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Ciclo de Debates analisa a ascensão da ultradireita e impactos no Mercosul

Pesquisadores do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos discutem repercussões políticas e sociais das gestões de Milei e Bolsonaro na América Latina

às 21h30
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O avanço de forças ultraconservadoras na América do Sul vem reconfigurando alianças políticas, tensionando as relações regionais e remodelando a compreensão sobre direitos humanos. Entre os desdobramentos mais evidentes desse movimento estão as mudanças na dinâmica do Mercosul e o questionamento de seus pilares de cooperação. Esse cenário ganha contornos nítidos quando analisado a partir das gestões de Javier Milei, na Argentina, e Jair Bolsonaro, no Brasil, que impulsionaram discursos céticos sobre o bloco e ampliaram o distanciamento entre países vizinhos.

Em meio a esse cenário, o tema foi colocado no centro do último ciclo de debates do semestre do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos da Universidade Tiradentes (PPGD/Unit). O encontro, conduzido pelo professor convidado Cairo Junqueira, docente de Relações Internacionais da Universidade Federal de Sergipe (UFS), examinou criticamente o papel de Milei e Bolsonaro enquanto expoentes dessa reviravolta política, além dos reflexos sobre o Mercosul e os desafios para a proteção e a compreensão contemporânea dos direitos humanos na América Latina.

O professor do PPGD da Unit, Fran Spinoza, destacou que o atual mapa político latino-americano demonstra uma retomada estruturada de governos alinhados à direita, o que exige análise criteriosa em um momento de iminentes mudanças no Brasil. Segundo ele, compreender essas movimentações é fundamental para avaliar quais caminhos os países da região poderão seguir nos próximos anos, especialmente diante das chances reais de reeleição de Milei na Argentina.

Fran explicou que a escolha do tema parte da necessidade de qualificar o olhar dos estudantes sobre o cenário político e suas intersecções com as pautas humanitárias. “Queremos que nossos estudantes compreendam esse novo mapa político, como ele está se estruturando e influenciando a América Latina. Além disso, teremos eleições no próximo ano no Brasil, cujos resultados serão determinantes”, observou. Ele reforçou que a proposta é estimular reflexões críticas sobre a relação entre ideologia política e direitos humanos, preparando a comunidade acadêmica para interpretar contextos complexos.

Mercosul em disputa

Durante o debate, o professor Cairo Junqueira concentrou sua análise na ascensão da ultradireita no sistema internacional e nos reflexos diretos sobre o projeto de integração regional. A partir da avaliação dos governos de Milei e Bolsonaro, ele apontou como discursos e ações políticas contestaram pilares do Mercosul, criado em 1991 com o propósito de fomentar cooperação econômica, integração comercial e diálogo político.

“O alinhamento desses governos a perspectivas céticas sobre processos multilaterais contribuiu para o enfraquecimento do bloco, que enfrenta hoje reconfigurações importantes. Observamos como suas ações tensionam a dinâmica do Mercosul, especialmente no que diz respeito às críticas, ao ceticismo e ao enfraquecimento dos processos de integração e cooperação entre os países. Esse movimento tem implicações diretas na capacidade dos países de atuarem de forma conjunta e solidária diante de desafios regionais”, explica.

O pesquisador ressaltou ainda que os impactos não se restringem ao âmbito econômico. O questionamento de instituições e de princípios liberais que estruturaram as democracias sul-americanas nas últimas décadas tem levado a disputas profundas sobre o significado e o alcance dos direitos humanos. Para Cairo, o fenômeno exige análise contínua e multidisciplinar, sobretudo porque revela novas formas de utilização política da linguagem dos direitos.

Direitos humanos em transformação

Cairo observou que a contestação às bases liberais, intensificada após a Segunda Guerra Mundial, tem provocado redefinições conceituais sobre o que constitui a proteção dos direitos humanos. “A ultradireita normalmente ataca princípios centrais da ordem liberal, entre eles a defesa da democracia e dos direitos humanos. Esse campo político tende a criticar e, muitas vezes, redefinir o entendimento sobre tais pautas”, destaca.

Essa mudança de abordagem se reflete em políticas públicas, discursos institucionais e práticas governamentais que impactam diretamente populações vulneráveis. No caso sul-americano, as tensões entre interpretações de direitos e ideologias políticas tornam o tema especialmente sensível. “Esses debates reforçam a necessidade de pesquisas aprofundadas sobre as contradições entre discurso e prática governamental, analisando como a agenda de direitos se estrutura nos territórios. A partir desse entendimento, é possível construir instrumentos de avaliação sobre a consistência democrática dos regimes e suas capacidades de proteger garantias básicas”, pontua Cairo.

Formação crítica 

Para a mestranda em Direitos Humanos, Eloízia Castro, a oportunidade de dialogar com especialistas enriquece o aprendizado e conecta teoria e prática. “O ciclo de debates é extremamente relevante para mestrandos e doutorandos, pois nos permite discutir a América Latina dentro do contexto global em que estamos inseridos. Essa troca, conduzida por especialistas como o professor de Relações Internacionais, proporciona uma fusão entre direitos humanos e relações internacionais, ampliando nosso aprendizado”, ressalta.

Eloízia destaca ainda a relação direta do tema do ciclo com sua pesquisa. Ela estuda os reflexos do autoritarismo na América Latina e vê nas discussões uma forma de expandir suas perspectivas. “Ainda não defini todos os países, mas certamente incluirei o Brasil. As discussões contribuem para compreendermos como o ultraconservadorismo se relaciona com bases autoritárias. Esse espaço nos provoca a refletir sobre temas que talvez não pensássemos sozinhos, ampliando perspectivas, despertando novas ideias e contribuindo para nossa formação”, completa.

A doutoranda em Direitos Humanos, Gabriela de Meneses, destacou como o ciclo de debates contribui para a consolidação de pesquisas acadêmicas “O ciclo de debates é essencial porque fortalece nosso repertório, amplia perspectivas sobre direitos humanos e conecta questões sociais e culturais dos países da América Latina. Esses debates trazem exemplos concretos, músicas, notícias e acontecimentos globais que ajudam a contextualizar os fenômenos discutidos. Além disso, os palestrantes convidados, com suas experiências específicas, enriquecem nossa visão e oferecem subsídios importantes para dissertações e teses”, compartilha.

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