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Erros na cozinha aumentam risco de doenças transmitidas por alimentos

Falta de higiene, armazenamento inadequado e práticas comuns no preparo favorecem contaminações e podem causar problemas de saúde

às 19h39
Carla Souza- Nutricionista e professora da Universidade Tiradentes
Carla Souza- Nutricionista e professora da Universidade Tiradentes
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Náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e febre estão entre os sintomas mais comuns das Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs), que podem surgir poucas horas após a ingestão de alimentos contaminados ou até dias depois, dependendo do agente envolvido. Em casos mais graves, essas doenças podem evoluir para desidratação intensa, infecções sistêmicas e complicações que exigem atendimento médico, especialmente entre crianças, idosos, gestantes e pessoas com a imunidade comprometida.

Segundo a nutricionista e professora da Universidade Tiradentes (Unit), Carla Souza, esse cenário está diretamente ligado à falta de controle sanitário dentro de casa. “A maioria dos surtos ocorre no ambiente doméstico porque há menor controle sanitário comparado ao setor alimentício regulamentado. Em casa, fatores como ausência de treinamento em boas práticas, falhas na higiene, armazenamento inadequado e controle insuficiente de temperatura favorecem a proliferação de microrganismos patogênicos. Além disso, há subnotificação de casos leves, o que faz com que surtos domésticos sejam mais frequentes, porém menos rastreados formalmente”, explica.

A familiaridade com o ambiente doméstico acaba criando uma falsa percepção de segurança durante o preparo dos alimentos, o que contribui para negligenciar cuidados básicos. De acordo com Carla Souza, essa “zona de conforto” impacta diretamente nos hábitos do dia a dia. “A manipulação doméstica frequentemente ocorre sob uma percepção equivocada de segurança, baseada na familiaridade com o ambiente e nos alimentos consumidos. Essa ‘zona de conforto’ reduz a adesão a práticas seguras, como higienização adequada das mãos, controle de temperatura e prevenção de contaminação cruzada, medidas que são obrigatórias em serviços de alimentação”, destaca.

Erros comuns na cozinha

Entre os principais problemas observados nas cozinhas brasileiras estão práticas simples, mas que fazem grande diferença na segurança alimentar. A especialista aponta que falhas recorrentes incluem “lavagem inadequada das mãos, uso de panos de prato contaminados em vez de papel descartável, manipulação simultânea de alimentos crus e prontos, higienização incorreta de superfícies e utensílios, armazenamento inadequado na geladeira, descongelamento em temperatura ambiente e a não higienização correta de frutas e hortaliças”, explica.

Um hábito bastante comum nas cozinhas brasileiras, lavar carnes antes do preparo, pode trazer mais riscos do que benefícios. Carla Souza alerta que essa prática deve ser evitada. “Lavar carnes não é recomendado e pode aumentar o risco de contaminação. Esse hábito favorece a dispersão de microrganismos, como Salmonella spp. e Campylobacter spp., por respingos na pia, superfícies e utensílios, promovendo contaminação cruzada. O cozimento adequado é a única forma eficaz de eliminar patógenos presentes na carne”, afirma.

Higienização correta de frutas e verduras

Outro ponto crítico é a limpeza inadequada de alimentos consumidos crus, como frutas, verduras e legumes. Segundo a nutricionista, o processo deve seguir etapas específicas para garantir segurança. “O processo correto envolve lavagem em água corrente para remover sujidades visíveis, imersão em solução clorada por 10 a 15 minutos e, por fim, enxágue em água potável. Esse processo reduz significativamente a carga microbiana, incluindo patógenos e parasitas”, orienta.

A forma como os alimentos são armazenados também tem impacto direto na ocorrência de DTAs. Temperatura inadequada e organização incorreta da geladeira são problemas frequentes. “Entre os erros mais  comuns estão: geladeira com temperatura acima de 5 °C, armazenamento de alimentos crus junto a alimentos prontos, falta de vedação adequada, excesso de alimentos que prejudica a circulação de ar frio, armazenamento prolongado de sobras e desrespeito à validade após abertura”, pontua.

Descongelar alimentos fora da geladeira é outra prática que favorece a proliferação de bactérias, colocando o alimento em uma faixa de temperatura considerada ideal para contaminação. “Ao descongelar em temperatura ambiente, o alimento entra na chamada ‘zona de perigo’, entre 5 °C e 60 °C, ideal para multiplicação rápida de bactérias. O correto é descongelar sob refrigeração, no micro-ondas para preparo imediato ou sob água corrente fria”, explica.

Além disso, evitar a contaminação cruzada é essencial durante o preparo. A especialista reforça que medidas simples fazem diferença. “Separar alimentos crus e prontos, utilizar utensílios diferentes ou higienizá-los entre usos, higienizar as mãos frequentemente, limpar superfícies com sanitizantes adequados e armazenar carnes cruas em recipientes fechados na parte inferior da geladeira”, alerta.

Alimentos crus ou mal cozidos exigem atenção

O consumo de carnes mal passadas ou ovos crus também representa risco significativo à saúde, especialmente para grupos mais vulneráveis. Carla destaca que esses alimentos podem conter microrganismos perigosos. “Eles podem veicular patógenos como Salmonella spp., Escherichia coli e Campylobacter spp., causando desde gastroenterite até infecções mais graves, como a síndrome hemolítico-urêmica. Crianças, idosos, gestantes e pessoas imunossuprimidas são especialmente suscetíveis”, alerta.

Apesar dos riscos, pequenas mudanças na rotina doméstica são capazes de reduzir significativamente os casos de DTAs. A nutricionista enfatiza que ações básicas já têm grande impacto. “Higienizar as mãos corretamente e com frequência, manter alimentos sob refrigeração adequada, evitar contaminação cruzada, cozinhar bem carnes e ovos, higienizar corretamente hortaliças, não lavar carnes cruas e respeitar tempo e temperatura de armazenamento são medidas simples, mas extremamente eficazes”, conclui.

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