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Entre mágoas e silêncios: por que algumas famílias chegam ao rompimento?

Diferenças de valores, conflitos acumulados e relações desgastadas estão entre os fatores que levam ao rompimento entre parentes; professor analisa as causas do distanciamento familiar, os efeitos na saúde mental e os caminhos possíveis para a reconciliação

às 19h25
Na maioria dos casos, o rompimento entre familiares não se dá de forma imediata, e sim como resultado de uma longa soma de pequenos conflitos (Imagem criada por  Gemini IA)
Na maioria dos casos, o rompimento entre familiares não se dá de forma imediata, e sim como resultado de uma longa soma de pequenos conflitos (Imagem criada por Gemini IA)
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“No centro da sala, diante da mesa / No fundo do prato, comida e tristeza / A gente se olha, se toca e se cala / E se desentende no instante em que fala”. Os versos da música “Na hora do almoço”, composta e gravada em 1974 pelo cantor cearense Belchior, desenham claramente um delicado momento vivido no seio de muitas famílias: o desgaste das relações, que muitas vezes culminam em rompimentos de laços, tão traumáticos quanto definitivos. De um lado, os que se sentem sufocados e massacrados pelo peso das imposições e idiossincrasias de cada família. Do outro, os que se sentem afrontados e atingidos por arroubos de rebeldia e ingratidão. E no centro da mesa, a razão dá lugar à uma abundância de mágoas e ressentimentos. 

O caso famoso mais recente de rompimento familiar teve como protagonista o ex-jogador de futebol britânico David Beckham e sua esposa, a cantora Victoria Beckham. Eles foram rejeitados publicamente pelos filhos, que os acusaram de tentarem interferir em seus relacionamentos amorosos, atacando seus parceiros. No Brasil, destacou-se o caso da atriz Larissa Manoela, em 2023, que anunciou ter aberto mão de praticamente todo o próprio patrimônio para se afastar dos pais, alegando falta de autonomia na administração das próprias finanças e da própria carreira. Mas estes não são os únicos motivos que levam ao desgaste e ao distanciamento das relações familiares em geral. 

Segundo o professor Francisco Vitor Soldá, do curso de Psicologia da Universidade Tiradentes (Unit), ele tende a ser resultado de um acúmulo de fatores ao longo do tempo, como comunicação ineficaz e conflitos não resolvidos. “Diferenças de valores, estilo de vida, orientação religiosa e/ou política, vividas com muita crítica, desqualificação e/ou desrespeito também podem se somar. Em outras experiências, situações que envolvem abuso físico, emocional e/ou sexual, negligência, humilhação ou controle excessivo por parte de algum membro da família também são contribuintes. De forma cumulativa, contextos que envolvem problemas de saúde mental, dependência química, ou comportamentos autodestrutivos em alguém da família, também tendem a contribuir na geração de desgaste contínuo”, cita Soldá, acrescentando os eventos que reconfiguram alianças familiares, como divórcios conflituosos, novos casamentos e conflitos com genros/noras e enteados. 

O distanciamento se caracteriza pela redução significativa de contato, intimidade e apoio entre integrantes da mesma família, e quando a qualidade da relação é vista como insatisfatória por pelo menos uma das partes. Conforme o professor, ele pode ser físico, abrangendo mudança de casa, cidade ou país, com pouco ou nenhum contato; e emocional, quando as relações tendem a ser marcadas por frieza, vínculos superficiais ou protocolares, e uma sensação de invisibilidade. “Em casos mais extremos, esse distanciamento tende a se configurar como um estranhamento e/ou rompimento familiar, quando as relações familiares passam a ser quase inexistentes, podendo incluir uma ausência de convívio e/ou vinculação afetiva/emocional. É importante considerar que nem sempre o distanciamento é um ‘capricho’. Essa dinâmica, muitas vezes, surge como uma estratégia de autopreservação diante de relações percebidas como abusivas, invasivas, não construtivas e/ou muito conflitivas”, atesta Francisco.

De crise em crise…

Na maioria dos casos, o rompimento entre familiares não se dá de forma imediata, e sim como resultado de uma longa soma de pequenos conflitos, levando à redução das interações e o afastamento progressivo. O psicólogo explica que ela começa geralmente na fase de tensão, com críticas frequentes, piadas ofensivas, reclamações, disputas de controle e/ou sensação de injustiça. “A fase da proteção começa quando a pessoa começa a evitar certos assuntos, visitas mais prolongadas e/ou situações em que acredita que haverá conflito. A fase do afastamento é percebida quando os contatos são reduzidos, as respostas são geradas de forma direta, as relações se tornam neutras do ponto de vista emocional, até o momento em que ela se torna distante ou é interrompida”, descreve Soldá.

