira
O Barco de Fogo e o Cacumbi exemplificam o caráter dinâmico do patrimônio imaterial, que se mantém vivo por meio da prática contínua e do envolvimento das comunidades que o produzem. Diferentemente de bens materiais, essas manifestações dependem diretamente das pessoas para existir, o que torna sua preservação um processo coletivo e permanente.
Ao serem reconhecidas em âmbito nacional, essas expressões ganham não apenas legitimidade, mas também novas possibilidades de continuidade, reforçando a importância da cultura popular na construção da identidade brasileira. Nesse contexto, Sergipe se destaca ao evidenciar a riqueza e a diversidade de suas tradições, contribuindo para um panorama cultural mais amplo, no qual diferentes histórias, práticas e saberes encontram espaço e reconhecimento.
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