Há ainda a reação contrária manifestada à busca desses familiares por independência, autonomia e coerência de vida com seus valores, identidades e escolhas pessoais. De acordo com Soldá, algumas pesquisas sobre afastamento entre pais e filhos adultos apontam rupturas associadas a desacordos sobre carreira, parceiros afetivos, religião, identidade de gênero e/ou orientação sexual. “Quando os filhos sentem que, para permanecer próximos da família, precisariam “abrir mão de quem são”, o distanciamento se apresenta como possibilidade, especialmente ao visualizarem essa alternativa como meio de proteção. Neste sentido, entende-se que o conflito não nasce da decisão de se tornar independente em si, mas da forma como a família lida com essa individuação”, exemplifica. 

Essa forma de lidar é justamente o que tende a agravar os conflitos na família. O processo quase sempre vem acompanhado por sentimentos considerados difíceis, como mágoa, raiva, tristeza, culpa, vergonha e sensação de perda. Popularmente, algumas pessoas descrevem esse processo como um “luto de alguém vivo”. Já a literatura científica sugere a ocorrência de dois desdobramentos. Em parte dos casos, o afastamento familiar pode impactar negativamente a saúde mental, aumentando os sintomas de solidão, depressão, ansiedade e redução da autoestima e do senso de pertencimento. E em outros casos que envolvem relações abusivas, algumas pessoas relataram melhoria da saúde mental após o afastamento, por conta da diminuição da violência e do estresse crônico. 

“Isso sugere que o distanciamento pode ser doloroso, mas também protetivo em certos contextos. As evidências apontam que o afastamento pode surgir como uma resposta a experiências acumuladas de dor, desrespeito, abuso, expectativas impossíveis/irrealistas ou falta de acolhimento”, destaca Francisco, ao explicar como essas situações são vistas à luz da Psicologia. “O profissional deve incluir em uma análise toda a complexidade da situação e considerar de que forma a manutenção de contato significaria continuar exposto a experiências de violência, homofobia, racismo, controle extremo, ou outros tipos de sofrimento. E que os pais também podem se afastar de filhos quando se sentem desrespeitados, agredidos e/ou sobrecarregados. A Psicologia busca entender o que essa pessoa está tentando proteger e/ou quais feridas e padrões de relação levaram a essa decisão”, completa o professor. 

E como reconstruir?

O processo de reconstrução dos laços familiares rompidos é considerado tão difícil quanto o rompimento. Ele exige paciência, abertura para ouvir e total disposição para acolher e perdoar o outro. De acordo com Soldá, as pesquisas indicam que a reaproximação é possível, mas tende a ser lenta e gradual, exigindo mudanças significativas e realistas de comportamento, e não apenas pedidos genéricos de desculpa. “Muitas reconciliações podem levar anos, com fases de aproximação e afastamento, até encontrar um formato de relação que faça sentido para todas as pessoas envolvidas no conflito. E é válido destacar que algumas famílias, mesmo após reaproximação, não voltam a ser “íntimas”, mas constroem uma convivência mais respeitosa e menos conflituosa, o que já pode representar um grande começo”, acredita o psicólogo. 

Sobre os passos que cada pessoa pode seguir ao tentar reconstruir os laços e as relações familiares, o professor começa recomendando a realização de contatos e encontros curtos, rápidos e previsíveis, sem tentar recuperar os vínculos de forma imediata e/ou a qualquer custo. Em seguida, quando a confiança um no outro já estiver mais próxima, o próximo passo é uma conversa tranquila e sincera, nomeando com respeito o que foi doloroso e o que precisa ser diferente para que a relação seja viabilizada, sem se apegar ao passado. Outros caminhos a seguir estão em assumir responsabilidades específicas, em vez de desculpas genéricas; e estabelecer limites claros na relação.

Em casos mais extremos de crise nas relações familiares, nos quais a saúde mental das pessoas envolvidas fica abalada, será preciso a ajuda de um profissional de saúde mental, que pode conduzir terapias individuais ou em família. Isso é indicado sobretudo para situações que envolvem histórico de abuso, violência ou traumas; ou tentativas de diálogo que terminam em agressões, ameaças ou silêncio absoluto. Em alguns casos, é indicado que a psicoterapia comece de forma individual, para fortalecer recursos emocionais, antes de tentar uma conversa mediada com outros membros da família. Em outros, a psicoterapia familiar pode oferecer um espaço mais seguro para que cada um fale e escute, com a ajuda de um profissional para organizar o diálogo.

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